Tombo da bolsa e disparada do dólar exigem Fazenda capaz de ancorar expectativas

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Fonte da notícia: Brasil 247 Brasil 247

247 – A forte deterioração dos indicadores financeiros após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva reforçou a importância da escolha de uma equipe econômica capaz de ancorar expectativas, transmitir confiança e conciliar responsabilidade fiscal com crescimento e inclusão social.

Na semana seguinte ao segundo turno, o Ibovespa acumulou queda de 18,12%, seu pior desempenho semanal desde março de 2020, enquanto o dólar disparou 9,15%, encerrando a sexta-feira (30) cotado a R$ 5,4460, o maior patamar de 2026. Os dados foram divulgados pelo InfoMoney, com informações também da agência Reuters, e revelam a intensidade da reação dos mercados às incertezas sobre a condução da política econômica no quarto mandato de Lula.

A turbulência ocorre em um momento de indefinição sobre o futuro comando do Ministério da Fazenda e sobre as medidas que o governo pretende adotar para estabilizar a dívida pública e reduzir as pressões sobre os juros. O Ibovespa encerrou a sexta-feira em queda de 0,75%, aos 167.921,80 pontos, completando cinco sessões consecutivas de perdas.

O recuo semanal de 18,12% foi o mais acentuado desde março de 2020, quando o início da pandemia de Covid-19 provocou uma desvalorização de 18,88%. No acumulado de outubro, a Bolsa brasileira perdeu 9,88%, seu pior resultado mensal desde junho de 2022.

Apesar da forte correção, o índice ainda registrava valorização de 4,22% em 2026. O dólar, por sua vez, avançou 1,09% na sexta-feira e fechou a R$ 5,4460.

A valorização semanal de 9,15% reflete a desmontagem de posições financeiras que haviam sido construídas sob a expectativa de uma mudança de governo e de uma política econômica mais restritiva. Mercado cobra sinalização fiscal do governo Lula

Para Edgar Araújo, CEO da Azumi Investimentos, a trajetória recente da Bolsa demonstra os riscos de transformar expectativas eleitorais em apostas financeiras. “O Ibovespa saiu de 186.340 pontos no fim de setembro, chegou a fechar acima de 209 mil e agora está em 167 mil pontos.

A valorização inicial refletiu apostas em alternância de governo e ajuste fiscal. A reeleição de Lula provocou a desmontagem dessas posições, e as dúvidas sobre gastos e dívida prolongaram a pressão”, afirmou.

Segundo o executivo, o movimento atingiu especialmente empresas dependentes do crédito e do consumo, setores particularmente sensíveis à elevação das taxas de juros. Leonardo Mendes, economista e consultor financeiro da Manchester Investimentos, também associou a instabilidade à ausência de sinalizações mais claras sobre a política fiscal.

“Não houve nenhuma declaração por parte do governo, apaziguando o humor dos mercados, no sentido de que fará algum ajuste”, afirmou. A avaliação dos analistas reforça a importância de o presidente Lula apresentar, nas próximas semanas, uma orientação econômica capaz de reduzir as incertezas sem comprometer os compromissos sociais que marcaram sua campanha de reeleição.

O desafio não consiste apenas em satisfazer expectativas do mercado financeiro, mas em criar condições macroeconômicas favoráveis ao próprio desenvolvimento nacional. A disparada do dólar pode pressionar os preços de produtos importados e a inflação, enquanto a elevação dos juros futuros encarece o financiamento das empresas, das famílias e do próprio setor público.

Uma política fiscal crível, portanto, pode contribuir para reduzir o custo do crédito, recuperar os investimentos e ampliar a capacidade do governo de financiar suas prioridades sociais. Escolha do próximo ministro da Fazenda ganha importância

A turbulência financeira acrescenta uma dimensão de urgência à escolha do próximo ministro da Fazenda. Lula precisará definir um nome que reúna credibilidade técnica, capacidade de diálogo com investidores e empresários, compromisso com a responsabilidade fiscal e identificação com o projeto de desenvolvimento defendido pelo governo.

Entre os nomes considerados para a pasta estão o vice-presidente Geraldo Alckmin e o governador reeleito do Piauí, Rafael Fonteles, cuja formação econômica e boa interlocução com o mercado financeiro têm sido apontadas como vantagens. Fonteles defende que responsabilidade fiscal e avanços sociais não são objetivos incompatíveis.

Em entrevista recente à Folha de S.Paulo, o governador afirmou que Lula deverá conciliar essas duas agendas sem abandonar os ganhos sociais. “Ele vai navegar nesses dois campos, conciliar essas duas agendas, mas jamais vai abrir mão dos ganhos sociais a cada ano”, declarou.

A boa recepção de Fonteles entre agentes financeiros, alvo de críticas de alguns setores do PT, pode representar um ativo importante para o presidente neste momento. A recuperação da confiança dos investidores não exige necessariamente uma política de austeridade que sacrifique o crescimento ou as políticas sociais, mas depende de regras claras, previsibilidade e uma trajetória sustentável para as contas públicas.

A experiência dos primeiros governos Lula demonstra que estabilidade econômica e inclusão social podem caminhar juntas. Naquele período, o Brasil combinou resultados fiscais positivos, redução da relação entre dívida e PIB, fortalecimento das reservas internacionais e expansão das políticas de distribuição de renda.

O próximo ministro terá a tarefa de reconstruir essa confiança em um cenário internacional mais complexo e de maior sensibilidade dos mercados à trajetória da dívida pública. Queda das ações atinge bancos, siderúrgicas e empresas ligadas ao crédito

A instabilidade de outubro atingiu diferentes setores da Bolsa brasileira. Na sexta-feira, as ações da CSN recuaram 8,49%, enquanto as da Usiminas perderam 8,59%, pressionadas também por resultados empresariais considerados fracos.

Entre os grandes bancos, o Bradesco caiu 2,12%, o Itaú Unibanco perdeu 2,15% e o Santander recuou 2,84%. O Banco do Brasil foi a exceção, com leve valorização de 0,06%.

A Vale avançou 3,28% na sessão, beneficiada por aspectos positivos de seu balanço, embora tenha acumulado queda superior a 11% no mês. No conjunto de outubro, empresas como Vamos e Cosan registraram perdas expressivas, de 42,56% e 41,67%, respectivamente.

Na direção contrária, PRIO subiu 16,24% e Suzano avançou 12,74%. Estrategistas do Bradesco BBI avaliam que a forte desvalorização tornou diversas ações mais atrativas, mas alertam que a persistência dos juros elevados, as incertezas fiscais e possíveis revisões negativas dos lucros ainda podem limitar uma recuperação.

Próximas decisões serão determinantes para o rumo dos mercados O início de novembro será marcado por decisões importantes para a economia brasileira.

Na quarta-feira (4), o Comitê de Política Monetária (Copom) anunciará sua decisão sobre a taxa Selic, em um ambiente de pressão sobre o câmbio e de elevação dos juros futuros. Os investidores também acompanharão a definição da equipe econômica do próximo mandato e as primeiras sinalizações sobre eventuais medidas de ajuste das contas públicas.

A instabilidade internacional acrescenta dificuldades. Em Nova York, as ações de tecnologia sofreram pressão diante de preocupações com os elevados investimentos em inteligência artificial.

O cenário geopolítico também influencia os preços do petróleo e a disposição dos investidores para assumir riscos em mercados emergentes. Apesar das turbulências financeiras, a economia brasileira apresenta indicadores positivos em outras áreas.

Segundo o IBGE, a taxa de desemprego ficou em 5,2% no trimestre encerrado em setembro, em linha com as projeções dos economistas consultados pela Reuters. O contraste entre a situação do mercado de trabalho e a deterioração dos preços dos ativos financeiros mostra que a crise de expectativas não deve ser confundida automaticamente com uma deterioração generalizada da economia real.

Ainda assim, a intensidade das oscilações impõe ao governo a necessidade de agir com clareza. A reeleição de Lula assegurou a continuidade de um projeto político comprometido com a inclusão social e a soberania nacional.

Para transformar esse mandato em um novo ciclo de crescimento, porém, será necessário construir uma política econômica capaz de oferecer estabilidade, reduzir o custo do capital e preservar a capacidade de investimento público e privado. Nesse contexto, a escolha do próximo ministro da Fazenda tornou-se uma das decisões mais importantes do início do Lula 4.

Mais do que administrar as expectativas do mercado, o futuro titular da pasta terá a responsabilidade de criar as condições para que o país volte a crescer de maneira sustentada, com equilíbrio fiscal, juros menores e avanços sociais.

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