247 – O avanço recente da moeda norte-americana no mercado nacional passou a encarecer as cotações de commodities fundamentais no campo, como soja, milho, açúcar, trigo e café. Embora o cenário amplie a rentabilidade de produtores voltados à exportação, a permanência desse patamar ameaça ser repassada ao consumidor final do Brasil em curto a médio prazo, pressionando a inflação de itens essenciais na mesa da população, informa a Folha de São Paulo.
Em um movimento que afeta diretamente a cadeia produtiva de proteicos no país, a escalada dos grãos atinge os custos da pecuária. Como soja e milho representam a base da ração de aves, suínos e bovinos, aumentos nesses insumos costumam provocar repasses graduais ao preço final das carnes nos supermercados.
Analistas do setor alertam que a extensão do impacto nas prateleiras depende do tempo em que a divisa americana se manterá aquecida. “Quanto mais tempo o dólar permanecer acima do pré-eleição, maior é a probabilidade de ter algum impacto nos preços”, diz o economista André Braz, do FGV Ibre (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas).
No segmento de grãos, a valorização cambial devolveu os valores da soja aos patamares praticados no início de outubro. Segundo dados do Cepea (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada), a saca de 60 kg da commodity no Paraná atingiu R$ 152,45 nesta terça-feira (3), o que representa uma alta de 3,9% na comparação com os R$ 146,69 registrados em 23 de outubro, período que antecedeu o segundo turno eleitoral.
Do mesmo modo, o milho na região de referência de Campinas (SP) subiu para R$ 66,19 a saca, avanço de 3% sobre os R$ 64,27 cotados no pré-pleito. A dinâmica dos preços agrícolas é diretamente vinculada ao câmbio porque a formação das cotações dessas mercadorias ocorre no ambiente internacional.
“Teve algumas altas até bem expressivas de soja em grão e milho, porque os preços da maioria das commodities que a gente exporta são feitos de fora para dentro”, aponta o analista Gabriel Viana, da consultoria Safras & Mercado. Por outro lado, o ritmo das altas é desacelerado momentaneamente pelo andamento favorável da semeadura da soja no território nacional, viabilizado por condições climáticas adequadas na maior parte das regiões produtoras, à exceção de áreas atingidas por temporais no Sul.
Contudo, há variáveis de risco no horizonte agrícola. Eventuais elevações de temperatura causadas pelo fenômeno El Niño podem prejudicar o desempenho das lavouras no decorrer do ciclo.
Além disso, a variação dos combustíveis exige atenção: com o petróleo sob pressão no exterior em decorrência dos conflitos no Irã, o diesel segue amparado por subvenção federal renovada por 30 dias na semana passada. “Em caso de uma mudança na política da subvenção, a gente pode ter um aumento de preço do diesel muito agressivo justamente no momento de cuidados com a lavoura e talvez até no início de colheita”, pondera Viana.
A influência da taxa de câmbio estende-se igualmente ao setor sucroenergético e aos derivados de trigo. O açúcar cristal branco no estado de São Paulo registrou média semanal de R$ 128,57 por saca de 50 kg entre 26 e 30 de outubro, alta de 2,3% ante os R$ 125,63 da semana anterior.
Foi a 15ª elevação semanal seguida — a mais longa sequência de valorização desde 2020. Na última terça-feira, o produto abriu cotado a R$ 127,33, avanço de 1,5% sobre o valor registrado em 23 de outubro (R$ 125,44).
Já no trigo, matérias-primas de itens como massas, pães e biscoitos, a retenção de oferta de alta qualidade resultante das chuvas no Sul teve o efeito altista amplificado pela moeda americana. No Rio Grande do Sul, estado que lidera a produção nacional do cereal segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), a alta média do insumo foi de 2,2% no mês de outubro.
Em relação ao arroz, do qual o território gaúcho também é o principal produtor do país, a escalada do dólar recolocou os volumes em casca no radar da exportação. Diante da perspectiva de retomada da demanda externa, produtores optaram por postergar negócios no mercado interno, enquanto a indústria limitou compras devido às dificuldades de repassar os custos da matéria-prima.
O movimento fez com que a média de preços calculada pelo Cepea no estado atingisse em outubro o maior patamar nominal desde fevereiro de 2025. Por fim, no mercado cafeeiro, o dólar sustentou as cotações nacionais mesmo em períodos de retração nos mercados globais.
A saca de 60 kg do café robusta foi cotada a R$ 975,32 nesta terça-feira, acréscimo de 4,1% ante os R$ 936,73 anotados às vésperas do segundo turno. Na mesma comparação, o tipo arábica fechou a R$ 1,611,06, patamar 0,6% superior aos R$ 1.601,95 vigentes em 23 de outubro.
A trajetória recente do mercado financeiro mostra que a moeda americana acumulou salto de 9,2% na semana posterior ao resultado eleitoral. Na terça-feira, atingiu R$ 5,486, com valorização diária de 0,7%, ao maior nível desde dezembro de 2025, impulsionada pelas incertezas de agentes financeiros quanto à gestão das contas públicas no quarto mandato de Lula.
Nesta quarta-feira (4), contudo, a cotação registrou ligeira atenuante: às 9h48, recuava 0,20%, cotada a R$ 5,475, repercutindo a consolidação da maioria democrata em ambas as casas do Congresso dos Estados Unidos.
Brasil 247