Disputa cristã: na reta final, Lula aposta em eventos nichados, e Flávio ganha destaque no púlpito de grandes igrejas

Disputa cristã: na reta final, Lula aposta em eventos nichados, e Flávio ganha destaque no púlpito de grandes igrejas - Foto
Fonte da notícia: O Globo O Globo

Na reta final da campanha, um dos grupos que vem sendo disputado pelos candidatos à presidência da República é de cristãos evangélicos, mas Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) escolheram estratégias diferentes para chegar ao segmento.

Para a campanha de segundo turno, o petista passou a contar com pastores e lideranças de grupos cristãos progressistas em uma estratégia no WhatsApp e nas redes sociais, além de eventos nichados para este público, enquanto o presidenciável do PL ganhou respaldo mais explícito de pastores de grandes igrejas e subiu em púlpitos. Lideranças religiosas aliadas aos dois apontam que há uma disputa sobretudo para conquistar o voto dos eleitores com menor renda.

Na esquerda, de caravana a folhetos de oração Na esquerda, já existia uma movimentação com as páginas de “evangélicos com Lula”, mas foi a partir do resultado do primeiro turno, em 4 de outubro, que a campanha para este setor ganhou mais força com publicações coordenadas nas redes e canal de WhatsApp dedicado.

O vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB), católico, passou a ser um dos aliados de maior destaque para falar sobre assuntos religiosos, tanto para os protestantes quanto para os católicos. A ex-ministra do Meio Ambiente Marina Silva (Rede), os deputados Pastor Henrique Vieira (PSOL-RJ) e Otoni de Paula (PSD-RJ), o pastor Ariovaldo Ramos, da Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito, também são nomes que vêm ajudando nessa campanha.

Alckmin virou o representante de Lula para mirar nos indecisos, e nesse escopo estão evangélicos, católicos e judeus. Em 10 de outubro, o vice-presidente participou de um ato dos Judeus pela Democracia, em São Paulo e, dois dias depois, foi ao Santuário de Aparecida, onde defendeu a liberdade religiosa. Participou também de um podcast com Ed René Kivitz, pastor da Igreja Batista da Água Branca.

Na semana passada, Lula divulgou uma carta aos evangélicos e, nesta semana, uma outra aos católicos. Sem apoio de lideranças de grandes igrejas, alinhandas publicamente ao bolsonarismo nos últimos pleitos, a campanha de Lula tem falado mais diretamente com os fiéis e com pastores de pequenas congregações, que muitas vezes ficam nas periferias, com uma comunicação que dá ênfase a políticas públicas de transferência de renda, a educação e a proteção da mulher e da família.

Material de campanha da esquerda para o público cristão Hyndara Freitas / O GLOBO O fim da escala 6x1 e a proibição da bets também são pautas bastante usadas em materiais divulgados na internet e em atos públicos. Outra estratégia tem sido lembrar da gestão de Jair Bolsonaro (PL) na pandemia da Covid-19, que deixou 700 mil mortos no país, e explorar contradições de Flávio Bolsonaro, afirmando que “mentira também é pecado”.

Também foi na campanha de segundo turno que começaram as caravanas da esperança, que já passaram por capitais como São Paulo, Maceió, Fortaleza, Belém e Brasília, que são encontros com cristãos, onde são discutidos temáticas voltadas a esse público e distribuídos materiais de campanha que falam diretamente com evangélicos e católicos. Um dos folhetos estampa a uma foto do Papa Leão XIV e a frase “a extrema direita não representa o cristianismo”. Em outro material, há uma lista de “coisas que o Lula já fez pelos evangélicos”.

Santinho pró-Lula para o público cristão Hyndara Freitas / O GLOBO — A população evangélica é majoritariamente feminina e está na base da pirâmide, e a luta contra o feminicídio tem sido marca do governo Lula. Tem a questão da educação, que sempre foi um elemento muito forte para a fé evangélica. Mas claro, estamos falando de 30%, 40% dos evangélicos que nunca se submeteram ao bolsonarismo, mas a gente está vendo mudanças de opinião — diz Ramos, mencionando também a carta de Lula aos evangélicos, distribuída pela frente na semana passada.

Henrique Vieira reconhece que houve uma “demora” da campanha em olhar com mais atenção para o segmento religioso, tanto católico quanto evangélico, mas aponta a concorrência com o poderio da direita nas igrejas como desafio. Ele diz que as ações são uma “tarefa de formiguinha”, mas que “numa eleição tão acirrada, podem fazer a diferença”. — O Lula proíbe as bets e com o Flávio, é óbvio que as bets voltarão, e o público cristão é muito contra as bets por conta do vício e do adoecimento das pessoas. Muita gente liga para a pauta do fim da escala 6x1, e com o Flávio tudo indica que essa PEC será alterada. E tem uma dimensão ética na qual a gente tem insistido, a violência, a relação com matadores profissionais e a defesa das armas que o bolsonarismo tem — diz. Na direita, apoio em púlpito, manifesto e economia Flávio, por outro lado, tem respaldo de lideranças de grandes congregações evangélicas com milhares de fiéis, algumas inclusive levando-o ao púlpito e comparecendo aos seus atos de rua.

Diferentemente do pai, que tinha um respaldo mais “automático” do segmento evangélico por causa da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL) — integrante da família com mais entrada nesse público —, Flávio demorou um pouco para ter o apoio explícito de grandes lideranças. Mas, durante a campanha, antes e depois do segundo turno, ele acabou ganhando esse endosso da maioria das igrejas.

— As igrejas, de modo geral, estão consolidadas à direita. A gente sabe que tem um grande contingente que depende do Bolsa Família e de programas de assistências, e que ainda pensam muito no Lula e ainda ficam com medo de votar no Flávio e perder isso, mas as manifestações e declarações do Flávio e da Daniella (Marques, coordenadora do plano econômico do candidato) têm dado muita confiança. O Lula fez muito em 20 anos, agora já está idoso, ele não é eterno – diz o bispo Robson Rodovalho, da Sara Nossa Terra, que tem feito campanha para Flávio neste segundo turno.

Flávio e o governador eleito Douglas Ruas (PL) na festa de centenário das Assembleias de Deus do Ministério de Madureira, no Maracanãzinho Gabriel de Paiva/ Agência O Globo Ele reconhece que a proibição das bets por Lula, no meio da campanha eleitoral, foi um ponto que agradou os evangélicos, já que este é um tema que preocupa muito o segmento. Entretanto, afirma que a questão econômica tem pesado para as igrejas, e que o PT “não tem um plano econômico bom”, citando o preço dos alimentos como um dos problemas.

A pauta social acaba sendo o maior campo de batalha, especialmente nos dias que antecedem à eleição — e é nessa área que os religiosos alinhados a Flávio mais têm atuado nesta reta final. Em um vídeo publicado na semana passada em redes bolsonaristas, pastores abordam justamente a pauta social, dizendo que "o Bolsa Família e o Farmácia Popular não vão acabar" e que se trata de uma "fake news". No último dia 19, Flávio ganhou o respaldo público da Confederação dos Conselhos Pastores do Brasil (Concepab), que reúne representantes evangélicos de todo o país, em uma carta.

No fim de semana, a Convenção Fraternal das Assembleias de Deus no Estado de São Paulo (Confradesp) também embarcou publicamente na campanha pró-Flávio, por meio de um vídeo publicado nas redes sociais pelo pastor e deputado federal Paulo Freire Costa (PL-SP). Dias antes, o Bispo Samuel Ferreira, presidente da Convenção Nacional das Assembleias de Deus no Brasil (Conamad), recebeu Flávio no púlpito de um evento no Rio que celebrou o centenário das Assembleias de Deus Ministério Madureira, onde o político cantou, orou e recebeu pedido de voto --- a Assembleia de Deus é a maior congregação evangélica do país. Líderes de outras grandes denominações como a Renascer em Cristo e Mundial do Poder de Deus também se posicionaram em prol do postulante do PL.

Nas redes sociais, de maneira independente dos dois candidatos, uma guerra que se vê em vídeos no TikTok e no Instagram é “cristão não pode ser de esquerda X cristão pode ser de esquerda”, com tom ideológico. Se em 2022 havia o temor mais explícito de que “Lula fecharia as igrejas”, nesta eleição, além de abordarem a questão econômica e o temor da insegurança urbana, alguns criadores de conteúdo e pastores contrários ao petista recorrem às raízes de movimentos de esquerda para falar que a esquerda defende aborto e “ideologia de gênero”, algo que as páginas de Lula tem trabalhado para rebater.

Compartilhar: WhatsApp Facebook Telegram X

Deseja ler a íntegra original na fonte jornalística?

Acessar matéria no site O Globo