Uma análise toxicológica dos restos mumificados de crianças sacrificadas no Império Inca mostrou que eles haviam consumido álcool e a droga psicoativa ayahuasca antes de serem mortos. Surpreendentemente, todas as oito múmias analisadas apresentaram também vestígios químicos de cocaína.
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Veja dicas: treino de força aos 70 anos é essencial para pernas firmes e autonomia Isso sugere fortemente que mascar folhas de coca nos meses que antecederam a morte era uma parte fundamental do ritual.
Embora as folhas de coca desempenhassem um papel importante nas crenças religiosas incas como oferendas aos deuses, elas também podem ter tido uma função mais prática. Considerando que alguns dos sacrifícios ocorreram em picos de montanhas desoladas a mais de 6.000 metros de altitude, as folhas de coca poderiam ter ajudado a reduzir o mal da altitude e a fadiga durante a árdua jornada final.
Além disso, quatro das oito múmias haviam sido induzidas ao consumo de álcool na forma de uma cerveja de milho chamada chicha. Segundo os pesquisadores, isso teria sido usado para entorpecer os sentidos das crianças e mantê-las calmas durante a conclusão mortal do ritual.
Os sacrifícios infantis ocorreram no início do século XV, durante o auge do poder do Império Inca, e eram conhecidos como "capacocha". Crianças de todo o império eram escolhidas por sua pureza percebida e beleza excepcional e levadas para Cuzco, o coração político e religioso do império.
Eles eram levados em longas e elaboradas peregrinações que eventualmente os conduziam a santuários remotos no topo das montanhas. Após ser espancada até a morte com um porrete, a criança era mumificada e sepultada no santuário, servindo como um elo entre o mundo dos vivos e os deuses.
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Estudos anteriores já mostravam que os incas utilizavam plantas psicoativas, entretanto pouco se sabe como essas plantas eram usadas durante o ritual da capacocha. Ayahuasca
Neste novo estudo, publicado na revista Antiquity, os pesquisadores coletaram amostras de cabelo e unhas de oito múmias encontradas no topo de montanhas. A queratina presente nesses materiais pode reter vestígios de substâncias psicoativas, criando um registro detalhado do uso de drogas.
"Nosso objetivo era identificar uma gama mais ampla de substâncias psicoativas administradas às crianças e determinar se os padrões em seu uso poderiam fornecer novas informações sobre como as cerimônias de capacocha eram conduzidas em diferentes locais", afirmou a autora principal do estudo Dagmara Socha, da Universidade de Varsóvia
Embora todos os oito parecessem ter mascado folhas de coca, a quantidade e o momento do consumo dessas doses da droga pareciam variar — uma das múmias apresentou uma mudança repentina no consumo de coca no último mês antes de sua morte, com níveis extremamente elevados de consumo.
Outras, apresentaram resultados de consumo de drogas mais prolongado, ao longo de um extenso período de preparação. No entanto, a cocaína não era a única droga psicoativa utilizada no ritual.
"Uma das descobertas mais intrigantes diz respeito à famosa Senhora de Ampato, também conhecida como Juanita, em quem detectamos vestígios de harmina, um alcaloide associado às espécies de Banisteriopsis, uma das principais plantas tradicionalmente usadas na bebida ayahuasca", diz Socha.
O que significa andar com as mãos atrás das costas, segundo especialistas em linguagem corporal? Os pesquisadores não têm certeza de qual teria sido o papel da bebida ayahuasca no ritual, mas é possível que ela tivesse como objetivo potencializar os poderes proféticos da criança.
Da mesma forma, os pesquisadores afirmam que isso demonstra o quanto o ritual variava dependendo da montanha, do culto local e, potencialmente, até mesmo da divindade envolvida. "O que estamos vendo é que a capacocha não era um ritual único e padronizado, mas sim que os Incas parecem tê-la adaptado a diferentes cultos e tradições religiosas locais", explicou Socha
O Globo