A pressa das empresas em adotar inteligência artificial e obter ganhos de produtividade pode antecipar cortes de pessoal antes que se avalie como a tecnologia poderia ampliar as capacidades das equipes.
O alerta é de Ozioma Egwuonwu, especialista em estratégia de transformação e cultura organizacional da Singularity University, para quem preparar os profissionais deve ser parte central dessa mudança. “Precisamos pensar em como qualificar e fortalecer a força de trabalho antes de avançar para a ideia de demitir”, afirma. Nigeriana criada em Nova York, Ozioma é fundadora da BurnBright International, consultoria de transformação e desenvolvimento de lideranças. Também lecionou na Universidade Columbia, nos Estados Unidos, onde ensinou a desenvolver e implementar projetos.
Job hugging: o que é e por que ficar no mesmo emprego pode virar problema para empresas e funcionários Futuro terá mais trabalho, mas menos empregos tradicionais, diz especialista em inovação Pesquisa Google Cloud: 7 em cada 10 brasileiros já usam IA no trabalho, mas maioria teme ser substituída Há cerca de 17 anos, trabalha com organizações e líderes em processos de mudança. Na avaliação de Ozioma, à medida que o acesso às ferramentas de IA se amplia, a vantagem competitiva das empresas depende cada vez mais da capacidade de suas equipes de avaliar situações, tomar decisões e trabalhar em conjunto. Em entrevista à Época NEGÓCIOS, Ozioma defende que as empresas estabeleçam objetivos claros para o uso da IA, avaliem resultados em vez da frequência de utilização das ferramentas e incluam os funcionários nas decisões. Ela também alerta para os efeitos de tratar profissionais em início de carreira como dispensáveis e sustenta que explorar diferentes cenários de futuro deve fazer parte da formação de estudantes e trabalhadores.
ÉPOCA NEGÓCIOS — Qual é a mudança mais profunda que você observa no mundo do trabalho hoje?
Ozioma Egwuonwu — Em alguns aspectos, vejo um retrocesso. Falamos de tecnologia com poderes quase divinos, mas, em anos anteriores, percebia mais empatia, mais compreensão e mais valorização dos aspectos humanos. Tenho a impressão de que estamos perdendo isso. Acredito que os movimentos sejam cíclicos e que essa valorização possa voltar, mas é algo que me preocupa. Outra grande mudança está no ritmo das transformações. A velocidade é tão alta que altera a maneira como pensamos sobre o trabalho e como trabalhamos juntos.
ÉPOCA NEGÓCIOS — A tecnologia está avançando mais rápido do que podemos acompanhá-la?
Ozioma Egwuonwu — A cada ciclo de transformação, as organizações se perguntam se têm capacidade para lidar com a mudança. E descobrem que têm. Somos resilientes e desenvolvemos novas capacidades para responder ao momento.A diferença é que agora estamos perdendo de vista o componente humano. Acredito que conseguiremos acompanhar, mas é crucial pensar em como faremos isso e em que medida preservaremos nossa humanidade nesse percurso. ÉPOCA NEGÓCIOS — Como recolocar as pessoas no centro dessa transformação?
Ozioma Egwuonwu — Precisamos parar de tratar a relação entre sistemas tecnológicos e pessoas como uma equivalência direta, como se fosse possível dizer que um agente de IA corresponde a determinado número de seres humanos. Não é assim que funciona. Temos de rever essa conta e os valores que a orientam. O discernimento e a capacidade de construir relações, algo que o Brasil faz muito bem, são capacidades que nos tornam humanos. Elas podem se tornar vantagens competitivas se forem colocadas no centro da estratégia. Todas as organizações vão ter acesso às mesmas ferramentas. Onde estará, então, a verdadeira vantagem competitiva? Nas capacidades humanas e na maneira como as empresas requalificam e desenvolvem seus profissionais. Espero esse despertar e acredito que ele começa a acontecer quando organizações demitem e depois percebem que precisam voltar a contratar. ÉPOCA NEGÓCIOS — Entre IA, mudanças demográficas e crise climática, quais forças terão mais peso sobre o trabalho nos próximos anos?
Ozioma Egwuonwu — Todas terão um papel importante. Acredito que parte da resistência à IA esteja relacionada aos impactos climáticos. Esse é um dos motivos pelos quais comecei a desenvolver uma estratégia de cultura de IA com intencionalidade. Não acredito que a tecnologia deva ser usada para tudo dentro das organizações. Precisamos definir quais são os melhores resultados e os usos de maior valor estratégico, incorporando a IA aos fluxos de trabalho de uma maneira que evite desperdícios. Nas mudanças demográficas, temos pessoas mais velhas permanecendo por mais tempo no mercado e, ao mesmo tempo, funções de entrada sendo vistas como dispensáveis porque a IA pode executar suas tarefas. Isso exigirá repensar o sistema e como podemos organizar o trabalho para considerar essas diferentes forças. Educação e capacidade de aprendizado, agilidade e colaboração serão fundamentais. Não diria que todas essas forças terão o mesmo peso. Acredito que a questão ambiental poderá exercer a influência mais forte sobre as decisões das organizações e sobre a reação das pessoas a essas escolhas. Ozioma Egwuonwu é fundadora da BurnBright International Divulgação ÉPOCA NEGÓCIOS — Muitas empresas adotam IA pelo entusiasmo com a tecnologia. Essa postura está mudando?
Ozioma Egwuonwu — Existe uma visão de que estamos diante da descoberta do fogo pela segunda vez, uma tecnologia de uso geral capaz de resolver tudo. Ela é poderosa, mas começamos a perceber os limites desse poder. Com o aumento dos custos de utilização, também começa a haver uma revisão de como avançar. Isso me anima. Como acontece com qualquer nova tecnologia, primeiro vem a empolgação, a vontade de experimentar. Depois, desenvolvemos uma compreensão mais sóbria e uma visão sobre o que queremos fazer. À medida que o entusiasmo diminui, acredito que os líderes terão mais clareza para responder: como realmente queremos usar isso? Quais resultados queremos alcançar? Como queremos desenvolver nossas equipes para aproveitar essa tecnologia no futuro? ÉPOCA NEGÓCIOS — Quais são os riscos de adotar IA sem discutir as mudanças com as equipes? Ozioma Egwuonwu — Quando a transformação é imposta aos trabalhadores, em vez de construída com eles, há resistência. A organização deixa de utilizar a tecnologia da melhor forma possível em cada equipe e com cada profissional. Dessa maneira, acaba sabotando os próprios esforços porque não terá o apoio e a colaboração necessários para implementar a tecnologia plenamente. Além disso, perde a oportunidade de aproveitar as melhores ideias que existem dentro da empresa.
Uma cultura saudável permite que essas ideias apareçam, que as pessoas colaborem em diferentes partes da organização e que novas possibilidades surjam. Quando não existe essa construção conjunta, o progresso fica limitado. A imposição também perpetua uma cultura de medo. As pessoas já estão inseguras com o que leem nas notícias e com as mudanças em suas funções. Se forem excluídas da conversa, terão ainda mais dificuldade para confiar na organização e contribuir com o seu melhor. Acredito em uma combinação de direcionamento da liderança com participação das equipes. As duas coisas precisam acontecer. ÉPOCA NEGÓCIOS — Como buscar eficiência com IA e, ao mesmo tempo, ampliar a autonomia dos profissionais? Ozioma Egwuonwu — Faço uma distinção entre autonomia e capacidade de agir. Autonomia é a liberdade de fazer as coisas por conta própria. A capacidade de agir, para mim, está relacionada a como essas tecnologias podem apoiar o crescimento e o desenvolvimento de uma pessoa. Hoje, muitas avaliações se baseiam em quantas ferramentas alguém utiliza. Acredito que esse seja um caminho certo para o fracasso. Precisamos identificar os resultados esperados, avaliar as pessoas por esses resultados e apoiar a inovação que permite alcançá-los. Vejo três movimentos necessários. O primeiro é uma mudança de mentalidade, para que os profissionais deixem de sentir que não têm poder de ação. O segundo é uma reorientação cultural, identificando onde a cultura da organização não está alinhada às oportunidades de uma adoção estratégica da tecnologia. O terceiro é dar condições para que as pessoas inovem a partir de objetivos definidos coletivamente. Com esses objetivos claros, podemos redesenhar os fluxos de trabalho e ampliar a capacidade de tomar decisões à medida que tarefas mais simples são automatizadas. A questão é como trabalhar juntos para criar resultados que não conseguiríamos alcançar sozinhos e que a IA, isoladamente, também não produziria. Quando colaboramos e utilizamos a tecnologia, podemos gerar algo que vai além do que uma pessoa sem as ferramentas ou as ferramentas sozinhas conseguiriam fazer. ÉPOCA NEGÓCIOS — O medo de perder o emprego pode dificultar esse processo. Como as lideranças devem lidar com ele? Ozioma Egwuonwu — Esse é um problema global e muito real. Há organizações demitindo e deixando de contratar por causa dessa tecnologia. São medos fundamentados. Cabe aos líderes reconhecer isso e entender que não podem avançar diretamente para as demissões sem considerar a qualificação das pessoas e a transformação do trabalho. É preciso mudar a maneira como as organizações entendem essa oportunidade. Os líderes devem reconhecer os receios sem alimentá-los.
Não podemos simplesmente dizer que vamos demitir todos ou o maior número possível de pessoas. Precisamos pensar onde podemos desenvolver novas habilidades e como fortalecer as equipes antes de avançar para a ideia de demitir. Acredito que estamos sendo precipitados. Algumas organizações começam a perceber o problema de demitir ou de não contratar profissionais em início de carreira. Quem será o futuro da sua força de trabalho? São pequenos despertares das lideranças. Cada etapa dessa transformação traz novas percepções e leva as empresas a rever quem querem se tornar. ÉPOCA NEGÓCIOS — Você ensinou a desenvolver e implementar projetos na Universidade Columbia. O que precisa mudar na educação para preparar as pessoas para trabalhos que ainda não existem? Ozioma Egwuonwu — Uma das maiores mudanças é incorporar o pensamento de futuros. Isso vale para as universidades e também para as organizações. Essa forma de pensar precisa se tornar uma prática, quase como algo obrigatório, e não ficar restrita a quem estuda especificamente esse tema. Não se trata apenas de pensar no futuro que desejamos para a nossa vida ou para a empresa, mas sim reconhecer e explorar futuros possíveis, considerar cenários, impactos e as forças que nos afetam. No caso da tecnologia, por exemplo, precisamos investigar de que maneiras ela poderá alterar nosso caminho. Adotar essa perspectiva muda a forma como tomamos decisões. Elementos desse modo de pensar e agir deveriam estar presentes em todo o sistema educacional. ÉPOCA NEGÓCIOS — Quais decisões empresariais de hoje podem ser vistas como grandes erros daqui a 10 anos? Ozioma Egwuonwu — A principal é adotar uma lógica de substituição de pessoas, em vez de ampliação de suas capacidades. Outra é não investir o suficiente na formação de futuros profissionais. As posições de entrada precisam ser entendidas como um investimento fundamental no futuro da organização. Não se pode esperar que a IA substitua todo o trabalho humano. Esse é o maior erro. Qualquer líder que defenda essa perspectiva está cometendo um grande equívoco. Também é um erro ignorar o impacto ambiental da tecnologia. Precisamos de uso responsável, governança responsável, colaboração e cuidado com a cultura organizacional. Se isso não for feito hoje, teremos grandes problemas no futuro. ÉPOCA NEGÓCIOS — Se pudesse redesenhar o trabalho do zero, o que deixaria para trás? Ozioma Egwuonwu — Abandonaria a ideia de que precisamos ser mais inteligentes e de que nossa qualificação é o que determina nosso sucesso. A inteligência também está na colaboração e no próprio sistema que construímos. Precisamos olhar para o contexto que criamos dentro das organizações e para o contexto que oferecemos à tecnologia para alcançar melhores resultados. Isso significa passar de uma visão de inteligência individual para uma abordagem que considere um ecossistema formado pela cultura, pelas pessoas e pelos sistemas que utilizamos. Cada profissional, cada sistema e cada pessoa que colabora deve estar voltado à integridade e à força dos sistemas que estamos criando, com a humanidade no centro. É nessa direção que acredito que estamos caminhando: sistemas centrados nas pessoas, fortalecidos pela tecnologia. Futuro do Trabalho Arte/ÉpocaNegócios Mais Lidas
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