Astrônomos revelam data e ambiente do momento em que obras-primas dos séculos XIX e XX foram feitas 

Astrônomos revelam data e ambiente do momento em que obras-primas dos séculos XIX e XX foram feitas  - Foto
Fonte da notícia: Notícias Veja Notícias Veja

Durante anos, o astrônomo sul-­coreano Elijah Jeong-hyun Kim contemplou A Noite Estrelada (1889), de Vincent van Gogh, a magnética obra-­prima exposta no MoMA, em Nova York, convicto de reconhecer ali o aglomerado estelar das Híades, na constelação de Touro. Fascinado pelo céu desde que viu fiapos do cometa Halley na infância, teve a certeza abalada em 2019, ao saber de análises segundo as quais o aglomerado retratado pertenceria a Áries.

Decidiu, então, tirar a prova do que o gênio holandês de fato pusera na tela. Para isso, foi a Saint-­Rémy, na França, onde o artista esteve internado, em um asilo, quando criou a obra, no fim do século XIX.

Ali, sobrepôs um rascunho da pintura a uma fotografia da paisagem. “Estava onde Van Gogh esteve 130 anos antes”, disse Jeong-hyun a VEJA.

As observações das noites francesas resultaram em um estudo coassinado por Ho Jin, professor da Escola de Pesquisas Espaciais da Universidade Kyung Hee, na Coreia do Sul, e publicado recentemente na revista Scientific Reports. O trabalho aponta o quente 22 de julho de 1889 como a noite inspiradora da pintura.

A data contradiz duas linhas de interpretação: a de que o quadro teria nascido do céu de junho daquele ano e a de que a cena seria fruto da tempestuosa imaginação do criador. Um dos principais argumentos dos pesquisadores é a configuração do céu naquela madrugada.

“Achei improvável que ele tivesse se inspirado nas estrelas relativamente fracas de Áries”, diz Jeong-­hyun. “Por isso, olhei para os dias posteriores, de fina Lua em quarto minguante, a brilhante Vênus e o formato em ‘V’ das Híades, antes do amanhecer, como no desenho.”

ERUPÇÃO - O céu alaranjado em <em>O Grito</em>, de Edvard Munch: seria a fumaça do estrondoso vulcão Krakatoa?Nurul HIDAYAT/BISNIS INDONESIA/AFP/SIDSEL DE JONG/AFP/. O segundo obstáculo era de ordem pessoal.

Van Gogh teria sofrido uma convulsão em meados de julho, o que o impediria de pintar. A correspondência entre os irmãos ajudou a resolver o impasse: em carta de 19 de setembro, o artista mencionou uma reclusão de seis semanas.

A partir dessa pista, os pesquisadores situaram o episódio entre 25 e 27 de julho, ou seja, depois da data agora proposta para a pintura. O período coincide ainda com dias de ventos intensos, que o próprio Van Gogh descreveu ao irmão como o contexto da crise.

Continua após a publicidade Para chegar a uma data tão precisa, porém, a equipe precisou superar outro desafio: saber se o céu estava limpo naquela noite.

A dúvida foi esclarecida por registros meteorológicos da época e pelas várias menções a cigarras nas cartas de Vincent ao irmão, Theo, indício do tempo quente na cidade. Os autores, no entanto, fazem uma ressalva: o estudo não pretende ofuscar a imaginação de Van Gogh, que pode muito bem ter observado céus em outras jornadas, porque arte não é sinônimo de ciência.

Ter as duas atividades de mãos dadas, contudo, oferece beleza e fascínio indizíveis. Não é a primeira vez que pintores célebres deixam rastros do clima no momento em que pintavam suas telas.

Em seu diário, o norueguês Edvard Munch, autor de O Grito (1893), descreveu como um “sopro de tristeza” uma caminhada por Oslo, quando “o céu de repente tornou-se vermelho como sangue”. Não faltam teorias para explicar o cenário.

A mais conhecida, publicada pela revista Sky and Telescope em 2003, atribui as cores sobrenaturais à fumaça da erupção do vulcão Krakatoa, na Indonésia, em 1883, por conta de reações químicas dos gases emitidos. Uma pesquisa de 2017, apresentada em um encontro da União Europeia de Geociências, contesta a explicação vulcânica e propõe outra: a rara aparição de nuvens estratosféricas polares, típicas de regiões próximas aos polos, que também tingem o céu de laranja e formam desenhos psicodélicos.

Continua após a publicidade POLUIÇÃO - Monet e o Parlamento de Londres: névoa tóxica da industrializaçãoVictoria Jones/PA Images/Getty Images

Se Munch se impressionou com um evento único, o francês Claude Monet teve anos para se dedicar a uma série inteira sobre o ar poluído de Londres. Em cerca de 100 quadros, produzidos durante visitas à capital inglesa entre 1899 e 1901, o pintor retratou o Parlamento, a Ponte de Waterloo e a estação de Charing Cross envoltos na névoa de fuligem das indústrias em expansão.

É extraordinário saber que o ser humano é capaz de provocar guerras, mas também de oferecer à civilização piscadelas simultâneas ao que sai dos neurônios e dos laboratórios, em casamento belamente estrelado. Continua após a publicidade

Mais de um século depois, o fascínio pela atmosfera e por suas mudanças não se limita às telas. Continua intrigando tanto os admiradores da arte quanto os observadores do firmamento.

Publicado em VEJA de 30 de outubro de 2026, edição nº 3019 Publicidade

Publicação Original Notícias Veja veja.abril.com.br
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