A Comunidade Boliviana de Sobreviventes pediu, neste sábado (7), ao papa Leão XIV, em viagem por Uruguai, Argentina e Peru, uma resposta institucional justa e definitiva às denúncias de abusos contra menores atribuídos a jesuítas em diferentes centros e missões da Bolívia. O grupo indicou, em uma carta aberta dirigida ao líder da Igreja Católica, que a crise de abusos na Bolívia não encontra uma resposta institucional adequada.
"Nós, as vítimas, apresentamos denúncias formais à Conferência Episcopal Boliviana (CEB), à Nunciatura Apostólica e ao cardeal Toribio Porco Ticona, sem obter até o momento uma prestação de contas", destacou a carta à qual a AFP teve acesso. A carta assinala que, "em todos os casos que envolvem jesuítas por supostos delitos sexuais, reinou a impunidade devido a um arcabouço institucional que facilitava seus crimes e os protegia", no qual, segundo os denunciantes, estiveram implicadas estruturas da Companhia de Jesus na Espanha e na Bolívia, assim como a Cúria Geral da ordem em Roma.
As vítimas também reivindicam que o Vaticano intervenha nas investigações eclesiásticas pendentes. A carta será entregue na segunda-feira ao papa por meio da Nunciatura Apostólica da Bolívia, disse à AFP Edwin Alvarado, secretário de relações internacionais da Comunidade Boliviana de Sobreviventes.
A Comunidade pediu que o papa, em sua visita à América do Sul, "inclua um espaço" para ouvir as vítimas de abuso clerical na Bolívia. A organização menciona cerca de 810 vítimas em diferentes casos de supostos abusos sexuais no país, embora não especifique se os números correspondem a pessoas distintas.
Vários casos "graves" e "documentados" ocorreram há algumas décadas e envolvem jesuítas que, em sua maioria, já faleceram. Entre os casos mais divulgados, a carta citou as denúncias de abusos em um colégio na cidade de Cochabamba, onde o grupo identificou "400 vítimas de cinco jesuítas que eram diretores, educadores, enfermeiros e guias espirituais".
Entre os apontados está o espanhol Alfonso Pedrajas, falecido na Bolívia aos 66 anos em 2009 em decorrência de um câncer, sem nunca ter sido julgado. A Igreja Católica manifestou várias vezes seu pesar pelo ocorrido e até o papa Francisco expressou, em junho de 2023, sua "vergonha e consternação".
O Globo