À frente da campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o publicitário Raul Rabelo defende que a experiência vitoriosa leve o governo a uma comunicação mais próxima da população no quarto mandato. Com a oposição em mobilização constante, avalia o marqueteiro, Lula e seus aliados não podem “recomeçar” o processo a cada quatro anos.
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A campanha de Lula foi criticada por aliados no primeiro turno por tratar mais do legado e menos do futuro. Houve erro na condução?
Não vejo como um erro. A campanha à reeleição tem que prestar contas do mandato.
O legado é parte fundamental para se apontar ao futuro. O primeiro turno foi capturado pela crise do Banco Master.
Isso gerou uma desmobilização, e muita gente que ia votar no Lula achou que não precisava ir. Então acendeu a luz vermelha (no primeiro turno, com Flávio Bolsonaro à frente).
Como essa “luz vermelha” foi trabalhada para a guinada na comunicação ? Tudo fica mais claro no segundo turno.
É uma partida de mata-mata. As pessoas começam a olhar para os dois lados e a entender o que cada um representa.
A comunicação consegue se tornar mais efetiva na hora de comparar projetos, biografias… O que estava em jogo eram os riscos a partir de uma possível volta do bolsonarismo e o que Lula representa. Outra crítica feita pelo entorno de Lula é que no primeiro turno houve falhas na coordenação política, o que afetou a comunicação.
Faltou comando? Meu comandante sempre foi o presidente Lula.
Tudo era submetido a ele. E Edinho (Silva, presidente do PT) era coordenador.
No segundo turno, chegaram novas forças, como Camilo Santana (senador), Rafael Fonteles (governador do Piauí) e Rui Costa (senador eleito). O que precisou ser revisto e repensado foi rapidamente ajustado.
O que teve que mudar? O susto (com Flávio à frente de Lula) trouxe uma mobilização com mais força.
Foi natural que a gente reagisse com energia. No primeiro programa de TV do segundo turno, trouxemos aquela molecada que estourou de voto, como a Camila Jara (PT-MS), Ana Elisa (PT-MG), Guilherme Cortez (PSOL-SP).
Essa juventude começou a levar a campanha à frente. Houve também o movimento dos estudantes.
Tudo isso acendeu a fagulha. Foi uma vitória do “sim” ao Lula ou do “não” ao Flávio?
Foi um “sim” ao Lula. Mas é claro que do outro lado há uma rejeição.
É um modelo oposto a tudo que o Lula representa. Essa rejeição impulsionou a “estratégia do medo” no 2º turno.
Houve demora para colocar esse plano em prática? Havia mais interesse do eleitor na campanha na reta final.
O que mudou do primeiro para o segundo turno foi mais o ambiente do que a linha que estávamos seguindo. Mas foi natural pesar mais a mão na parte propositiva e nos comparativos entre um governo e outro (de Jair Bolsonaro).
O contraste não é feito só de ataques ao adversário, mas com confronto de ideias e projetos. Subestimaram a capacidade eleitoral de Flávio Bolsonaro?
O adversário não foi só Flávio Bolsonaro. Era a tentativa de criar um antiLula.
Não foi tentativa de subestimar, mas de enfrentar quem estava no jogo. Claro que, com o legado deixado pelo pai, o processo de comparação fica mais fácil.
Se fosse um outro candidato, talvez fosse outra conversa. O ministro Sidônio Palmeira já participava da campanha, mas se licenciou do governo só no segundo turno para se dedicar integralmente.
Essa demora foi um erro? Não.
Sidônio tinha uma missão para além do processo eleitoral. O governo tinha muito serviço para mostrar.
Quem também chegou no segundo turno foi o marqueteiro Otávio Antunes, que teve atritos com Sidônio. Quais eram as divergências?
Os questionamentos que podem ter existido sempre foram resolvidos pela coordenação, que tinha um alinhamento muito claro conosco. A política está sempre acima da comunicação.
Toda ajuda foi bem-vinda. A ex-senadora Kátia Abreu afirmou que a campanha deveria ter “menos Janja e mais Alckmin”.
A primeira-dama passou a aparecer menos no segundo turno. Foi um pedido da campanha?
Não teve orientação. Toda campanha tem diferentes momentos.
O presidente é casado, Janja é uma mulher que tem participação política, então você apresenta o candidato e a sua companheira. Mas Lula é o protagonista do processo.
Janja ajudou muito o Rafael Fonteles a convencer o presidente a fazer os vídeos em formato de selfie no segundo turno. A campanha foi atrás do deputado André Janones ou ele se ofereceu para participar?
Ele deu uma grande contribuição. Temos contato com todo mundo.
Na hora em que ele começou a montar o “Exército do Lula” no WhatsApp, conversamos e fizemos a conexão com a equipe do digital para dominar o canal junto com ele. Estávamos todos alinhados no discurso e produzimos a live (da véspera do segundo turno).
O canal foi muito importante para manter o pessoal mobilizado até a última hora. A extrema direita sempre faz isso nas eleições, mantendo o nível de mobilização.
A gente aprendeu e manteve a ebulição até o último momento. Vocês controlavam as mensagens que o Janones mandava no WhatsApp?
Ele tinha autonomia. Criou o “Exército” e colocou à disposição do presidente.
Combinamos com ele muitas vezes: “Vamos falar das perdas que o povo brasileiro pode ter” (em caso de vitória de Flávio). Havia linhas estratégicas.
O TSE chegou a tirar do ar links difundidos por ele no canal por conterem informações falsas. Esse tipo de conteúdo tinha o aval da campanha?
Nunca trabalhamos com desinformação. Sempre tinha alguma comprovação por trás, como reportagens.
O compromisso com a verdade é decisivo para o processo eleitoral. Se teve, em algum momento, alguma coisa que saiu, não foi por intenção de fazer fake news.
Pode ter sido um erro. Como o “Exército do Lula” será usado daqui para frente?
Toda campanha deixa um aprendizado. A extrema direita fica em campanha constante.
E o governo precisa estar sempre presente, ser percebido pela população e estar cada vez mais perto. Quanto mais a comunicação chega às disputas, mais o povo tem um interesse sobre as pautas.
Fortalece a democracia. O governo tem como botar para frente uma comunicação ainda mais próxima do povo.
O tom do segundo turno é o que deve ser adotado pelo governo? Essa temperatura alta é muito desgastante.
Não dá para aguentar essa pressão toda. Mas o governo precisa disputar as pautas.
A desinformação é o que mais atrapalha. Regular as redes sociais é um processo importante para qualquer democracia.
Muitas vezes, o governo faz uma coisa positiva, mas chega na ponta como se fosse negativa. As pessoas precisam ser informadas sobre as intenções e as políticas públicas.
Agora, o engajamento é diferente do eleitoral, então o desafio é complexo. Que mudanças devem ocorrer?
É sempre salutar ampliar a comunicação com a população. Não dá para chegar de quatro em quatro anos e recomeçar todo o processo.
A experiência da campanha serve para que o campo progressista possa ter uma comunicação mais perene e constante. O povo deve participar mais.
Lula anunciou medidas como aumento do Bolsa Família e restrição às bets, e o Congresso aprovou o fim da escala 6x1. Qual teve mais impacto?
Não tem bala de prata. É um conjunto.
No final das contas, tudo deu uma ideia de um projeto de país que a maioria da população entendeu como melhor que o outro. Sidônio vai ficar na Secom?
Não tenho a menor ideia. A meu ver, ele completou um ciclo importante.
E o senhor vai para o governo? Não tenho perfil.
Não passa pela minha cabeça.
O Globo