247 – A tentativa de engajamento de candidaturas da comunidade LGBTQIA+ em partidos situados no centro, na centro-direita e na direita resultou em desempenho eleitoral pífio na disputa por cadeiras na Câmara dos Deputados em 2026. Nenhum dos postulantes dessas correntes ideológicas conseguiu se eleger, enquanto a totalidade dos 35 parlamentares eleitos identificados com a pauta ocupará vagas conquistadas por legendas de esquerda como PT, PSOL, PCdoB e PV. A falta de convergência desses quadros também se reflete no segundo turno da eleição presidencial, em que a adesão ao nome de Flávio Bolsonaro (PL) passa longe de ser um consenso, informa a Folha de São Paulo.
O levantamento conduzido pelo painel VoteLGBT, organizado pelo Instituto Plena Cidadania, aponta que 516 concorrentes ao pleito deste ano declararam pertencer à comunidade. O segmento progressista concentrou a esmagadora maioria das candidaturas, com 408 nomes (79%). Na outra ponta, os partidos de centro somaram 64 postulantes (12,4%), enquanto as siglas de direita responderam por 44 candidaturas (8,5%). Para mapear esse universo, a instituição cruzou as autodeclarações de orientação sexual e identidade de gênero registradas na Justiça Eleitoral com respostas enviadas a um formulário próprio.
Entre os 26 nomes que tentaram vaga de deputado federal por agremiações de centro ou de direita, a aceitação popular mostrou-se irrisória: apenas nove conseguiram superar a marca de mil votos, e somente dois ultrapassaram a barreira dos 10 mil sufrágios.
Candidato no Ceará pelo Missão, Gabriel Carvalho contabilizou 10,2 mil votos, figurando como o quadro mais votado da legenda para a Câmara no estado. Empresário, ele defende a identidade de direita e rebate o viés das siglas progressistas.
“Eu percebo que sofri menos com o fato de ser um homem gay quando eu tive melhora financeira, quando tive melhora na qualidade de vida, quando pude morar num lugar melhor, quando eu tive meu próprio negócio”, afirma.
Indeciso quanto ao segundo turno presidencial, Carvalho recusa a vinculação automática aos polos em disputa. “Eu não me identifico com o Lula, mas também não consigo apoiar o Flávio. Não quero entregar o nosso Brasil para a família Bolsonaro”, declara.
A hesitação é compartilhada por Leonora Rosa, mulher trans que concorreu ao cargo de deputada federal em Minas Gerais pelo PP, obtendo 329 votos. Ela relata ter sido acolhida na legenda, embora ignorasse sua classificação ideológica na centro-direita. “Não gosto que as pessoas me tratem diferente porque eu sou uma mulher trans. Gosto que me tratem igual a qualquer pessoa”, pontua.
Com histórico de voto no candidato do PT, Leonora demonstra ceticismo quanto aos avanços reais obtidos pelo segmento sob as gestões petistas. “Sempre votei nele, porque representa a minha existência, para que a minha comunidade continue existindo. Eles falam que, se o Flávio ganhar, vamos perder esses direitos. Quais direitos? Falam que vamos perder nossa segurança, vão continuar nos matando. Mas a gente já morre”, analisa, resumindo o impasse: “um promete, mas não faz, e o outro não promete nada”.
Situação oposta ocorre entre os filiados ao PL, onde o alinhamento com a candidatura de Flávio Bolsonaro é explícito. Concorrendo pela Bahia sob a alcunha de ‘Lucas O Sincero’, o candidato gay Lucas Pellegatta festejou o resultado do primeiro turno. Ele declarou estar “muito motivado e feliz” com a liderança do senador frente a Lula, ao mesmo tempo em que disse estar “de luto” pelo insucesso de ACM Neto na disputa pelo governo baiano.
Sua aproximação com o campo conservador decorre da rejeição a programas de transferência de renda. “A única bolsa que deveria existir é a bolsa de estudos, para a pessoa estudar, arranjar um trabalho e basta”, defende Pellegatta, dirigindo suas restrições à dinâmica política do Nordeste e da Bahia. Ele ressalta ainda a aceitação de suas escolhas no ambiente familiar: “Sou casado com uma pessoa de direita. Meu esposo é italiano, o pai dele era de extrema direita, o avô era do Partido Fascista. Eu sempre fui aceito”.
A maior votação entre postulantes LGBTQIA+ do campo da direita foi obtida pela mulher trans Sophia Barclay, que somou 24,2 mil votos pelo PL de São Paulo, alcançando a posição de quarta suplente. A relação de Sophia com o grupo político do senador teve origem em uma controvérsia: após declarar em um programa de entrevista que o parlamentar havia mantido relações com uma amiga sua, ela veio a público retratar-se, atribuindo a falsa informação a um ex-empresário.
A reconciliação deu-se na Justiça. “Ele [Flávio] me deu muitos conselhos, falou que eu era uma menina muito jovem, que eu tinha que tomar cuidado com os contratos que eu assinava. Fizemos um acordo para que esse assunto morresse, e eu propus fazer a retratação pública nas minhas redes sociais”, relata Sophia.
Em sentido oposto, desilusões com o meio conservador provocaram rupturas. Apresentando-se na campanha como “gay de direita”, João Pedro Sastre (MDB) amargou 294 votos na disputa paulista e acusou o senador de traição, alegando ter acobertado um episódio em que foi impedido de entrar em um evento do político para evitar estragos à campanha.
Diante do fracasso, Sastre declarou voto em Lula na etapa final, embora negue mudança de posicionamento doutrinário. “Sobre questão de espectro político, a gente não muda da noite para o dia, né? A minha decepção foi com os eleitores do Bolsonaro e com o Flávio. Eu me senti abandonado. Fui contra toda a minha classe”, desabafa.
Representando o PSD em São Paulo, William Callegaro obteve 1,6 mil votos e busca se posicionar no centro, defendendo a construção de consensos. “Defender mandatos e um código de ética para ministros do STF parecia colocar você entre os apoiadores de Flávio. Defender os direitos LGBT+ parecia exigir alinhamento ao Lula. Eu defendo as duas pautas e não vejo contradição”, disse o ex-candidato, para quem as propostas programáticas acabaram sufocadas pelo personalismo político. Hesitante sobre o segundo turno, ele reitera que optou pela legenda pela oportunidade de “construir soluções pelo diálogo”.
Brasil 247