Campanha do segundo turno chega ao final com indefinição inédita na história

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Fonte da notícia: Valor Valor

Flávio Bolsonaro (PL) não conseguiu converter em voto os apoios de Ronaldo Caiado (PSD) e Augusto Cury (Avante) Andre Penner/AP

O debate que será transmitido nesta sexta-feira pela TV Globo, a mobilização dos eleitores, a atuação das plataformas digitais e eventuais decisões de última hora do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) vão definir o desfecho do segundo turno da eleição presidencial no domingo. A disputa entre o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tornou-se indefinida, de acordo a pesquisa Datafolha divulgada nesta quinta-feira.

Ela mostrou Flávio com apenas um ponto percentual de vantagem (47% a 46%) nos votos totais, e 50% para cada um nos votos válidos, um inédito grau de indefinição a três dias da eleição. Flávio não conseguiu, ao longo da campanha do segundo turno, converter em aumento de intenção de voto os apoios que recebeu dos candidatos eliminados na primeira rodada - Ronaldo Caiado (PSD), Augusto Cury (Avante) e Romeu Zema (Novo).

A militância lulista promoveu grandes manifestações de ruas e surpreendeu o adversário nas redes sociais, onde a direita é hegemônica, com a mobilização organizada no WhatsApp pelo deputado federal André Janones (Rede-MG), com o canal “Exército do Lula”. Mas o presidente continua limitado pela avaliação de seu governo.

A percepção negativa (39%) continua superando a positiva (36%), embora a aprovação tenha pela primeira vez superado a desaprovação desde julho (49% a 48%). A pedido da campanha de Flávio o presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, determinou nesta quinta-feira à empresa Meta, que informe em 24 horas se o canal de Janones, com 8,3 milhões de seguidores, promove ações coordenadas para interferir nos indicadores de busca.

As informações podem embasar uma suspensão do canal. Congressistas dos Estados Unidos enviaram ontem à Meta um documento em que pedem explicações em relação à supressão de conteúdos de campanha de Lula e ampliação do alcance de publicações favoráveis a Flávio.

A empresa foi multada pelo TSE em função disso. Alegou à Justiça ocorrência de falhas técnicas, já resolvidas e informou ter tomado providências para garantir a isonomia.

Praticamente inexistentes no primeiro turno, os debates televisivos submetem Flávio a uma zona de risco, porque o obrigam a uma maior exposição. A campanha no primeiro turno foi dominada por temas formalmente alheios ao debate eleitoral, como o envolvimento de ministros do Supremo no escândalo do Banco Master, que agitou o mês de setembro.

A falta de uma discussão eleitoral efetiva beneficiou a oposição, porque levou o eleitor à lógica plebiscitária” “A falta de uma discussão eleitoral efetiva beneficiou a oposição, porque levou o eleitor a reduzir seu processo de decisão de voto à lógica plebiscitária sobre se o governo merecia ou não continuar”, opinou Beto Vasquez, professor da Escola de Sociologia e Política de São Paulo (Fesp).

Independentemente do resultado eleitoral, o próximo presidente deverá iniciar o mandato com uma rejeição superior à aprovação, sob o risco de uma crise institucional e compelido a tomar medidas duras na área fiscal. Na economia, o presidente eleito vai se deparar com uma atividade em desaceleração, num cenário marcado pelo nível ainda elevado dos juros e por famílias e empresas endividadas.

Em 2027, PIB deverá crescer um pouco mais de 1%, um ritmo ainda mais fraco que os menos de 2% esperados para 2026, taxa já inferior às registradas nos cinco anos anteriores. Para completar, o cenário externo não será dos mais amigáveis, dada a perspectiva de juros mais altos nos países desenvolvidos.

O principal desafio do novo presidente será apresentar um plano crível de ajuste para reduzir as incertezas fiscais. A dívida pública segue em trajetória de alta, devendo encerrar o ano na casa de 83% do PIB, mais de 11 pontos percentuais do PIB acima dos 71,7% do PIB do fim de 2022.

Se o novo governo não adotar medidas para conter o crescimento das despesas obrigatórias, o Banco Central (BC) terá restrições para reduzir a Selic com mais força, sufocando as finanças de muitas famílias e empresas e mantendo nas alturas os gastos com juros do setor público. Luiz Inácio Lula da Silva (PT) teve apoio da militância em grandes manifestações de ruas e nas redes sociais,

Ricardo Stuckert/Divulgação Nem Flávio e nem Lula, ao longo da campanha, acenaram com nada disso.

O presidente foi na direção contrária, usando a caneta para tomar medidas de apelo popular com custo fiscal, como o perdão da dívida dos microempreendedores individuais (MEI) e o reajuste dos benefícios do Programa Bolsa Família, que estavam congelados desde 2023. Flávio prometeu um corte de gastos da ordem de R$ 200 bilhões, sem lastrear a promessa com iniciativas críveis para alcançar o objetivo.

Mencionou redução de ministérios, combate à corrupção e “gestão com IA”. A crise institucional no caso de um governo Flávio se dará inicialmente com o enfrentamento com o Supremo.

O candidato defende a abertura de processo de impeachment contra integrantes do STF e a anistia aos golpistas condenados pelos atos de 8 de janeiro, inclusive e principalmente seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro. As grandes bancadas parlamentares eleitas pelo PL (28 senadores e 121 deputados) podem não ser suficientes para manejar com tranquilidade o confronto institucional e a agenda pesada na economia.

O cientista político Carlos Melo, do Insper, lembra que a impopularidade alta de entrada repercutirá no Congresso. “O controle do Congresso é relativo.

O Centrão perdeu espaço, mas não quer ser engolido pelo PL e tende a se aproximar da esquerda para tirar proveito”, afirma. Ele cita como um movimento prévio neste sentido as articulações do presidente da Câmara Hugo Motta (Republicanos-PB), que apoia Lula, para garantir uma base de partidos que viabilize sua reeleição à frente da Mesa Diretora e isole o PL.

No Senado o bolsonarismo deve garantir a presidência da Casa, removendo do cargo Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), mas a obtenção do quórum de 54 senadores necessário para o afastamento de ministros do Supremo dependerá de negociações com integrantes do Centrão que podem até ter apoiado Flávio na campanha, mas que não são bolsonaristas incondicionais e nem fizeram do impeachment de ministros sua bandeira eleitoral.

Haverá um custo político a ser imposto a Flávio, tanto para aderir ao impeachment quanto para votar medidas de ajuste. “O STF, assustado, pode ser até mais dócil que o Congresso”, aposta Melo.

O Centrão perdeu espaço, mas não quer ser engolido pelo PL e tende a se aproximar da esquerda” O alinhamento prometido por Flávio com os Estados Unidos também promete turbulências.

Na opinião de Feliciano de Sá Guimarães, professor de Relações Internacionais da USP, o objetivo principal dos Estados Unidos será o de afastar o Brasil da China, o que implicaria em tensões econômicas internas. “Uma hostilidade aberta à China promoveria uma coalizão contrária dentro do Brasil, com setores empresários do agronegócio e de energia, entre outros”, avalia.

Caso seja reeleito, o objetivo número um de Lula deve ser o de evitar que um governo de minoria no Congresso leve a seu processo de impeachment, na opinião do filósofo Marcos Nobre, da Unicamp. Para isso, dificilmente um governo Lula IV poderia continuar contando com o Supremo para contrabalançar a pressões legislativas.

Seria necessário entregar o comando do Orçamento ao Centrão, como Jair Bolsonaro fez entre 2020 e 2022. Na economia, o governo Lula IV tende a se aproximar do mercado para tentar sobreviver.

“O mercado vai exigir R$ 250 bilhões de corte de gastos públicos e Lula vai ser obrigado a dar”, comenta Melo. Reeleita em 2014, Dilma Rousseff fez um movimento semelhante, ao nomear para a pasta da Fazenda o economista Joaquim Levy, à época diretor do Bradesco.

Levy fez um ajuste ortodoxo na economia ao longo do ano de 2015, mas uma conjunção de fatores de ordem política e jurídica levou ao impeachment da presidente no ano seguinte. No Senado, a maioria bolsonarista tende a criar obstáculos institucionais a um Lula reeleito.

Ele terá dificuldades para conseguir até mesmo a aprovação da indicação de um embaixador, tema que provoca apreensão no Itamaraty. Perderá muita margem de manobra para conseguir aprovar novos integrantes para o Supremo.

Há uma vaga aberta desde outubro do ano passado e outras três a serem preenchidas ao longo do próximo quatriênio, isso se não houver afastamento de membros do STF. (Colaborou Sergio Lamucci)

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