Por que, para demonstrar uma preferência política, parece necessário declarar que se odeia o outro — e, às vezes, desejar que ele desapareça? Há uma distância profunda entre querer a derrota de alguém e desejar seu desaparecimento.
Nessa distância está uma das condições da vida democrática: reconhecer que o direito de existir não depende de concordarmos uns com os outros. Podemos rejeitar um candidato por suas ideias, seus atos, sua trajetória.
Podemos considerar sua eleição um erro grave. Podemos exigir investigação, julgamento e responsabilização.
Nada disso exige desejar seu desaparecimento. Quando esse desejo aparece como manifestação legítima de compromisso político, alguma coisa se rompeu na relação entre convicção e convivência.
A escolha eleitoral pode adquirir um peso que ultrapassa o voto. Passa a organizar amizades, afetos e a imagem que cada um faz de si.
O candidato incorpora esperanças, ressentimentos e medos. Criticá-lo começa a soar como uma ofensa pessoal.
Reconhecer algum mérito no adversário pode ser recebido como deslealdade. Nesse ambiente, o ódio encontra uma função: demonstrar pertencimento.
É preciso exibir repulsa suficiente por quem está do outro lado. A intensidade da hostilidade passa a medir a autenticidade da adesão.
Quem pede prudência corre o risco de ser acusado de cumplicidade. É assim que a moderação passa a parecer fraqueza.
Mas há uma firmeza particular em sustentar uma posição sem entregar ao grupo o comando dos próprios sentimentos. Siga a leitura em Crusoé.
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O Antogonista