247 – Apoiadores de Flávio Bolsonaro (PL) estão utilizando imagens de rituais afro-brasileiros para disseminar a ideia de que existe uma batalha espiritual em curso na eleição presidencial. Publicações de influenciadores religiosos e políticos associam manifestações de fé de matriz africana a supostas ameaças contra o candidato, reforçando discursos que colocam cristãos e bolsonaristas do lado do bem e apoiadores de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) do lado do mal.
Segundo reportagem da Folha de S.Paulo, a estratégia foi identificada em um monitoramento de perfis religiosos nas redes sociais realizado pela Casa Galileia em parceria com o Instituto Democracia em Xeque. O levantamento encontrou publicações que retiram práticas religiosas de seu contexto original e as apresentam como manifestações de forças demoníacas contrárias à candidatura de Flávio.
Uma das postagens de maior repercussão foi divulgada pela influenciadora Bella Falconi. Ela compartilhou um vídeo com declarações do pastor angolano Edivaldo Simão, que prevê que “vai haver sangue no Brasil” após uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro.
A gravação combina a declaração com imagens de manifestações religiosas afro-brasileiras, apresentadas como se fossem cerimônias destinadas a prejudicar o candidato. Em uma das cenas, a fotografia de Flávio aparece em uma representação de caixão em chamas.
Ao divulgar o material, Bella Falconi afirmou que “o Brasil está prestes a ser liberto de uma agenda e de uma ideologia demoníaca”. A publicação acumulava mais de 51,5 mil curtidas até a noite de sexta-feira (23).
Vídeo de manifestação em São Paulo alimenta ataques religiosos Outro episódio envolve imagens do ato Tambores pela Democracia, realizado na quinta-feira (22), no Largo da Batata, na zona oeste de São Paulo.
Durante a manifestação, participantes entoaram uma cantiga sobre “manter Bolsonaro amarrado num cipó”, enquanto circulavam em torno de velas e objetos utilizados na celebração. O registro foi compartilhado por uma conta secundária associada ao deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), que reúne 6,2 milhões de seguidores no Instagram e é acompanhada pelo perfil principal do parlamentar.
Na legenda, a publicação afirmava: “A gente não ora o Pai-Nosso à toa”. A mensagem apresentava a manifestação religiosa como uma ameaça espiritual, embora não houvesse comprovação de que os participantes estivessem realizando qualquer cerimônia para provocar danos físicos a adversários políticos.
A gravação também foi reproduzida pelo pastor Naor Pedroza, ligado à igreja Videira, instituição com a qual o influenciador Pablo Marçal mantém vínculos. Pedroza alertou seus quase 500 mil seguidores para a existência de uma suposta disputa sobrenatural na política, afirmando que “há uma dimensão espiritual que não deve ser ignorada”.
O pastor Eduardo Batista, que reúne aproximadamente 470 mil seguidores, também utilizou as imagens para mobilizar seu público. “O inferno se levantou e não podemos recuar”, escreveu.
As publicações integram uma narrativa que transforma divergências eleitorais em um confronto religioso, atribuindo aos adversários de Flávio Bolsonaro uma suposta ligação com forças malignas. Pesquisadores contestam interpretação dos rituais
A interpretação difundida pelos perfis bolsonaristas foi contestada pelo Coletivo Bereia, organização dedicada à verificação de informações relacionadas ao universo religioso. Segundo a checagem, não existem evidências de que os participantes do ato tenham feito a ameaça que passou a ser atribuída a eles nas redes sociais.
A cantiga apresentada na manifestação tem origem na Jurema, tradição religiosa afro-indígena de raízes nordestinas. Seu significado, de acordo com especialistas, está relacionado à proteção espiritual e à contenção de forças consideradas prejudiciais, não à intenção de provocar a morte ou o adoecimento de alguém.
A pesquisadora Carolina Rocha, do Instituto de Estudos da Religião (Iser), explica que a utilização dessas expressões precisa ser compreendida dentro do contexto cultural e religioso em que são empregadas. “É importante compreender que, nas tradições espirituais afro-brasileiras e indígenas, expressões como amarrar inimigos, dar um nó ou afastar adversários podem ter sentidos rituais de proteção, contenção e banimento de forças consideradas ameaçadoras, sem representar necessariamente um desejo literal de violência ou morte.”
Autora do livro A Culpa é do Diabo: O que Li, Vivi e Senti nas Encruzilhadas do Racismo Religioso, Rocha ressalta a diferença entre recorrer à espiritualidade para buscar proteção e desejar violência contra um adversário. Segundo a pesquisadora, a cantiga utilizada no protesto representa “um pedido para conter a força de quem ameaça a mata e os povos tradicionais”.
A explicação contraria a narrativa difundida pelos influenciadores, que apresentam símbolos religiosos afro-brasileiros como evidências de uma suposta conspiração espiritual contra o candidato do PL. Declaração de babalorixá também provoca controvérsia
O ato no Largo da Batata teve ainda a participação de Sidnei Nogueira, babalorixá e doutor em semiótica pela Universidade de São Paulo (USP). Uma declaração sua foi destacada pelo portal evangélico Pleno News e provocou discussões nas redes sociais.
Durante a manifestação, Nogueira afirmou que uma pessoa adepta de religiões afro-brasileiras que vota em Flávio Bolsonaro “deixou de ser macumbeira” e “está produzindo contra o axé”. O religioso também declarou que um “terreiro bolsonarista” “não pode sequer existir”, por considerar contraditória a associação entre essas tradições religiosas e o projeto político representado pelo candidato.
As declarações dividiram opiniões. Entre os comentários publicados nas redes sociais, houve manifestações de umbandistas que afirmaram apoiar Flávio Bolsonaro, além de críticas à posição do babalorixá.
Uma internauta comparou a situação à diversidade de posicionamentos políticos entre evangélicos: “Eu te entendo, o mesmo acontece com os crentes que votam no Lula”. Michelle Bolsonaro já associou ritual religioso a ataques contra Lula
A utilização de símbolos de religiões afro-brasileiras em disputas eleitorais não é inédita entre aliados da família Bolsonaro. Durante a campanha presidencial de 2022, Michelle Bolsonaro, então primeira-dama e atualmente senadora eleita pelo Distrito Federal, compartilhou um vídeo em que Lula aparecia recebendo um banho de pipoca, prática religiosa associada à umbanda.
Na ocasião, Michelle escreveu: “Isso pode, né! Eu falar de Deus, não”. O conteúdo havia sido publicado anteriormente pela então vereadora Sonaira Fernandes (PL-SP), que apresentou a participação de Lula na cerimônia como evidência de uma suposta associação com forças espirituais malignas.
“Lula já entregou sua alma para vencer essa eleição”, escreveu Sonaira. A publicação também utilizava uma referência bíblica para caracterizar a disputa eleitoral como uma batalha espiritual: “Não lutamos contra a carne nem o sangue, mas contra os principados e potestades das trevas.”
Em 2024, outra peça de desinformação explorou a mesma associação. Uma montagem falsa, que utilizava indevidamente a identidade visual da Folha de S.Paulo, atribuía ao jornal uma notícia inexistente segundo a qual a primeira-dama Janja teria solicitado um ritual de candomblé para conter a valorização do dólar.
Os episódios mostram a recorrência de conteúdos que utilizam manifestações religiosas afro-brasileiras como instrumento de disputa política. Na reta final da eleição de 2026, essa estratégia voltou a ganhar espaço nas redes sociais, agora em publicações que apresentam a candidatura de Flávio Bolsonaro como parte de uma suposta batalha entre forças espirituais antagônicas.
A disseminação dessas interpretações também expõe o risco de reforçar preconceitos contra tradições religiosas historicamente atingidas pelo racismo e pela intolerância no Brasil. Legenda: Publicações de influenciadores bolsonaristas associam manifestações religiosas afro-brasileiras a supostas ameaças espirituais contra Flávio Bolsonaro
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