Professor da FGV EBAPE, o cientista político Carlos Pereira afirma que o eleitor brasileiro manifestou, nas urnas, a percepção de que a volta do bolsonarismo ao poder representa uma incerteza maior que a continuidade de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), mesmo diante do cansaço com o governo.
Depois da surpreendente vitória de Flávio Bolsonaro (PL) no primeiro turno, diz, houve um afunilamento em torno das duas candidaturas, e a “mobilização gigantesca” nas últimas três semanas levou à virada inédita na história brasileira por meio não só da queda da abstenção, mas também pela provável migração de votos de Flávio para Lula.
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A que atribui a virada inédita? Foi pela queda da abstenção e do “não voto” em geral? Não compro totalmente a tese de que foi apenas isso, parece ter tido também bastante reversão de voto de Flávio para Lula.
Especialmente no Sudeste, em Minas Gerais. É claro que ainda precisa ver melhor, mas, no calor do momento, parece ter havido.
A campanha no segundo turno de Lula foi muito efetiva, e essas mobilizações conseguiram dar resultado. Foram dois resultados surpreendentes: o do primeiro turno, com a vitória de Flávio, e a virada de Lula no segundo.
O que de certa forma reforça a saúde da democracia brasileira, que é muito dinâmica e competitiva. De novo chegamos ao dia da eleição sem saber quem seria o vencedor.
Essa incerteza, para todos os autores que estudam teoria democrática, é o que incentiva os jogadores a jogar o jogo. O que pesou, pensando na dinâmica em si da campanha, para a virada?
Houve uma mobilização gigantesca em torno da imagem do que representaria um governo de Flávio. A sociedade se mostrou ainda muito impactada com o que foi a gestão do pai.
Esses votos revertidos parecem ter sido muito em cima disso, da visão de que Flávio era uma incerteza muito maior. Não ficou claro se Flávio jogaria para a herança do pai ou criaria um legado próprio.
Às vezes jogava para a base, dizia que tiraria o pai da cadeia, e às vezes tentava prometer um legado de responsabilidade macroeconômica. No segundo turno, jogou muito na defensiva, e Lula foi para o tudo ou nada.
As mobilizações refletiram muito essa sensação de risco do eleitor mediano. O eleitor mediano arcou com o custo da manutenção porque a alternativa era muito arriscada.
Preferiu manter o jogo como está mesmo insatisfeito, frustrado. Dá para dizer que o primeiro turno foi uma campanha de “não” a Lula, e o segundo de “não” ao bolsonarismo?
Sim. O primeiro turno foi uma rejeição a esse cansaço, essa fadiga da sucessão de governos Lula.
Muita gente está cansada, mas, quando vê a possibilidade real de um governo Flávio, pesam os receios, os fantasmas que emergem na cabeça desse eleitor mediano. Quem decidiu a eleição foi, de novo, o eleitor mediano que migrou para Lula, se engajou na candidatura dele.
O segundo turno foi extremamente mobilizado nas ruas e nas redes, ao contrário do primeiro. Qual avaliação faz das últimas três semanas?
No segundo turno, os dois polos afunilaram. A surpreendente vitória de Flávio no primeiro gerou um engajamento muito forte dos eleitores que têm receio do retorno da família Bolsonaro ao poder, isso galvanizou energia em torno da figura de Lula.
Por outro lado, a candidatura de Flávio teve que dar uma resposta, depois de jogar muito na defensiva. A não ação de antes gerava efeitos esperados e bem-sucedidos, mas, numa estratégia final em que quem decidiria a eleição seria um eleitor que não é favorável a nenhum dos dois, e que é sensível a ações de última hora, houve o engajamento dos dois lados em busca desse eleitor.
No primeiro turno, os lados não sentiram a necessidade de um engajamento tão grande. Engajar tem um custo, e as pessoas só topam arcar com esse custo quando sentem que há um risco de perder.
O que esperar do quarto mandato inédito? A lua de mel das pessoas com governos no mundo todo tem sido curta. Como a mediana do Congresso ficará mais à direita do que já é, a dificuldade para um quarto mandato, já com fadiga e toda a história do PT de governar com os parceiros como se fossem apêndices e não verdadeiros parceiros, gera um contencioso, porque há uma longa história de relações negativas.
A probabilidade de um quarto mandato de Lula ser bem-sucedido no Legislativo com essa configuração diminui. No entanto, o Executivo é muito forte no Brasil, mesmo com todo o crescimento das emendas.
Mesmo presidentes que gerenciam mal a coalizão, como tem sido o caso de Lula, ainda têm chance de montar uma nova coalizão e governar. Vai ter que pensar na montagem disso, estabelecer políticas claras de concessão para os partidos do Centrão, que com certeza vão estar abertos a ofertas do governo para compor.
Mas o custo, claro, deve ser maior. Foi a última eleição de Lula.
O que pensar em relação ao futuro do grupo político dele? Ele terá, agora, que preparar um sucessor com antecedência.
É difícil prever quem será, não se sabe isso agora no calor do momento. Quanto mais cedo forem gestados esses nomes, mais provável será eles se consolidarem e receberem o bastão.
E o futuro da oposição? A oposição vai ter que pensar em uma alternativa não bolsonarista, depois de duas derrotas consecutivas dos Bolsonaro.
Talvez para a democracia brasileira isso tenha sido muito interessante. Se os Bolsonaro alimentavam qualquer esperança de libertar, abreviar a prisão do ex-presidente com a vitória de seu filho, isso se torna menos provável agora.
A oposição ao governo Lula, os partidos que têm potenciais candidatos, precisam se organizar cedo para construir essa candidatura independentemente do bolsonarismo. Achava-se que Flávio seria um candidato fácil para Lula derrotar.
O que a competitividade dele, mesmo depois de o pai ter sido condenado por tentativa de golpe, diz sobre o eleitorado brasileiro? Existe uma carência do eleitor brasileiro por líderes de perfil populista, à esquerda e à direita.
Lula, como ninguém, encarna esse perfil do líder populista de esquerda, expressada na campanha pela sanha de gastos para não perder a eleição, e Jair Bolsonaro é a grande figura populista da direita. Numa disputa tão acirrada e polarizada, a identidade em torno do nome desses líderes carrega afetos, desafetos, engajamento.
Esse desempenho surpreendente de Flávio se deve à conexão direta com o pai, com o nome, e à incompetência dos partidos de centro-direita em forjar candidaturas competitivas. As melhores opções foram preteridas pelos dirigentes partidários, e acabaram concorrendo apenas políticos mais velhos ou histriônicos.
O que a bagunça de ontem envolvendo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e o Supremo Tribunal Federal (STF) revela sobre o papel do Judiciário na campanha? Claramente a interpretação dominante que se tem sobre o TSE e a Suprema Corte é a politização, a formação de dois blocos claros.
Isso é um problema muito grande que o Judiciário vai ter que resolver, especialmente num ambiente em que o PL tem uma quantidade de votos considerável no Senado e que, na condição de oposição, mobilizará energias para tentar o impeachment de ministros do Supremo. Em vez de esperar iniciativas da política, a própria Suprema Corte vai precisar tentar readquirir legitimidade com a sociedade, e para isso vai ter que lidar com os ministros envolvidos diretamente no caso Master.
Reforma do Judiciário é algo que tende a acontecer ou foi bravata de campanha de ambos os lados? Acredito que foi muito mais uma retórica de campanha.
Acho que será o próprio Supremo quem dará respostas à sociedade. É muito difícil que um Legislativo fragmentado como o nosso e um governo de coalizão imponham perdas ao Judiciário.
Esses ajustes que venham a acontecer tendem a vir do próprio Judiciário, do pleno do Supremo.
O Globo