A Comissão de Energia da Califórnia passou a exigir que carregadores rápidos de veículos elétricos financiados com dinheiro público e instalados a partir de 28 de setembro usem a versão 2.0.1 do Protocolo Aberto de Ponto de Recarga, o OCPP. A regra vale para quem disputa os US$ 55 milhões, cerca de R$ 300 milhões, do Projeto de Infraestrutura de Veículos Elétricos da Califórnia, o CALeVIP, e obriga o equipamento a trocar de operadora de software sem parar de funcionar.
A Califórnia reúne mais carros elétricos que qualquer outro estado americano e transformou a recarga de rua em assunto de Estado. Leis aprovadas em 2022 e 2023 ordenaram à comissão impor padrões de confiabilidade e de compartilhamento de dados a instaladores que recebem recursos de agências estaduais ou de concessionárias reguladas, segundo a newsletter California Wire, da Canary Media.
O OCPP é uma especificação aberta que faz carregadores e sistemas de gestão de redes de fabricantes diferentes conversarem entre si. Sem esse padrão, o software que opera o equipamento fica amarrado ao fabricante, e mudar de fornecedor exige reinstalar o aparelho ou descartá-lo.
Do colapso da Enel X Way à exigência do protocolo O problema deixou de ser hipotético em 2024, quando a Enel X Way encerrou sua operação de recarga na América do Norte e abandonou cerca de 25 mil carregadores comerciais JuiceBox presos a software fora de padrão.
Os equipamentos continuaram instalados em garagens e estacionamentos, sem uma rede que os operasse. Michael Bakunin, diretor-executivo da Epic Charging, trabalhou com donos desses carregadores para migrá-los ao software da empresa e mantê-los vivos.
Ele afirma que a operação foi difícil e que atender às novas exigências da comissão também não é simples, ainda que a regra deva garantir a troca de fornecedor na próxima geração de equipamentos. O que a comissão exige e quem reclama
Além do protocolo aberto, os projetos financiados precisam usar equipamentos e fornecedores de software aprovados e entregar dados horários de desempenho. É na exigência de dados que mora a principal queixa.
Um funcionário de uma grande rede de recarga classificou as regras como um exercício oneroso de reporte, sem efeito sobre a confiabilidade. Obrie Hostetter, diretora de programas de descarbonização de frotas do Centro de Energia Sustentável, entidade sem fins lucrativos que administra o CALeVIP, reconhece a reclamação e responde com o argumento do dinheiro público.
Projeto bancado pelo contribuinte precisa servir ao público de forma confiável, e medir desempenho é como se verifica isso. A exigência californiana ocupa o espaço de um programa federal que já teve regras de confiabilidade.
A gestão de Joe Biden condicionou os US$ 5 bilhões, cerca de R$ 27 bilhões, do plano nacional de recarga a padrões de desempenho. O governo de Donald Trump desmontou essa estrutura e devolveu a tarefa aos estados.
O gargalo que a regra não fecha A confiabilidade não se resolve na troca de software.
Kameale Terry, diretora-executiva e cofundadora da ChargerHelp, empresa que conserta carregadores em todo o país, aponta dados ausentes ou incompletos como o obstáculo central. As equipes de reparo não recebem todas as informações de que precisam para descobrir o que quebrou.
Faltam também regras claras para as passagens entre diagnóstico do equipamento, comunicação com o carro e autorização de pagamento. Essa cadeia é onde a sessão de recarga costuma morrer, e foi para pressionar por mais transparência que a ChargerHelp e outras empresas apoiaram a lei de 2022.
O risco que chega ao Brasil No Brasil, o alerta tem endereço.
O grupo Enel, que fechou a operação de recarga nos Estados Unidos, controla distribuidoras de energia em São Paulo e no Rio de Janeiro. O país que enche as ruas de carregadores presos ao software de um único fornecedor herda o mesmo risco.
Para o motorista, o carregador órfão é um ponto de recarga que some do mapa. Para o dono do estacionamento, é um equipamento caro que perde a função e depende de terceiros para voltar a operar.
A regra californiana reduz a chance de o próximo colapso empresarial deixar o motorista na estrada. Ainda não garante que o carregador esteja funcionando quando ele encosta o carro.
Cafezinho