A derrota do presidenciável do PL, senador Flávio Bolsonaro (RJ), em Minas tem imposto obstáculos na articulação do senador Cleitinho Azevedo (Republicanos), governador recém-eleito, para atrair o apoio do PL à nova gestão. Depois de ter assistido ao aliado ser vencido pelo presidente Lula no estado, Cleitinho se tornou alvo de críticas pela suposta falta de engajamento no segundo turno, fator antes estabelecido como decisivo para o partido ingressar ou não na base governista na Assembleia Legislativa.
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Passada a eleição, o PL cobra alinhamento do próximo governador às pautas defendidas pela sigla em Minas. O mesmo critério determinará a posição do PT na Casa em relação à nova gestão.
Mesmo diante da identificação de Cleitinho com a direita e do endosso a Flávio durante a campanha, a direção da legenda em Minas não descarta uma aliança, mas a condiciona a um distanciamento do PL por parte do governador eleito. No estado, no entanto, integrantes do núcleo bolsonarista voltaram suas críticas a Cleitinho depois do desempenho considerado frustrante de Flávio em Minas.
O filho do ex-presidente Jair Bolsonaro ficou à frente na primeira votação, por uma diferença de 588 mil votos, mas perdeu para o petista no segundo turno por 109 mil votos. O novo governador foi apontado como um dos responsáveis pela perda da vantagem inicial, assim como o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG).
O parlamentar coordenou a campanha em Minas, mas, na reta final, percorreu outros estados com os “bloquinhos do 22”, nem sempre com a presença de Flávio. Ausência em ato conjunto
Já para Cleitinho foi delegada a função de reunir apoios locais e participar de atos em Minas em apoio a Flávio. Na primeira agenda conjunta entre os dois, no entanto, o governador eleito se ausentou após passar mal.
Os dois só foram se encontrar na véspera do segundo turno, em um ato organizado em Belo Horizonte. Cleitinho concentrou suas manifestações de apoio ao aliado nas redes sociais, também usadas por ele para rebater Lula.
Durante uma visita a Juiz de Fora, o petista disse que o candidato do Republicanos ao governo de Minas não precisava apoiá-lo, e sim permanecer “quietinho”. Em resposta, Cleitinho disse, em um vídeo, que estava concentrado na transição do governo, mas reafirmou o endosso a Flávio.
Após a derrota do presidenciável do PL, o mineiro não comentou o resultado nem a fuga do aliado do Brasil, mas publicou uma gravação contra os boicotes organizados por eleitores bolsonaristas a estabelecimentos de petistas. Nos comentários, apoiadores de Flávio retomaram as críticas e o questionaram sobre o empenho durante a campanha.
As cobranças são consideradas infundadas por Luís Eduardo Falcão (Republicanos), vice-governador eleito, que considera que o momento deveria ser usado pelo entorno de Flávio “para identificar e reconhecer os erros da própria campanha em vez de buscar culpados”. — O Cleitinho declarou apoio ao Flávio em fevereiro.
Reiterou diversas vezes, mesmo com o PL lançando candidato em Minas. No segundo turno, não só participamos, como ajudamos a mobilizar os eventos para os quais fomos convidados — afirma o vice.
Na coordenação do processo de transição, Falcão espera um encontro ao longo dos próximos dias com representantes do PL no estado para a discussão da posição do partido em relação ao novo governo. Durante a campanha, uma aliança chegou a ser discutida pelo deputado estadual reeleito Bruno Engler (PL), líder da bancada do partido na Assembleia.
Ele, no entanto, condicionara a decisão à atuação de Cleitinho a favor de Flávio. — Se o Cleitinho entrar de cabeça na campanha do Flávio, for o cabo eleitoral que a gente precisa e espera dele, naturalmente terá a nossa gratidão — disse Engler na ocasião, à rádio local 98 News.
Terminada a eleição, a aproximação ainda está no horizonte do presidente do diretório estadual do PL, deputado federal Zé Victor, mas ele pondera que a decisão dependerá da disposição do novo governo de se manter alinhado com os ideais defendidos pelo partido. — Nós fomos procurados pelo governador Cleitinho para um início de conversa nos próximos.
Isso não significa uma composição, e sim que temos a porta aberta para contribuir com o estado — diz Zé Victor. — Queremos ter um governo com pautas alinhadas e um método de gestão eficiente e coerente com aquilo que a gente prega.
A necessidade de um alinhamento programático também será usada como critério para definir a postura do PT em relação à nova gestão. Com a segunda maior bancada eleita para a Assembleia, atrás somente do PL, o partido não decidiu integrar a oposição de forma automática, prevendo que o posicionamento a ser seguido dependerá das decisões e das prioridades estabelecidas pelo governo.
— Se houver propostas que contribuam para melhorar a vida da população, estaremos dispostos ao diálogo. Mas, se o governo optar por redução do papel do Estado, retirada de direitos, enfraquecimento das políticas públicas ou retrocessos ambientais, encontrará em nossa bancada oposição firme — pontua a deputada estadual Leninha, presidente do diretório do PT em Minas.
Ela admite, no entanto, que a eventual presença do PL na base governista deverá afastar o partido da composição por “diferenças profundas com a agenda defendida pela extrema direita”. Já a presidente do diretório estadual do PSOL, Isabela Lourença, adianta que o partido será oposição em função “primordialmente do apoio do Cleitinho a Flávio Bolsonaro”.
O Globo