O Bradesco passou a trabalhar com um cenário de crescimento mais fraco, pressões inflacionárias mais intensas e uma Selic que deve demorar bem mais para cair. Na avaliação do banco, é preciso que o arcabouço fiscal seja reforçado para haver uma melhora das expectativas dos agentes econômicos.
Na revisão de cenário divulgada nesta sexta-feira, o banco adota como cenário-base que, em 2027, o governo cumprirá ao menos o piso da banda da meta de resultado primário, mas nota que há um desconfiança relevante no mercado. “Enquanto o cumprimento efetivo das regras levaria a um superávit primário de 1,5% do PIB em 2030, o Focus projeta resultado apenas equilibrado naquele ano.”
De acordo com a equipe de economistas do Bradesco, liderada por Fernando Honorato Barbosa, a combinação de condições financeiras mais restritivas, menor confiança e desaceleração do crédito deve aprofundar a perda de fôlego da economia nos próximos trimestres. Nesse sentido, o banco cortou a projeção para o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) deste ano de 1,7% para 1,5%, enquanto a estimativa do PIB de 2027 passou de 1,0% para apenas 0,4%.
“Os indicadores do terceiro trimestre apontam para contração de 0,2% do PIB no período, exatamente quando as medidas de estímulo se concentravam. Ou seja, há forças (por exemplo, restrição monetária, desalavancagem das famílias e perda de confiança dos empresários) que estão reforçando o enfraquecimento da atividade econômica”, dizem os profissionais do Bradesco.
E, para eles, há poucos vetores capazes de compensar esse quadro em 2027, especialmente ao se levar em conta que o aperto das condições financeiras deve permanecer em vigor por mais tempo. O Bradesco nota que o aumento do endividamento público tem pressionado a taxa de câmbio.
O banco, inclusive, elevou a projeção para o dólar no fim deste ano de R$ 5,00 para R$ 5,50 e passou a ver a moeda americana também em R$ 5,50 no fim de 2027, contra R$ 5,20 na estimativa anterior. “Seguimos sem antever um movimento persistente de fortalecimento do dólar no mundo e esperamos que os sinais iniciais da política fiscal sejam suficientes para evitar uma deterioração adicional relevante dos preços de ativos domésticos.”
O câmbio mais pressionado é um dos fatores listados pelo banco para indicar que o cenário para a inflação se tornou “substancialmente mais desafiador”, apesar da fraqueza da atividade econômica. O Bradesco elevou a projeção para o IPCA de 2027 de 4,1% para 5,3%, em um movimento que incorporou os efeitos da mudança da jornada de trabalho; a piora do câmbio; o impacto indireto da reoneração dos combustíveis; e os efeitos da reforma tributária.
Há um alerta do banco, porém, para a possibilidade de a inflação ser de 6,7%, ainda que ressalte a incerteza em torno de alguns eventos. “Nesse ambiente, esperamos que o Banco Central mantenha a Selic estável durante todo o primeiro semestre de 2027”, dizem os profissionais do Bradesco.
“Ao longo do segundo semestre, entretanto, a perda de força mais intensa da atividade e a estabilidade da taxa de câmbio devem abrir espaço para a retomada gradual dos cortes. Mesmo com inflação corrente acima do teto da meta e expectativas ainda desancoradas, o Copom deverá olhar progressivamente para 2029 em seu horizonte relevante, em um contexto de hiato mais aberto, desaceleração do mercado de trabalho, choques de oferta com baixos efeitos secundários nos preços e crédito mais fraco”, acreditam os economistas.
O Bradesco espera quatro cortes de 0,25 ponto percentual no segundo semestre do próximo ano, o que levaria a Selic a 12,75% no fim de 2027. Também há um cenário alternativo proposto pelo banco, no qual ações são tomadas para reforçar os resultados fiscais e que podem ter reflexos mais diretos sobre a taxa de câmbio e os juros.
“Uma agenda que sinalize com firmeza e credibilidade buscar o centro da meta fiscal ou aperfeiçoar o controle do fluxo das despesas obrigatórias tem chances de ampliar a confiança na estabilização da moeda ou, contando com alguma ajuda do cenário externo, produzir até mesmo alguma apreciação”, avalia a equipe de economistas do Bradesco.
Fernando Honorato Barbosa, economista-chefe do Bradesco Ana Paula Paiva/Valor
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