Após onda de violência, governo francês autoriza prefeitos a impor toque de recolher e não descarta estado de emergência

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Fonte da notícia: O Globo O Globo

O governo da França declarou nesta segunda-feira que pediu aos prefeitos a adoção de “toques de recolher” parciais em determinadas regiões do país, após um fim de semana de protestos contra o alto custo de vida que provocaram cenas de tumultos, saques e incêndios nas principais cidades francesas. A medida foi anunciada pelo primeiro-ministro Sébastien Lecornu, enquanto o presidente Emmanuel Macron reconheceu “falhas na antecipação e no trabalho de inteligência” das forças de segurança, que perderam o controle da situação em algumas localidades.

O que está acontecendo na França? Quatro perguntas para entender os protestos que tomaram o país Quer morar fora? Veja guia interativo do GLOBO que reúne informações sobre 36 países Quer ler mais notícias de Mundo? Acompanhe o canal no WhatsApp Sob pressão política, o governo tenta conter uma onda de violência que deixou cerca de mil agentes feridos, levou a mais de 2,5 mil detenções e provocou danos a aproximadamente 3 mil estabelecimentos comerciais. Após uma reunião de crise com integrantes do governo, Lecornu definiu os casos como “atos de delinquência” e pediu às autoridades regionais que adotem os toques de recolher a partir da noite desta segunda-feira.

— São atos específicos de delinquência, de saques, e está fora de questão permitir que isso continue — disse Lecornu a jornalistas, acrescentando que as restrições serão “parciais” e “localizadas” e que o governo ainda poderá decretar estado de emergência.

Lecornu acusou, sem provas, o “movimento de ultraesquerda” de tentar “orquestrar uma profunda instabilidade em todo o país” antes das eleições presidenciais previstas para 2027. O premier disse, também sem apresentar provas, que existe uma rede que poderia ser mobilizada para questionar até mesmo o calendário eleitoral e a realização do pleito. Ele anunciou o reforço da segurança em reuniões e encontros políticos para garantir o “funcionamento da democracia” nos próximos meses.

— Não seremos comandados nem governados pelos vândalos, pelos ladrões, pelos bandidos. Após protestos: França contabiliza destruição de lojas e prédios públicos, e distúrbios viram instrumento eleitoral As medidas foram anunciadas depois que manifestações realizadas no sábado reuniram entre 550 mil e 800 mil pessoas em toda a França, segundo estimativas. Os manifestantes protestavam contra o aumento do custo de vida e a deterioração das condições de ensino, mas os atos foram acompanhados por episódios de violência em Paris, Marselha, Lyon e outras cidades. Os confrontos continuaram na noite de domingo. Em Marselha, um grupo chegou a invadir brevemente a sede da prefeitura, enquanto o escritório de turismo de Lyon e a prefeitura de Limoges foram incendiados. Em Marselha, segunda maior cidade da França, a prefeitura estimou a participação de até 30 mil saqueadores e registrou 107 policiais feridos apenas no sábado, três deles em estado considerado “muito grave”. Autoridades proibiram reuniões públicas e manifestações nesta segunda-feira, das 12h às 20h, no horário local. Falhas na segurança Macron, por sua vez, reconheceu que houve “falhas” na atuação policial diante dos tumultos que eclodiram. A declaração foi feita apenas um dia depois de o presidente classificar, em pronunciamento televisionado, a violência como uma “vergonha nacional”. No domingo, Macron chegou a prometer uma “linha dura” contra os responsáveis, mas a declaração não foi suficiente para amenizar as críticas, e o francês não anunciou medidas para atender às reivindicações dos manifestantes.

Outros países: Da França à Albânia, onda de protestos liderada por jovens se espalha pela Europa contra o custo de vida Também nesta segunda, Macron negou o pedido de demissão apresentado pelo ministro do Interior, Laurent Nuñez, alegando a “necessidade de continuidade no comando das forças de segurança”. O presidente pediu a Nuñez que implementasse “o mais rapidamente possível, em campo, novos procedimentos operacionais” para permitir que a polícia colocasse fim à formação de barricadas e aos saques.

O ministro reconheceu que a polícia perdeu o controle da situação em “algumas cidades” e disse que as equipes de segurança haviam previsto a participação de “apenas” 200 mil manifestantes, número muito inferior ao registrado, definindo as medidas adotadas como “desproporcionais”.

A atuação das forças de segurança também foi questionada pelos prefeitos de Paris, Marselha e Lyon. Em artigo no jornal francês Libération, Emmanuel Grégoire, Benoît Payan e Grégory Doucet afirmaram que “regiões inteiras” das três cidades ficaram desprotegidas. Os políticos pediram uma investigação independente sobre a resposta policial e cobraram explicações para os episódios de saques que, segundo eles, chegaram a durar mais de 30 minutos sem intervenção. Protestos violentos contra o custo de vida deixam rastro de destruição na França Os prefeitos também defenderam a abertura do diálogo com os estudantes que participam das manifestações e criticaram o projeto de orçamento atualmente em tramitação no Parlamento, que prevê “novas restrições” às administrações locais, embora os acontecimentos recentes tenham demonstrado o papel “essencial” dessas autoridades.

Operação em Paris Para identificar os responsáveis pelos ataques, o primeiro-ministro anunciou o início de uma operação em Paris envolvendo 200 investigadores, encarregados de analisar imagens dos episódios registrados no fim de semana. Lecornu também informou que o governo reservará recursos para ajudar as áreas afetadas a se recuperarem dos danos, além de criar um fundo de apoio ao desemprego parcial para trabalhadores impossibilitados de exercer suas atividades. — Será criada uma lei para encontrar maneiras de garantir que aqueles que danificaram propriedades tenham que pagar — afirmou Lecornu, acrescentando que o governo mantém conversas com seguradoras para acelerar a liberação de recursos financeiros às pessoas afetadas. Ação: Estudantes bloqueiam acesso ao Museu do Louvre em apoio ao movimento estudantil e protesto contra repressão policial Ainda assim, a crise provocou críticas da oposição de extrema direita, com o presidente do partido Reagrupamento Nacional (RN), Jordan Bardella, acusando o governo de ter abandonado suas responsabilidades diante dos tumultos. Sua correligionária Marine Le Pen, candidata às eleições presidenciais do próximo ano, lidera as pesquisas de intenção de voto. O pleito está previsto para ocorrer em cerca de seis meses, e Macron não poderá disputar um novo mandato. — O poder público abandonou completamente suas responsabilidades — criticou Bardella. Novos protestos Em meio às acusações, o movimento dos coletes amarelos, que ajudou a coordenar as manifestações do fim de semana, convocou uma nova rodada de protestos para o próximo sábado. O grupo ganhou notoriedade em 2018, quando organizou a mais longa onda de protestos da história moderna da França, e agora busca ampliar a mobilização. À AFP, Benjamin Ball, editor do site do movimento, disse haver “claramente” uma “enorme mobilização” para que haja um segundo ato.

Eleito com o sonho de revitalizar a França: Macron vê mandato terminar em crise sistêmica e com protestos pelo país Ainda nesta segunda, manifestantes ligados ao movimento estudantil bloquearam o acesso ao Museu do Louvre, em Paris, em protesto contra as condições dos serviços públicos e a atuação policial. Imagens registradas diante da pirâmide de entrada mostraram um grupo segurando uma faixa com a mensagem: “Os serviços públicos franceses estão entrando em colapso”. A direção do museu confirmou, em publicação no X, que o local estava fechado devido à manifestação. A deputada Olga Givernet, integrante do partido de Macron, defendeu que os protestos pacíficos liderados por estudantes e os episódios de violência sejam tratados como “duas questões diferentes”. Em entrevista à BBC, ela reconheceu que os alunos frequentemente enfrentam condições “inaceitáveis” nas escolas e afirmou que o governo precisa encontrar soluções para suas reivindicações, embora tenha condenado os incêndios e ataques registrados durante o fim de semana. — A questão é muito maior do que simplesmente dizer que precisamos lidar com um protesto e com a violência — disse. Contexto: Protestos contra o custo de vida na França mobilizam ao menos 550 mil pessoas A União Europeia (UE) também se manifestou nesta segunda-feira, afirmando que o direito à manifestação pacífica “deve ser protegido” na França. O bloco, no entanto, condenou os incêndios criminosos, saques e ataques contra pessoas e edifícios públicos registrados durante o fim de semana, classificando-os como “inaceitáveis”.

— Aqueles que se manifestam pacificamente não devem ser confundidos com aqueles que cometem atos de violência — disse o porta-voz da UE, Markus Lammert. — Incêndios criminosos, saques e ataques contra pessoas ou prédios públicos são inaceitáveis. (Com Bloomberg e AFP)

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