As limitações dos tratamentos para doenças femininas desafiam a ciência e a regulação sanitária. Cobrar evidências é indispensável, mas quem exige rigor científico também precisa fundamentar suas posições.
Durante o 20º Congresso Mundial de Menopausa, no Rio de Janeiro, um manifesto assinado pela Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), pela Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) e por outras entidades pediu à Anvisa a proibição dos implantes hormonais manipulados.
O documento aponta riscos e relata eventos adversos, mas não apresenta referências bibliográficas, números de casos ou taxas que permitam avaliar sua frequência e gravidade por substância, dose e indicação. Os relatos merecem investigação.
Mas um pedido de proibição tão abrangente exige fundamentação proporcional. A autoridade das entidades signatárias não substitui os dados necessários à avaliação técnica da Anvisa.
Nesse debate, é preciso reconhecer também o papel da farmácia magistral, que atende necessidades individuais nem sempre contempladas pelos medicamentos industrializados. A questão central é o que oferecer às mulheres que não melhoram com os tratamentos disponíveis ou não toleram seus efeitos.
Uma adolescente com endometriose ilustra esse desafio. Ela precisa controlar a dor sem comprometer sua qualidade de vida e a formação da massa óssea, fundamental nessa fase.
Alguns tratamentos, entretanto, impõem escolhas difíceis. A monografia canadense do dienogeste, medicamento utilizado contra a endometriose, registra redução média de 1,2% da densidade mineral óssea lombar em adolescentes após 12 meses de uso.
O documento também aponta possíveis alterações de sangramento, humor deprimido e redução da libido. Embora tenha sido observada recuperação óssea após a suspensão em parte das pacientes, os efeitos sobre o risco futuro de fraturas permanecem desconhecidos.
Outras terapias apresentam limitações semelhantes. Medicamentos que reduzem intensamente a produção de estrogênio podem aliviar a dor, mas provocar sintomas de deficiência hormonal.
Por isso, a diretriz europeia de endometriose recomenda considerar tratamentos complementares para prevenir perda óssea e outros efeitos, além de levar em conta a resposta e as preferências de cada paciente. O elagolix, aprovado nos Estados Unidos, também pode provocar ondas de calor, insônia e alterações de humor.
Sua bula registra interrupções do tratamento por efeitos adversos. Esses dados não invalidam os medicamentos, mas demonstram que eficácia não significa tolerabilidade para todas as pacientes.
Nenhuma mulher deveria ter de escolher entre o sofrimento da doença e os efeitos do tratamento. Parte das lacunas atuais tem raízes históricas.
Em 1977, a agência reguladora americana, FDA, recomendou excluir mulheres com potencial de engravidar das fases iniciais dos estudos clínicos. A restrição foi retirada em 1993, quando também se tornou obrigatória a inclusão de mulheres e minorias nas pesquisas financiadas pelos Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos.
Durante décadas, decisões médicas foram baseadas em estudos realizados predominantemente com homens, sem comprovação de que seus resultados se aplicavam às mulheres. Essa desigualdade reforça a necessidade de ampliar as pesquisas.
A ciência precisa de tempo para avançar, mas as mulheres precisam de cuidado agora. É nesse contexto que devemos discutir os implantes hormonais.
O rótulo “chip da beleza” reduz uma questão médica e científica a um apelo estético. O debate deveria considerar substâncias, doses, indicações, evidências e necessidades individuais.
Os implantes hormonais são estudados há mais de 50 anos. Desde a década de 1970, o médico e pesquisador brasileiro Elsimar Coutinho participou de pesquisas publicadas em revistas científicas internacionais, como Fertility and Sterility e Contraception, sobre diferentes substâncias, seus efeitos e sua eficácia contraceptiva.
Esse histórico não comprova a segurança ou a eficácia de todos os implantes atuais, mas demonstra a contribuição brasileira para esse campo. Reconhecer as limitações dessas pesquisas é rigor científico.
Ignorar suas contribuições é desconsiderar parte da história da medicina. O objetivo não é defender indiscriminadamente os implantes hormonais, mas utilizar o conhecimento acumulado para desenvolver alternativas às pacientes que não encontram respostas satisfatórias nos tratamentos disponíveis.
O rigor científico deve valer para todas as terapias. A preparação magistral individualizada e a produção industrial seguem regras diferentes, mas ambas exigem respaldo científico, controle de qualidade e avaliação de segurança.
Os riscos dos implantes precisam ser investigados com o mesmo rigor dedicado aos efeitos adversos dos tratamentos convencionais. Assine gratuitamente a newsletter Últimas Notícias do JOTA e receba as principais notícias jurídicas e políticas do dia no seu email
A Febrasgo e a SBEM também deveriam responder a uma pergunta essencial: quais alternativas e agendas de pesquisa propõem para as mulheres que não encontram alívio ou não toleram os tratamentos disponíveis? Cobrar evidências é necessário.
Contribuir para preencher as lacunas científicas também é responsabilidade das entidades médicas. A prioridade deve ser a paciente, especialmente quando suas necessidades ultrapassam as soluções disponíveis.
O debate não pode se limitar ao que a mulher não deve usar. É preciso discutir o que a medicina pode oferecer a quem continua sofrendo.
Afinal, defender a saúde feminina exige mais do que apontar riscos. Exige compromisso com a busca de respostas para mulheres que não podem continuar esperando.
Portal Jota