O preço internacional do açúcar subiu 28,8% em outubro na comparação com o mesmo mês de 2025 e chegou à quarta alta mensal consecutiva. O dado foi divulgado na sexta-feira, 6 de novembro, pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura, a FAO.
O açúcar está no maior patamar desde dezembro de 2024. Frente a setembro, avançou 6,6%.
A alta veio na contramão do resto da cesta. O índice geral de preços de alimentos da FAO ficou em 133,9 pontos em outubro, recuo de 1,2% sobre setembro.
O indicador reúne cereais, óleos vegetais, laticínios, carnes e açúcar. Governos e empresas do setor o acompanham como referência para os preços dos produtos agrícolas negociados no mundo.
A pressão sobre o açúcar veio do clima no Centro-Sul do Brasil, principal região produtora do país. As chuvas interromperam a colheita e a moagem da cana.
A própria FAO atribui a alta a “interrupções relacionadas às chuvas nas operações de colheita e moagem da cana-de-açúcar” no Centro-Sul. O Brasil é o maior exportador mundial de açúcar.
Quando a moagem trava aqui, o mercado internacional perde sua principal fonte de oferta e o preço reage. O Centro-Sul concentra a maior parte da cana colhida no país e o parque industrial que a transforma em açúcar e etanol.
Uma chuva forte nessa faixa derruba o ritmo de toda a cadeia. A cana precisa ser moída poucas horas depois do corte, porque perde açúcar a cada dia parada no campo.
Chuva no meio da colheita atrasa essa conta e encarece o que chega à moenda. O câmbio também entra no cálculo.
Um real mais fraco aumenta a receita das usinas com a exportação e reforça a preferência pelo mercado externo. A Índia é o segundo maior produtor mundial de açúcar.
Qualquer dúvida sobre a safra indiana mexe direto com a cotação global do produto. A FAO registra incerteza sobre a produção na Índia, na União Europeia e na Tailândia na safra 2026/27.
A soma dessas dúvidas com a chuva brasileira sustenta o preço. A mesma cana que falta ao açúcar alimenta as usinas de etanol.
A divisão da moenda entre os dois produtos faz qualquer perda de matéria-prima pressionar o adoçante no mercado externo. No restante da cesta, o mês foi de alívio.
Os cereais tiveram a maior queda, de 4,5%. O trigo interrompeu uma sequência de quatro meses de alta.
A queda veio com a demanda internacional mais fraca, a melhora das perspectivas de produção na Argentina e a expectativa de menos restrições ao transporte no Mar Negro. O milho recuou depois de bater em setembro o maior preço em três anos.
A colheita nos Estados Unidos e a oferta prevista na América do Sul pesaram na queda. O arroz seguiu na direção oposta e subiu 1,6%, com atrasos de colheita em países exportadores e custos de produção mais altos.
As carnes caíram 1,2%, com suína, ovina e bovina mais baratas e o frango praticamente estável. Os laticínios recuaram 1,1%, puxados pela manteiga e pelo queijo, enquanto o leite em pó subiu.
Os óleos vegetais avançaram 0,3%. A soja atingiu o maior nível desde o fim de 2022.
A demanda do setor de biocombustíveis e a oferta menor típica desta época na América do Sul sustentam o preço. A queda dos cereais, dos laticínios e das carnes mais do que compensou a alta do açúcar e o avanço dos óleos vegetais.
O indicador geral fechou o mês em baixa por causa desse desequilíbrio. Entre os cinco grupos da cesta, o açúcar foi o que subiu com mais força em outubro.
O avanço dos óleos vegetais ficou bem abaixo. Para o consumidor brasileiro, o número da FAO não chega direto à prateleira.
O índice mede preços de exportação em dólar, e câmbio, frete, impostos e margem do comércio se interpõem entre a cotação internacional e o pacote de açúcar do supermercado. O açúcar também entra no carrinho pela porta dos industrializados.
Biscoitos, refrigerantes e doces carregam o custo da matéria-prima. A queda dos cereais e das carnes tende a aliviar o custo de quem cria aves e suínos.
O repasse ao varejo depende de cada elo da cadeia. O índice geral ainda está 5,9% acima de outubro de 2025.
Em relação ao pico de março de 2022, quando a guerra na Ucrânia disparou os preços, está 16,4% abaixo. A safra de cana do Centro-Sul vai de abril a novembro, e a partir daí a moagem entra em ritmo menor.
Cada nova rodada de chuva pode adiar a recuperação da oferta. O que mantém o açúcar caro está no calendário da chuva no Centro-Sul.
A safra 2026/27 e a volta da moagem em ritmo normal dirão se a quarta alta seguida é efeito pontual do clima ou um patamar novo para o adoçante no mundo.
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