O deboche de Flávio Bolsonaro no debate do domingo passado na Band tocou uma fibra emocional dos eleitores que até agora não tinha sido mexida. É um signo qualitativo que as pesquisas do Plaza Pública identificam.
Na batalha argumental, a mudança ganha a disputa nestas eleições. No campo emocional, o deboche volta a imagem de Flávio às piores lembranças de Jair: se cria um espaço para uma nova discussão sobre Flávio.
Esse risco do desprezo/empáfia de Flávio evocar o Jair tem o potencial para disparar uma eventual virada do Lula. Esse debate se instalou em lares e conversas de trabalho nesta semana, há um caldo de cultivo sendo cozinhado.
Veremos se o debate de hoje à noite o faz crescer ou reduzir. O momento é de discussões e hesitações nestes dois dias até a votação.
A postura de Flávio no debate mostrou um traço de personalidade que ainda não tinha sido visualizado por indecisos e quem se absteve: certo ar de moleque, imaturo, sem postura. A estatura presidencial exige sobriedade.
“Para um cargo presidencial precisa de outra postura, esse deboche ficou feio, ele quis mostrar o padrão Bolsonaro de ser", comenta um eleitor indeciso. A “piada” sobre Lula ter vacina Bolsonaro em seu sangue resulta em um bumerangue.
Remove uma ferida que não cicatrizou nos parentes que perderam seus entes pela Covid-19. O tamanho dessa dor é enorme, e os efeitos dessa fala podem ser críticos: “Perdi minha mãe, ele riu.
Isso me bateu de forma diferente, é algo latente, enterrei minha mãe num saco. Não dei um beijo, isso não pode ser brincadeira”.
É bom lembrar que foi principalmente o deboche que levou Jair Bolsonaro à derrota. Nesse quesito, Jair e Flávio se juntam.
Se as pesquisas qualitativas mostravam no início da campanha Flávio como uma cópia do pai, sem entidade própria, no final do primeiro turno, o senador ganhou certa luz própria: alguém mais jovem, moderado, que merecia uma oportunidade. A performance do domingo passado resulta em um retrocesso: “Parecia ou pensava que tinha aprendido dos erros do pai.”.
A situação provoca, por defeito, empatia com a pessoa debochada. Lula, com 80 anos, até pela idade, merece respeito: “O Lula é mais velho que o pai dele cara”.
Essa crítica é mais notória em idosos: sentem que se passou do ponto, não compactuam com códigos típicos de redes sociais: a lacração como esporte, ridicularizar o outro como pano de fundo. O ponto-chave é que essa atitude dispara algumas perguntas sobre quem é Flávio realmente.
Seu comportamento no debate faz as pessoas se perguntarem como seria ele na Presidência. Há uma queda de um véu imaginário sobre ele: “caiu o véu, a arrogância dele, Lula falando, ele fazendo não, pó, respeite o outro”.
Psicologicamente, quando a pessoa consegue metaforizar e imaginar uma personagem, o assunto ganha outra profundidade: “Parecia o Alexandre da novela A Viagem” e “Quando falou do SUS padrão Einstein teve o momento Collor do debate”. Nesse sentido, é como se Flávio estivesse em uma gangorra para alguns eleitores.
Representa a mudança para alguns, o desejo de ter mais segurança com uma promessa que se acredita mais plausível com propostas como o Smart Brasil. No entanto, para muitos, ele foge/escorrega, quando não responde às perguntas, fala de mudar a Constituição ou em suas idas e vindas sobre o fim da escala 6x1.
O tom do deboche o coloca numa outra dimensão, na lembrança de um passado que muitos brasileiros querem enterrar. O centauro tropical do "Flair" (esse misto de Flavio é Jair) corre para Jair.
Ali pode estar uma pista do resultado do domingo próximo. O Excel e projeções das pesquisas quantitativas mostram que Flávio caminha para uma provável vitória.
O divã das qualitativas revela um caldo de cultivo que pode inclinar a balança para Lula. * Eduardo Sincofsky faz pesquisas qualitativas há mais de 30 anos.
É diretor do Projeto Plaza Pública, barômetro que mede qualitativamente a agenda do país de maneira periódica e autor do livro “A polarização no Diva”.
O Globo