Ser mulher dói em dobro. A mais recente e completa revisão sobre a saúde feminina atesta que a dor crônica é duas vezes mais comum em mulheres do que em homens.
Publicado na Science, o trabalho indica também as causas de tanta dor. O prosseguimento dessa linha de estudo acena com tratamentos mais eficientes.
As mulheres são desproporcionalmente afetadas por condições dolorosas. Mas a dor feminina não é uma versão exagerada da masculina, e sim um processo biológico com raízes genéticas, imunológicas e hormonais próprias.
A revisão sintetiza descobertas feitas a partir da segunda década deste século, quando as óbvias diferenças entre homens e mulheres começaram, finalmente, a ser investigadas em detalhe. A adoção do sexo como uma variável biológica em 2016 começou a transformar a área, revelando vias específicas distintas que iniciam, amplificam ou amenizam a dor, destaca o estudo, que tem como primeira autora Archana Venkataraman, do Departamento de Farmacologia Celular e Molecular da Universidade da Califórnia, nos EUA.
Algumas dores são exclusivamente femininas, como as cólicas menstruais e as causadas por endometriose. Em outras, as mulheres são mais afetadas e chegam a mais de 70% dos casos.
Exemplos são fibromialgia, enxaqueca, espondilite anquilosante, síndrome do intestino irritável, osteoartrite e dores neuropáticas (associadas a causas diversas, como lesões, diabetes, cirurgias e infecções). “As mulheres esperam desesperadamente por respostas concretas que possam ajudar a eliminar o comentário comum de que ‘está tudo na sua cabeça’ em relação às suas doenças e encurtar a longa espera por um tratamento”, frisou Venkataraman.
Se a dor feminina é real, a suposta maior resiliência não tem, por ora, sustentação biológica. O estudo não aborda diretamente a concepção popular de que as mulheres são mais resilientes à dor.
Mas uma das possibilidades para as mulheres, em geral, demonstrarem mais resistência, embora sofram mais, seria um mecanismo de defesa psicológica. — A mulher demonstra mais resiliência, segura melhor a barra, mas esses mecanismos não são ainda bem compreendidos e não quer dizer que, por não demonstrar, ela não sofre — afirma a neurocientista Raquel Campos, pesquisadora do Laboratório de Neuropatologia Experimental da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), ao comentar o estudo da Science.
Ela observa que a mulher é mais exposta, mas procura evitar ser vítima de preconceito e discriminação por reclamar de “dores de mulher”, como as menstruais. A dor é sentida, mas instintivamente, a mulher suporta ou se acostuma.
“Em vez de nos limitarmos ao padrão histórico de simplesmente descrever o viés feminino nos sintomas de dor, estes estudos começam a explicar o porquê de as mulheres sofrerem dor amplificada, pavimentando o caminho para terapias de precisão”, escreveram Venkataraman e suas colegas Élora Midavaine e Holly Ingraham, ambas também da Universidade da Califórnia.
A estreita ligação entre os níveis hormonais e os sintomas é um traço comum em muitos tipos de dor feminina. O melhor exemplo é o surgimento repentino das enxaquecas menstruais.
As cientistas foram em busca das respostas para duas questões essenciais. A primeira é como genética, hormônios e nervos interagem nos diferentes órgãos.
A segunda é por que apenas algumas mulheres desenvolvem sintomas. O trabalho mostra que os nervos sensoriais femininos possuem uma atividade mínima naturalmente mais elevada do que os masculinos.
Isso significa que a margem de tolerância da mulher para estímulos dolorosos é menor, facilitando o disparo da dor. Além disso, as pesquisadoras destacam que homens e mulheres sentem dor por caminhos diferentes.
Historicamente, pesquisas médicas usavam quase que somente animais machos em testes de laboratório, assumindo que a dor era igual para todos. O artigo evidencia que isso é um erro.
Nos homens, a dor crônica costuma ser processada e amplificada principalmente por células de defesa chamadas micróglias. Essas células pertencem ao sistema imunológico do cérebro e da medula.
Já nas mulheres, a dor está ligada a variações nos hormônios femininos e aos linfócitos T. Estes são produzidos pelo timo (daí o T) e são células do sistema imunológico adaptativo, a parte do sistema de defesa do organismo que aprende a reconhecer, combater e memorizar ameaças específicas.
Os hormônios têm papel chave na dor. O estrogênio feminino pode aumentar a sensibilidade dos nervos da região pélvica e abdominal.
Isso se reflete principalmente em dores causadas por síndrome do intestino irritável, endometriose e cistite. Já a testosterona, muito mais abundante nos homens do que nas mulheres, atua como um protetor natural.
Ela reduz a sensibilidade a certos tipos de dor. — O estrogênio está associado tantos aos mecanismos que causam dor quanto à percepção desta.
Já a testosterona tem efeito protetor. Os hormônios regulam os sistemas nervoso e imune.
Essa revisão deixa isso evidente — diz Campos. O artigo também mostra que existe uma comunicação direta entre as bactérias do intestino (microbiota), os hormônios e os nervos.
Certas bactérias alteram a forma como o corpo metaboliza o estrogênio, aumentando a percepção de dor. Os hormônios são fundamentais nas dores de cabeça e em articulações.
A enxaqueca afeta de duas a três vezes mais mulheres do que homens. Isso seria decorrente de flutuações dos níveis de estrogênio e de prolactina (outro hormônio feminino).
Essas variações sensibilizam diretamente os nervos da face e da cabeça. O estudo aponta que a dor nas articulações após a menopausa e a fibromialgia também estão ligadas a respostas inflamatórias específicas ao sexo.
Estas são impulsionadas pela perda ou alteração de hormônios femininos e moléculas inflamatórias, como citocinas. Inexistem ainda explicações para os motivos de as mulheres estarem sujeitas a sentir mais dor.
Mais do que castigo bíblico para as filhas de Eva, seria um mecanismo evolutivo para facilitar a multiplicação da espécie. Uma hipótese é que taxas mais elevadas de percepção de dor influenciadas pelos hormônios sexuais poderiam conferir uma vantagem para a reprodução.
Isso aumentaria a sensibilidade durante diferentes fases da vida, como seria o caso dos órgãos da região pélvica durante a gravidez. Mas são esses mecanismos biológicos completamente diferentes que fazem com que um remédio para dor que funciona muito bem em homens possa ser ineficaz ou menos eficiente em mulheres e vice-versa.
O artigo destaca que a testosterona atua como um poderoso escudo da dor nos homens. Faz isso porque combate a inflamação e reduz a sensibilidade em nervos dos órgãos, articulações e cabeça.
Em testes com animais, a testosterona e outros hormônios masculinos ajudaram a bloquear vias de dor neuropática e inflamatória. Se sabe que em mulheres essas vias permanecem cronicamente ativas.
Porém, apesar do efeito analgésico e protetor, as cientistas ressaltaram que a administração direta de testosterona em doses terapêuticas altas em mulheres não é uma solução viável. Isso porque há severos efeitos colaterais, como acne, crescimento de pelos, alterações na voz, virilização e riscos cardiovasculares e metabólicos.
Outro exemplo de substância que funciona para os homens, mas não para as mulheres é a interleucina 10 (IL-10), uma citocina anti-inflamatória naturalmente produzida pelo organismo. Em estudos com animais machos, ela reduziu a sensação de dor.
Porém, o mesmo não aconteceu com as fêmeas, explica Campos. — Se existem mecanismos diferentes para a doença causadora de dor, o remédio também precisa ser diferente.
A tendência é que os tratamentos se tornem cada vez mais específicos — enfatiza Raquel Campos.
O Globo