Uma filial da empresa de inteligência artificial de Elon Musk oferece comprar casas de um bairro em Southaven, no Mississippi; a meta seria de 418 imóveis, segundo um corretor ouvido pelo The Guardian. A MZX, que opera o centro de dados da xAI na cidade, aceita pagar pelas unidades com uma condição, segundo o Xataka.
O proprietário tem de abandonar a ação coletiva que os moradores movem contra o barulho e a poluição do empreendimento. Ao menos 18 proprietários já aceitaram a oferta, segundo apurou o jornal britânico The Guardian e repercutiu o Tecnoblog.
Em carta enviada aos residentes, a MZX afirma que “precisa de terrenos para seus fins comerciais”. A compra, porém, só se fecha se o dono da casa ficar de fora do processo judicial.
O ruído não vem de aeroporto algum, e sim das turbinas que alimentam o centro de dados, ligadas dia e noite. Elizabeth Rose, professora de piano do bairro, diz que o som lembra o motor de um avião, contínuo e muito forte, e que às vezes a acorda às duas ou três da manhã.
A central alimenta o maior centro de dados da xAI, parte da corrida da empresa para treinar modelos de inteligência artificial que consomem energia em escala industrial. As turbinas a gás entraram como solução temporária, e é o barulho delas que os moradores enfrentam há mais de um ano.
Elizabeth batizou o projeto de “Elonville” para criticar o que vê como a transformação do bairro em área de serviço da empresa. Não seria a primeira vez que Musk compra quarteirões para abrigar funcionários, como fez a SpaceX em Bastrop, no Texas, e na base de lançamento de Boca Chica.
A ação que a empresa quer desmontar A ação coletiva foi aberta pouco depois de o complexo começar a operar, quando três moradores denunciaram o ruído e as vibrações quase constantes da estrutura.
O processo pede que a empresa elimine o barulho e reduza a poluição do ar, que piorou desde que o centro entrou em funcionamento. Um dos autores, Jason Haley, mora a cerca de 800 metros da central e publica vídeos em que mede o estrondo.
A documentação sustenta a queixa, já que os fiscais municipais não apontaram infração ao limite local de 70 decibéis. A xAI nega as acusações e afirma ter erguido muros para abafar o som.
O prefeito de Southaven, Darren Musselwhite, defende a operação. Diz que as casas vão abrigar funcionários e que a compra é um gesto de boa vontade de uma empresa socialmente responsável.
A Organização Mundial da Saúde, por sua vez, estuda os efeitos do ruído ambiental sobre o sono e o coração, com referências mais rígidas que o limite municipal de 70 decibéis. Turbinas que a agência mandou licenciar
O complexo funciona com 69 turbinas a gás temporárias, do tamanho de um caminhão. A empresa sustentava que, por serem móveis, não precisavam de licença de qualidade do ar.
No início deste ano, a Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos determinou o contrário e passou a exigir o licenciamento. A Associação Nacional para o Avanço das Pessoas de Cor (NAACP), histórica organização de direitos civis, e grupos ambientalistas entraram com ação para parar as turbinas de forma preventiva.
O Departamento de Justiça tentou frear o processo alegando segurança nacional, e um juiz rejeitou o pedido. Há alguns meses, a xAI fechou acordo com o regulador ambiental do Mississippi para retirar as turbinas antes de julho de 2027.
No lugar, vai instalar uma usina fixa de 1,2 gigawatt, com 41 turbinas autorizadas. Até a troca, o ruído continua.
O país também não quer o vizinho barulhento Southaven não está sozinha.
Um levantamento da consultoria Gallup indica que 71% dos americanos rejeitam um centro de dados na vizinhança. Em sondagem da Reuters com a Ipsos, só 14% apoiariam um na própria comunidade.
O rastreador Data Center Watch contabilizou 75 projetos de centros de dados bloqueados ou atrasados no primeiro trimestre de 2026. Juntos, somam cerca de 130 bilhões de dólares imobilizados pela pressão de moradores, o equivalente a mais de 700 bilhões de reais.
A compra das casas transforma o direito de processar em item de negociação. Quem assina a venda abre mão, junto com o imóvel, da ferramenta coletiva que os moradores tinham para forçar a empresa a reduzir o barulho.
O modelo tende a se repetir onde o setor avança, inclusive no Brasil, que tenta atrair investimentos em centros de dados. As turbinas seguem ligadas até julho de 2027, e a cláusula de compra ainda não foi testada em tribunal.
Até que seja, a empresa segue comprando casas, e quem não vender continua a conviver com o zumbido.
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