Novembro é o mês do calendário que tem um Dia de Finados. É um dia em que a memória se retorce.
A gente lembra a perda de alguém muito querido e sofre, mas nada pode fazer a respeito, senão sofrer e lembrar. Sei bem dessa dor.
É silenciosa e profunda. E sei como é difícil falar sobre ela.
Mas novembro também carrega perdas que são coletivas. Para os habitantes do Espírito Santo, é o mês de aniversário do dia em que a Indesejada levou o capixaba mais culto, o cérebro mais refinado, o intelectual mais lúcido, o professor mais generoso para com os principiantes da literatura que estas nossas ingratas plagas já viram.
Eu estava vindo de uma de minhas muitas andanças por este mundo que minha avó dizia ser de Deus e Glauber Rocha atribuía ao Diabo. Mal desembarquei no aeroporto, alguém me falou, meio à queima roupa, que Guilherme dos Santos Neves havia morrido.
Por um silencioso momento, revivi o último dia em que o encontrei. Foi na saudosa livraria Logos, em uma manhã de sábado.
Ele estava com seu amigo de fé, seu irmão camarada, Renato Pacheco. Notei que estava mais magro e uma lenta tristeza boiava aqui e ali, com imprecisão, em seu rosto. Alguém falou em Mallarmé.
Lembro que ele sempre fazia um trocadilho com o nome do poeta francês: “Mal Armado”. Porém, no vazio cinzento em que aquela mente brilhante ia se afundando, já não emergia a maravilhosa força que, por tanto tempo, sustentou os belos dias em que ele dava aulas e eu tinha a felicidade de ser sua aluna.
O tempo resvala no cristal do relógio, a humanidade não escapa à visita implacável da Indesejada, mas ninguém que tenha conhecido o Professor Guilherme poderá esquecer o seu pensamento intensamente aguçado, nem poderá negar aquela sutileza com que ele manejava uma certa ironia diante dos fatos cotidianos de nossa cidade, da forma mais elegante que pudesse existir.
Para nós, era o Mestre Gui Gui, como o chamávamos às escondidas, uma pessoa movida por uma vigorosa e contagiante paixão pela literatura, pela cultura e pela vida. Tudo muda no mundo.
A gente muda. A vida muda e se esvai.
No entanto há pequeninas lascas de quem amamos que permanecem agarradas no fundo da nossa memória. Nenhuma troca da condição de existência humana, ainda que inevitavelmente mortal, poderá arrancar isso de nós.
A Gazeta