Intervenção do Banco Central paraguaio deixou cerca de 3 milhões de clientes sem acesso às contas e abriu processo de impeachment contra Santiago Peña Como um banco fecha as portas, trava a poupança de milhões de pessoas e leva o presidente do país a anunciar a renúncia em tão pouco tempo? No Paraguai, bastaram três dias.
Na madrugada de 3 de novembro, o Banco Central do Paraguai (BCP) anunciou a resolução do Ueno Bank, que dizia ser a escolha de um em cada três paraguaios e liderava o mercado de cartões. Na quinta-feira (5), o presidente Santiago Peña anunciou que deixaria o cargo, pressionado por um processo de impeachment.
A diretoria do BCP decidiu por unanimidade, na segunda-feira (2), abrir o procedimento de resolução do banco. Segundo a autoridade monetária, o índice de solvência do Ueno Bank caiu abaixo de 50% do mínimo exigido depois de ajustes nos balanços.
Agências fecharam, e aplicativo, transferências e cartões pararam para cerca de 3 milhões de clientes. No mesmo dia, o presidente do BCP, Carlos Carvallo, entregou o cargo.
Antes de comandar o banco central, ele havia dirigido a Financiera Ueno, empresa que deu origem ao banco. A interina Liana Caballero assumiu o órgão.
O Ministério Público formou uma equipe para investigar a denúncia apresentada pelo BCP, e executivos do banco foram detidos. A garantia oficial dos depósitos no Paraguai chega a 75 salários mínimos mensais por pessoa em cada instituição, como define a Lei nº 2.334, de 2003.
O teto vale para pessoas físicas e empresas. No caso do Ueno Bank, o BCP calculou o limite em G.
228,3 milhões. O dinheiro sai do Fundo de Garantia de Depósitos (FGD).
Para acelerar os pagamentos, o Congresso aprovou uma lei de adiantamento em dois dias. Depois da primeira votação no Senado, em 3 de novembro, a Câmara de Senadores sancionou o texto por unanimidade no dia 4.
A lei antecipa até 40 salários mínimos por depositante, desconta dívidas vencidas com o banco e fixa prazo máximo de cinco dias úteis. O FGD começou a pagar um primeiro grupo de poupadores na noite de quinta (5): quem tinha até G.
10 milhões, sem dívidas e com conta em outro banco. A crise política que correu em paralelo, no Congresso, está detalhada em outra reportagem de O Antagonista.
Senado do Paraguai suspende votação sobre renúncia de Santiago Peña➔ A crise chegou a Peña pelos vínculos dele com os donos do banco.
O presidente foi acionista da Ueno Holding até 2025, e a oposição o acusa de conflito de interesses com o Grupo Vázquez, controlador da instituição. A saída de Carvallo, antigo executivo do grupo, ampliou a pressão sobre o Palácio de López.
Os discursos no Senado já miravam o governo no dia 3. A senadora Lilian Samaniego atribuiu responsabilidades ao governo, ao BCP e aos diretores do Ueno Bank e disse que a lei de devolução não é anistia.
Celeste Amarilla lembrou que boa parte dos clientes do banco tem baixa renda, como pedreiros, jardineiros e empregadas domésticas. Peña continua formalmente no cargo.
Ele anunciou a renúncia em vídeo na quinta (5) e pediu desculpas à população, mas a sessão do Congresso que votaria a saída ficou sem quórum depois que parlamentares do Partido Colorado deixaram o plenário. Horas antes, a Câmara aprovara a acusação de impeachment por 78 votos, a unanimidade dos presentes.
O Senado, convertido em tribunal, ouve a defesa nesta sexta-feira (6), às 10h, mesmo horário de Brasília. A destituição exige 30 dos 45 senadores e, se aprovada, leva ao poder o vice Pedro Alliana.
Da pergunta da abertura, o banco já fechou e as poupanças seguem parcialmente travadas; falta saber como o Paraguai perde o presidente. Se você tem família ou negócios no país vizinho, acompanhe com a gente o desfecho.
Fora da América do Sul, outro país europeu também mexe com um passado delicado de sua história recente. Hungria publica arquivos secretos da era comunista➔
O Antogonista