Os bairros do chamado “centro expandido” de São Paulo nunca tinham dado uma vitória para Lula (PT) antes da eleição de 2022. Historicamente, essa região — que inclui boa parte da classe média alta da cidade — votava no PSDB e preferia nomes como Fernando Henrique Cardoso e Geraldo Alckmin nas disputas à presidência.
No pleito presidencial passado, porém, a rejeição ao governo de Jair Bolsonaro quebrou essa regra e o coração da metrópole "vermelhou". Agora, a derrota de Flávio Bolsonaro (PL) confirma — e até amplia — esta tendência.
São Paulo: Lula vence Flávio por 11 pontos na cidade, com melhores votações na Bela Vista e Paraisópolis A primeira “mancha vermelha” no mapa da Grande São Paulo surgiu em 1994, mas apenas em uma área específica: o ABC, onde Lula se projetou como sindicalista, que compreende os municípios de Santo André, São Bernardo, São Caetano e Diadema.
A influência petista só se expandiria em 2002, quando Lula venceu pela primeira vez, mas se limitou ao restante da Região Metropolitana (Guarulhos, Osasco e outras cidades), sem invadir a capital paulista — e, menos ainda, o centro expandido. Veja a evolução nos botões do mapa, no qual o "centro expandido" está destacado em verde:
O cenário, que opunha um “cinturão vermelho” ao redor de uma "capital azul”, se manteve — e até se aprofundou — na eleição de 2014. O país vivia o rescaldo dos protestos de 2013, o início da Lava Jato e o Fora Dilma, que resultaria no impeachment da ex-presidente no ano seguinte.
Naquele pleito, quase toda a conurbação urbana votou em Aécio Neves no segundo turno. O sentimento anti-petista permaneceu no pleito seguinte, em 2018, quando surgiu Jair Bolsonaro.
O mapa se mostrou quase o mesmo da eleição anterior, com a capital e o entorno azuis. Então veio o governo de Bolsonaro.
E, na eleição seguinte, em 2022, pela a primeira vez Lula venceu na cidade de São Paulo e em todos os principais colégios eleitorais ao redor. Inclusive no centro expandido.
A leitura parecia clara: o establishment paulistano, antes de ser de esquerda ou de direita, era avesso ao radicalismo. Antes, era Lula quem carregava a imagem de radical, mas o quadro se inverteu com a ascensão do bolsonarismo.
Agora, Lula voltou a vencer o bolsonarismo — desta vez representado por Flávio — nesse recorte do centro expandido, assim como na contagem total do município de São Paulo. O atual presidente venceu Flávio por 11 pontos percentuais na cidade, com melhores votações na Bela Vista e na zona eleitoral de Piraporinha, onde fica a favela de Paraisópolis.
Na Região Metropolitana, que inclui 39 municípios (SP, ABC e o resto do entorno), ao todo Lula teve 54%, contra 46% de Flávio. A diferença em números absolutos foi de quase 1 milhão de votos (997.382).
Quando comparados os segundos turnos de 2022 e 2026, Lula ampliou sua vantagem sobre o candidato de ocasião da família Bolsonaro de 68 para 83 das 123 zonas eleitorais da região metropolitana. No centro expandido, virou o jogo na ZE da Saúde, e no município, ganhou agora em bairros de periferia onde tinha perdido em 2022, como Jaçanã, na zona norte, e Cangaíba, na zona leste.
Mesmo em bairros onde o resultado não se alterou, aprofundou sua vitória, como na Vila Mariana e o Jabaquara. No ABC, Lula conseguiu recuperar duas zonas eleitorais onde tinha perdido em 2022: Capuava, em Santo André, e Planalto, em São Bernardo.
Em Guarulhos, recuperou a ZE de Cumbica.
O Globo