“Quando eu uso uma palavra, disse Humpty Dumpty, em tom bastante desdenhoso, ela significa exatamente aquilo que eu quero que signifique - nem mais, nem menos. A questão disse Alice, é saber se você pode fazer com que as palavras signifiquem tantas coisas diferentes.
A questão, disse Humpty Dumpty, é saber quem manda - só isso”. Foi em 1871 que, de maneira direta e crua, Lewis Carrol, em Através do Espelho, antecipou um traço decisivo da vida social contemporânea: a associação entre o controle do significado das palavras e o exercício do poder.
Não se trata de precisão semântica e sim da autoridade capaz de imprimir sentido a uma palavra. George Orwell, em 1984, também apresenta essa transfiguração como produto do poder, com o lema celebrado pelo Grande Irmão: “Guerra é paz.
Liberdade é escravidão. Ignorância é força”.
É verdade que duplo sentido, humor e ironia são inerentes à maneira como as palavras são usadas. Mas Lewis Carrol, George Orwell e o gatopardismo de Lampedusa (“se queremos que tudo permaneça como está, é preciso que tudo mude”) mostram algo mais importante que esta capacidade humana de alterar o significado das palavras, por meio da intonação com que são pronunciadas ou da expressão facial que as acompanha.
Trata-se da habilidade social e da força para definir um conteúdo correspondente aos interesses de quem usa e generaliza o emprego de um determinado termo. Democracia, justiça, liberdade de expressão são exemplos evidentes da atualidade desses clássicos.
Mas esta atualidade não se limita nem de longe à política. Relatório recém publicado pela FAIRR Coller Initiative, uma rede de investidores com ativos de US$ 95 trilhões, voltada à avaliação dos riscos materiais e das oportunidades de negócios no sistema agroalimentar, comemora que as empresas do setor entusiasmam-se, cada vez mais, com a agricultura regenerativa, como meio para atingir metas climáticas e de biodiversidade.
Mas logo no segundo parágrafo do comunicado da FAIRR vem o alerta: só ambição não basta. É verdade que três quartos das 78 empresas apresentadas no trabalho da FAIRR (e que se encontram a montante e a jusante da produção primária) afirmam compromisso com a agricultura regenerativa.
No entanto, somente 28% delas estabelecem metas quantitativas para esta regeneração. Embora 40% das empresas afirmem apoiar os agricultores financeiramente para adotar práticas regenerativas, os investimentos nessa direção são de 0,01% a 0,05% de seus lucros.
Mas a informação que ilustra de forma emblemática a sabedoria dos clássicos é que das 78 empresas analisadas pela FAIRR, nenhuma, absolutamente nenhuma, estabelece metas de reduzir o uso de agrotóxicos como parte de seus programas de agricultura regenerativa. As empresas estudadas pela FAIRR proclamam aderir à regeneração, mas permanecem presas ao seu contrário, ou seja, ao uso dos agroquímicos que se encontram na origem daquilo que está no título do trabalho lançado há alguns dias pela Global Alliance for the Future of Food: “Dependência Tóxica: como os agroquímicos perpetuam a vulnerabilidade do sistema agroalimentar”.
É claro que, da mesma forma que para as pessoas, a supressão da dependência tóxica não se faz de forma súbita e exige um processo de emancipação. Mas não é esta a direção que as grandes corporações, que respondem pela produção e difusão de agroquímicos, estão tomando.
Por mais que anunciem compromisso com a regeneração, estas empresas são vetores decisivos de um sistema em que 90% do consumo calórico vêm de não mais que quinze produtos, cultivados, globalmente, em paisagens monótonas, sobre a base de tecnologias homogêneas e que exigem um uso crescente de fertilizantes sintéticos e agrotóxicos.
A degradação dos solos, resultante tanto do uso crescente (por unidade de produto) de agroquímicos como dos eventos climáticos extremos, coloca o agricultor numa espécie de esteira rolante em que ele tem que colocar cada vez mais insumos para obter suas colheitas e produzir cada vez mais para fazer frente ao aumento dos custos de produção decorrente de sua dependência tóxica crescente.
A promessa inicial de que a associação entre sementes transgênicas e glifosato permitiria uma redução no emprego de agrotóxicos se traduz hoje na existência de nada menos que 62 espécies de “superervas daninhas” (super weeds) resistentes ao glifosato. Isso exige o lançamento de novos produtos transgênicos, que vão requerer novos produtos químicos numa espiral crescente de ataque à saúde do solo, à sua biodiversidade, a sua crescente dificuldade em reter água e à saúde humana.
Ninguém ignora que os fertilizantes sintéticos foram fundamentais para o aumento da produção agropecuária na segunda metade do século 20. No entanto, os fertilizantes nitrogenados sintéticos respondem por cerca de 2% das emissões globais de gases de efeito estufa, considerando sua fabricação, transporte e aplicação.
Seu uso na agricultura contribui para a emissão de óxido nitroso, um gás cujo potencial de aquecimento global é aproximadamente 270 vezes superior ao do dióxido de carbono. O óxido nitroso, proveniente principalmente das atividades agropecuárias, responde por cerca de 10% do aquecimento global desde a Revolução Industrial.
Além disso, como mostra o trabalho da Global Alliance, o sistema agroalimentar é o principal vetor da ultrapassagem de cinco das nove fronteiras planetárias estudadas pelos cientistas do clima. A Global Alliance conclui com um apelo no sentido de uma transição, um “phase out”.
O mais importante é o objetivo de eliminar a dependência tóxica, ou seja, transformar os fundamentos em que o crescimento agropecuário se apoiou até aqui. Uma das premissas para este objetivo é a urgente necessidade de enfrentar o domínio das grandes corporações para que o poder público e a sociedade consigam estabelecer metas realistas, mas ambiciosas no sentido da transformação das bases tecnológicas do sistema agroalimentar.
O caminho nessa direção exige que a diversidade biológica deixe de ser encarada exclusivamente como um patrimônio cuja destruição deve ser evitada, para se tornar central nos esforços científicos e tecnológicos voltados ao próprio crescimento da produção. Para isso, o adjetivo regenerativo não pode ser mais tratado como cosmético, o que supõe que a meta central do processo produtivo deixe de ser produzir cada vez mais e se volte a atender reais necessidades humanas, sobre a base da valorização e do fortalecimento da vida que até aqui o crescimento agropecuário tem sacrificado.
Ricardo Abramovay é coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) “Superar a tríplice monotonia do sistema agroalimentar”, professor sênior do Instituto de Estudos Avançados da USP, professor sênior do Programa de Ciência Ambiental/IEE/USP e pesquisador da Cátedra Josué de Castro da Faculdade de Saúde Pública da USP.
www.ricardoabramovay.com; linkedin.com/in/ricardo-abramovay-b514b71b6
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