Brasil vai na contramão da América Latina e vê pessimismo com economia piorar

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Fonte da notícia: Globo Globo

Arte/Valor O brasileiro foi na contramão da maioria da América Latina e viu o pessimismo sobre a economia estar maior agora do que em 2023, segundo um levantamento feito com 16 países da região. Em 2023, 35% dos brasileiros diziam que consideravam que a economia havia piorado em relação ao ano anterior. Em 2026, em relação à situação de 2025, esse porcentual disparou para 59%. Além do Brasil, só México registrou uma piora na percepção econômica, mas numa proporção muito menor. Em 2023, 40% dos mexicanos consideravam que a economia havia piorado em relação ao ano anterior. Este ano, 42% dos mexicanos consideram que a situação piorou. Nos outros 14 países investigados, a população aponta percepções diferentes: uma melhora na situação da economia entre 2023 e 2026. Na Argentina foi onde houve o maior avanço na percepção. Em 2023, em meio à hiperinflação, nada menos que 86% disseram que as coisas estavam piores do que no ano anterior. Em 2026, com um quadro de preços ainda acelerado, porém em um ritmo menor, 65% apontaram piora em relação a 2025. Os dados fazem parte do Pulse of Democracy 2026, relatório do AmericasBarometer publicado pelo Center for Global Democracy e pelo Latin American Public Opinion Project da Universidade Vanderbilt, no Estado americano do Tennessee. As pessoas estão apoiando a democracia só pelo que ela entrega e não pelos valores democráticos; esse apoio não é forte, é apoio condicional” Participa também do projeto o Kellogg Institute for International Studies, uma instituição vinculada à Keough School of Global Affairs da Universidade Notre Dame, no Estado de Indiana. Na quinta-feira (22), os achados da edição deste ano da pesquisa serão apresentados durante um seminário no Departamento de Ciência Política da Universidade de São Paulo (USP). Os resultados já foram apresentados em instituições nos Estados Unidos e na Espanha. O AmericasBarometer começou a ser produzido em 2004. E apresenta, sobretudo, a percepção dos países da região em relação à democracia. Para a edição deste ano foram feitas 26.282 entrevistas com moradores de 21 países, dos Estados Unidos à Argentina. Nem todos os países têm dados anteriores para comparação com as respostas deste ano. É o caso do levantamento a respeito da visão da situação econômica em 2023 e em 2026, em que foram avaliadas respostas de 16 países cujos entrevistados trataram do tema nas duas rodadas. Melhoras na democracia Ao medir o sentimento dos entrevistados em relação à democracia, o AmericasBarometer captou um avanço este ano. Desde 2016, as sondagens vinham mostrando níveis relativamente baixos de apoio à democracia, oscilando entre 58% e 61%. Foram as menores marcas desde o início do projeto em 2004. Mas este ano, o nível de apoio subiu para 65%, na média de 18 países latino-americanos. A Colômbia, por exemplo, viu um salto no apoio de sua população aos valores democráticos. Em 2023, 51% dos entrevistados diziam que apoiavam a democracia; em 2026, 63%. No Uruguai, o resultado em 2023 era de 75% e agora, 86%. O Brasil ficou no grupo intermediário nesse tema, onde o sentimento de apoio subiu mais modestamente. No país, a marca em 2023 era de 64% e em 2026 subiu para 68%. O pior nível de apoio da população à democracia é no Peru, onde em 2023 era de 51% e em 2026, de 50%. Mas a tendência é claramente de alta no apoio. “O apoio à democracia reflete mudanças positivas nas experiências vividas pelas pessoas em relação à criminalidade, à corrupção e ao bem-estar econômico. Esses fatores têm melhorado, em média, em toda a América Latina nos últimos anos”, apontam os autores do Pulse of Democracy 2026. Robert Vidigal, que integra a equipe de acadêmicos lideradas pelo professor de ciência política Noam Lupu, diretor do Center for Global Democracy, da Vanderbilt, diz que a lógica mostrada na pesquisa é que pessoas que foram vítimas de algum crime no último ano demonstram menos apoio à democracia. O mesmo ocorre com quem foi achacado por agentes públicos a pagar propina. E também com que viu a renda familiar diminuir e com que teve dificuldade de garantir alimentos para a família. “Nossa conclusão é que houve um aumento no apoio à democracia, mas é um apoio associado à melhora na segurança, diminuição da corrupção, aumento da renda familiar e segurança alimentar. Isso significa que se as pessoas estão apoiando a democracia só pelo que ela entrega, e não pelos valores democráticos em si, esse apoio não é um apoio forte. É um apoio condicional”, diz Vidigal. No caso do Brasil, cresceu o pessimismo com a economia e, a despeito de homicídios recuarem ano a ano, estão ainda em um patamar muito elevado, o que faz com que grande parte da população não tenha uma percepção de mais segurança, avalia Vidigal, que depois de uma década nos EUA, onde completou o doutorado e ou pós-doutorado, é agora professor da Universidade de Brasília (UnB). Esses fatores poderiam explicar, em parte, por que o apoio à democracia subiu bem menos no Brasil do que em vários outros países da região. Ao falar do aumento geral do apoio à democracia, Vidigal diz não ver uma relação clara entre esse resultado e a recente onda de vitórias eleitorais de candidatos de direita na região. Ele afirma que as faixas de eleitores que se identificam como direitistas nos países pesquisados subiu de 30% para 36%, entre 2023 e 2026, mas que ainda representam uma fatia menor do espectro político. As exceções são Brasil e El Salvador. Na pesquisa do AmericasBarometer, os auto-identificados como de direita no Brasil eram 46% na pesquisas de 2023 e em 2026 são 50%. “São quatro pontos percentuais que podem mudar uma eleição”, diz Vidigal.

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