A ala paulista do PT saiu da campanha à reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) menos influente e pode perder espaço no quarto mandato. Em contrapartida, o PT do Nordeste e o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) ganharam força.
A montagem do próximo governo dará pistas de como esse rearranjo se reflete na disputa pelo espólio político do presidente e na sucessão, em 2030. Mais Janones, menos Haddad: fotos mostram mudança de protagonismo na campanha de Lula entre primeiro e segundo turnos
Jogo Político: 'Governo Lula já procurou o PSD, e podemos ter uma relação mais profunda', diz Kassab Após quatro anos marcados pelo protagonismo da esquerda, apesar da promessa de uma frente ampla contra o bolsonarismo, Lula dá sinais de que pretende imprimir uma nova dinâmica à gestão a partir do próximo ano, abrindo espaço para partidos além do PT em postos estratégicos.
A queda de braço dentro da aliança pela influência nos rumos do Executivo já começou. Na reorganização do entorno presidencial, petistas reconhecem que a ala paulista perdeu espaço na campanha.
O presidente da sigla, Edinho Silva, deputado federal eleito por São Paulo, viu o senador e ex-ministro Camilo Santana (PT-CE), o governador reeleito do Piauí, Rafael Fonteles (PT), e o senador eleito Rui Costa (PT-BA) assumirem a linha de frente da coordenação no segundo turno, enquanto o deputado André Janones (Rede-MG) ganhou papel central na mobilização digital, com o canal de WhatsApp “Exército do Lula”.
Edinho foi alvo de queixas internas pela condução do partido e da candidatura presidencial. Em uma reunião da cúpula do PT, a ex-senadora e ex-ministra Kátia Abreu, filiada ao partido, criticou a coordenação nacional da campanha, formada segundo ela por “paulistas sem voto”.
Lula também chegou a dizer que aquela havia sido a campanha mais desorganizada que já disputou. No discurso da vitória, não citou o coordenador-geral.
O apoio público veio na quarta-feira, em publicação nas redes sociais, na qual Lula afirmou que a dedicação do dirigente foi “fundamental para a pavimentação desse caminho que nos conduziu à vitória”. Aliados de Edinho afirmam que ele conta com o apoio do presidente e das principais lideranças petistas, incluindo as do Nordeste.
Em entrevista ao GLOBO, Edinho disse que, se o PT estiver forte, organizado nacionalmente e em “sintonia com os anseios do povo brasileiro”, a liderança que vai suceder o presidente “vai emergir naturalmente”. Papel em São Paulo
O ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad também enfrenta críticas internas após ser derrotado no primeiro turno por Tarcísio de Freitas (Republicanos) na disputa pelo governo paulista. Aliados minimizam as queixas e as classificam como “fogo amigo”.
Na avaliação deles, Haddad foi para o “sacrifício”, a pedido de Lula, ao disputar uma eleição na qual provavelmente sairia derrotado. Também destacam sua atuação no segundo turno e atribuem a ele parte do desempenho do presidente no estado de São Paulo, onde Lula passou de 38,20% dos votos válidos no primeiro turno para 46,15% no segundo.
Antes cotado como principal nome para a Casa Civil, Haddad também é lembrado para os ministérios das Relações Exteriores e da Justiça e Segurança Pública. Ainda que aliados digam que é cedo para falar de sucessão, há a avaliação de que o PT do Nordeste e Alckmin se fortaleceram principalmente pela atuação no segundo turno.
Fonteles, Camilo Santana e o grupo petista da Bahia, que elegeu a chapa completa, com o governador Jerônimo Rodrigues e os senadores Rui Costa e Jaques Wagner, ampliaram a influência. Fonteles, Camilo e Rui Costa são cotados para postos de destaque no próximo governo.
Fonteles é apontado como possível nome para a Fazenda, enquanto Camilo é cotado para a Casa Civil ou a Segurança Pública. Rui Costa é lembrado para uma pasta da área de infraestrutura.
Alckmin também teve papel de destaque na reta final da campanha. Logo no início do discurso da vitória, Lula passou a palavra ao vice e disse que ele havia sido um dos responsáveis pelo resultado: “Ele tem muito a ver com essa nossa vitória”.
Em ato da militância pelos seus 81 anos, na terça-feira, o petista voltou a elogiar o companheiro de chapa, afirmando que ele tem ajudado de “forma extraordinária” e que terá “um papel muito importante” no novo mandato. Interlocutores de Lula veem como natural que Alckmin assuma uma pasta de maior destaque.
A Fazenda é uma das possibilidades, o que o coloca em rota de disputa com Fonteles. A projeção de Alckmin tem implicações que vão além da distribuição de cargos.
Associado a uma condução econômica mais comprometida com o equilíbrio fiscal, o vice representa uma visão que contrasta com a de integrantes do governo e do PT, e essas divergências apareceram nos últimos dias. Na terça-feira, o ministro José Guimarães (Relações Institucionais) afirmou que o governo não discute um ajuste fiscal e que o tema não está entre as prioridades do Executivo no Congresso até o fim do ano.
Na mesma noite, recuou nas redes sociais: “Responsabilidade fiscal e compromisso social caminham como prioridade no governo Lula”. Já o ministro Guilherme Boulos (Secretaria-Geral da Presidência) escreveu que quem defende ajuste com cortes em políticas sociais “não entendeu nada do que foi essa eleição” e que a agenda econômica “será a que venceu as eleições, não a que perdeu”.
Do outro lado, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, defendeu no início da semana uma política fiscal voltada ao centro da meta de resultado primário e o avanço na revisão de despesas obrigatórias. A ex-ministra Simone Tebet, que deve ser acomodada na Esplanada, segundo aliados, e o próprio Alckmin também defendem maior atenção às contas públicas.
Centrão e juventude Um interlocutor do petista diz que Lula sabe que o resultado de 25 de outubro não reflete uma aprovação de seu governo ou dele próprio, e que por isso será preciso ampliar o leque de forças representadas no próximo mandato.
Em 2022, o presidente foi eleito sob o mote de uma frente ampla contra o bolsonarismo, mas partidos aliados reclamaram da falta de espaço, sobretudo nas pastas de maior visibilidade. No segundo turno, siglas de centro aderiram à candidatura de Flávio Bolsonaro (PL), apesar de terem indicados na Esplanada.
Desde o resultado, o governo destacou emissários para se aproximar de lideranças do Centrão em busca de governabilidade no Congresso. Aliados do presidente dizem que é preciso obter desses partidos compromisso com a agenda do Planalto, diferentemente do terceiro mandato, em que as siglas se declaravam independentes, mas mantinham indicados no primeiro escalão.
Interlocutores também apostam que Lula dará mais espaço a jovens, após ter sido cobrado pela falta de representatividade no Ministério. O próprio petista tem destacado o papel da juventude na campanha.
O deputado Rubens Pereira Jr. (PT-MA), um dos vice-presidentes do PT, diz que “está cedo” para falar no novo governo, mas que Lula “já sabe onde acertou e onde errou” na composição do terceiro mandato:
— É normal que o Nordeste tenha maior representatividade, porque o desempenho foi muito bom. Mas isso não significa reduzir a influência de São Paulo.
É natural que o novo governo deva refletir a campanha, com alguns ganhando protagonismo e outros perdendo, e apontar para o futuro. A composição do governo pode indicar lideranças com potencial para disputar a sucessão, mas aliados dizem ser precipitado falar no pós-Lula, já que muita coisa pode acontecer até 2030.
A avaliação de um aliado de longa data do presidente, porém, é que Haddad já não está sozinho. Se antes era considerado o sucessor natural de Lula e “navegava sozinho” nesse sentido, agora divide espaço com nomes como Fonteles e Camilo.
O Globo