Airon Martin, da Misci: moda brasileira, política e o preço da independência

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Fonte da notícia: ND Mais ND Mais

À frente da Misci, Airon Martin fala sobre moda brasileira, posicionamento político, independência criativa e os desafios de crescer sem perder a identidade. A moda brasileira vive um momento de afirmação de identidade, mas também de questionamentos importantes sobre o seu futuro.

Em um mercado no qual criatividade e relevância cultural nem sempre se traduzem em negócios sustentáveis, construir uma marca autoral, independente e com ambições internacionais exige muito mais do que boas coleções. À frente da Misci, Airon Martin faz parte de uma geração de criadores que propõe uma nova leitura da brasilidade, distante dos clichês tropicais e mais conectada às complexidades culturais, sociais e políticas do país.

Mas até onde uma marca pode crescer sem comprometer sua essência? Assumir posições políticas pode afastar consumidores? E por que ainda valorizamos tanto as etiquetas internacionais enquanto questionamos o preço da criação nacional? Em uma conversa para minha coluna no ND+, Airon fala sobre os desafios de empreender na moda brasileira, a importância de preservar a independência criativa e o papel dos grandes conglomerados internacionais.

Uma entrevista que vai além das roupas e coloca em discussão o valor da identidade, da liberdade e da construção de uma marca com algo a dizer. A Misci trabalha uma brasilidade que não depende dos clichês tropicais.

O que significa, para você, fazer uma moda genuinamente brasileira? Para mim, fazer moda brasileira é olhar para o Brasil com profundidade, e não apenas para aquilo que o mundo espera ver quando pensa no país.

A nossa identidade está na arquitetura, na política, nas relações sociais, na maneira como ocupamos os espaços e até nas nossas contradições. O Brasil é complexo, e a moda pode traduzir essa complexidade.

Não quero criar uma imagem idealizada do país, mas uma imagem que seja verdadeira, inclusive nas suas contradições. Existe um momento em que uma marca deixa de ser autoral e passa a ser comercial demais? Como você administra essa fronteira?

Acredito que o problema não está em ser comercial, mas em permitir que o comercial determine todas as decisões criativas. Uma marca precisa vender para continuar existindo, mas também precisa ter algo a dizer.

Na Misci, o desafio é crescer sem perder a capacidade de propor, provocar e, eventualmente, gerar reflexões. Se toda decisão for tomada para agradar ao maior número possível de pessoas, corremos o risco de nos tornarmos mais uma marca de roupa sem expressão nenhuma.

A moda brasileira tem nomes muito talentosos, mas poucos conseguem construir negócios longevos. O que falta: gestão, investimento ou visão de mercado?

Acredito que seja uma combinação dos três, mas, principalmente, de uma estrutura que permita ao talento se transformar em negócio. Criatividade nós temos de sobra.

O desafio é construir empresas capazes de financiar o próprio crescimento, profissionalizar a operação e competir em um mercado extremamente exigente. Também precisamos de investidores que compreendam o tempo de construção de uma marca autoral.

Moda não se constrói apenas com uma boa coleção, mas com consistência ao longo dos anos. Você quer que a Misci seja uma grande empresa brasileira ou uma marca de culto, desejada justamente por não ser para todo mundo?

Não vejo essas duas possibilidades como necessariamente opostas. Quero construir uma empresa relevante, com estrutura, alcance e capacidade de competir internacionalmente, mas sem abrir mão daquilo que a torna reconhecível.

Ser desejada não significa necessariamente ser inacessível. O importante é que o crescimento não dilua a identidade da marca.

Prefiro crescer com intenção a crescer simplesmente por crescer. Quando você olha para o futuro, o que mais preocupa: perder relevância, perder independência ou perder a própria identidade?

A perda de identidade me parece o risco mais profundo, porque ela pode acontecer de maneira silenciosa. Uma marca pode continuar vendendo, crescendo e aparecendo, mas deixar de ter algo próprio a dizer.

Relevância é cíclica, e a independência pode ser negociada em determinadas circunstâncias. Já a identidade é aquilo que dá sentido ao negócio.

Se a perdemos, podemos até manter a empresa, mas talvez já não estejamos construindo aquilo que imaginamos no início. Você é um criador que não parece ter medo de se posicionar.

Em um Brasil tão polarizado, assumir uma posição política pode custar consumidores? Certamente pode.

Mas acredito que não se posicionar também é uma escolha política. Uma marca não existe fora da sociedade em que está inserida.

As decisões sobre o que produzimos, quem representa nossas campanhas e quais valores orientam o negócio já comunicam uma visão de mundo. É claro que precisamos entender as consequências das nossas escolhas, mas não acredito que o medo de perder consumidores deva ser o principal critério para definir o que temos a dizer.

Você acredita que uma marca pode se posicionar politicamente e, ao mesmo tempo, vender para pessoas que pensam completamente diferente de seu fundador? Sim.

Uma marca não precisa exigir concordância absoluta de seus consumidores. Ser político é diferente de ser partidário.

No fim, eu reivindico o que é melhor para o Brasil. As pessoas se relacionam com produtos por diferentes razões: estética, qualidade, desejo, identificação ou até curiosidade.

O que considero fundamental é que exista coerência entre o discurso e a prática da empresa. Não espero que todos os clientes pensem como eu, mas acredito que uma marca precisa ter clareza sobre os valores que orientam suas decisões.

O diálogo é possível; o que não pode existir é um posicionamento que seja apenas uma ferramenta de marketing. O Brasil tem criatividade, identidade cultural e uma indústria têxtil relevante.

Por que ainda é tão difícil transformar uma marca brasileira em uma potência internacional? Porque talento e identidade são apenas parte da equação.

Para competir globalmente, precisamos de capital, distribuição, logística, planejamento e capacidade de sustentar investimentos por muitos anos. Também existe uma questão de percepção: marcas internacionais chegam ao Brasil carregando décadas de construção simbólica, enquanto as marcas brasileiras ainda precisam provar constantemente seu valor.

Internacionalizar não é apenas vender para fora, mas construir uma narrativa capaz de fazer sentido em outros mercados sem perder a origem. O consumidor brasileiro valoriza suficientemente a moda nacional ou ainda existe uma necessidade de validação internacional?

Acredito que avançamos muito, mas ainda existe uma assimetria de reconhecimento. Muitas vezes, o consumidor brasileiro precisa ver um produto ser legitimado no exterior para reconhecer seu valor aqui.

Isso revela uma relação histórica com a nossa própria produção cultural. Ao mesmo tempo, não podemos colocar toda a responsabilidade no consumidor: as marcas brasileiras também precisam investir em qualidade, comunicação, experiência e distribuição.

Valorizar a moda nacional passa por construir produtos e empresas capazes de sustentar esse reconhecimento. Por que o brasileiro aceita pagar milhares de reais por uma marca europeia, mas questiona o preço de uma peça de um designer nacional?

O meu consumidor, não. Mas eu sou privilegiado e fui validado pelas principais plataformas globais.

O preço não é formado apenas pelo produto. Existe uma construção simbólica em torno das grandes marcas internacionais, alimentada por décadas de história, desejo, comunicação e reconhecimento social.

Quando uma marca brasileira apresenta um preço elevado, muitas vezes precisa justificar seu valor de maneira muito mais explícita. Isso não significa que toda peça nacional deva custar caro, mas que precisamos discutir o valor da criação, da produção e da propriedade intelectual brasileira, além do custo Brasil.

O desafio é fazer com que o consumidor enxergue o valor daquilo que está comprando, independentemente do passaporte da marca. Produzir moda no Brasil é um desafio tributário, industrial e comercial.

Qual desses fatores mais limita o crescimento de uma marca como a Misci? O maior desafio está na combinação desses fatores.

A carga tributária e a complexidade do sistema fiscal tornam o planejamento mais difícil, enquanto a estrutura industrial brasileira pode limitar escala, previsibilidade e competitividade. Para uma marca que deseja crescer, cada etapa da cadeia precisa funcionar de maneira integrada.

Não basta ter uma boa ideia se a estrutura produtiva não consegue acompanhá-la com qualidade, prazo e custo adequados. A reforma tributária pode representar uma oportunidade de simplificação, mas seus efeitos dependerão da implementação e de como as empresas conseguirão se adaptar.

A Misci construiu uma identidade muito reconhecível sem estar vinculada a um grande conglomerado. Até que ponto essa independência representa liberdade e até que ponto limita o crescimento?

A independência oferece liberdade para tomar decisões de longo prazo, experimentar e preservar uma visão criativa própria. Por outro lado, significa assumir riscos maiores e crescer com recursos mais limitados.

Os grandes grupos têm acesso a capital, distribuição e estruturas que podem acelerar muito o desenvolvimento de uma marca. O desafio para uma empresa independente é construir uma governança sólida sem perder agilidade.

Independência, para mim, não significa fazer tudo sozinho, mas preservar a capacidade de decidir o que a marca quer ser. Se amanhã um grande grupo de moda oferecesse comprar a Misci, você venderia? O que seria inegociável?

Não acredito que uma decisão dessa dimensão possa ser respondida apenas com um sim ou um não. Seria necessário entender quem é o comprador, quais são seus objetivos e o que a operação permitiria construir.

Capital e estrutura podem abrir oportunidades importantes, mas a transação precisaria fazer sentido para o futuro da marca. A preservação da identidade criativa, a coerência do posicionamento e a capacidade de continuar desenvolvendo uma visão própria seriam pontos fundamentais.

Crescer com um parceiro pode ser interessante; deixar de reconhecer a marca depois disso, não. Conglomerados como LVMH e Kering concentram marcas, capital e influência.

Você acredita que esses grupos fortalecem a moda ou acabam transformando criatividade em uma fórmula de rentabilidade? Acredito que podem fazer as duas coisas.

Esses grupos oferecem estrutura, investimento e alcance global, permitindo que marcas cheguem a mercados que dificilmente alcançariam sozinhas. Ao mesmo tempo, existe o risco de a lógica financeira se sobrepor à criatividade, transformando identidades distintas em modelos de negócio semelhantes.

O problema não é a rentabilidade em si, porque nenhuma empresa sobrevive sem ela. A questão é saber se a rentabilidade está a serviço da visão criativa ou se a visão criativa passou a existir exclusivamente para alimentar a rentabilidade.

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