Na Fazenda Santa Luzia, em Passos, no Sul de Minas, 244,5 mil litros de leite por ano deixaram de ir para o descarte. A conta foi divulgada pela Embrapa em 3 de novembro e vale um ganho estimado de R$ 660 mil por ano.
O segredo não foi comprar vaca. Foi parar de dar antibiótico no escuro: antes de tratar, a fazenda passou a testar o animal.
Quando o exame dá negativo, a vaca fica sem remédio, e o leite dela segue para o tanque em vez de ir embora. É leite que as mesmas vacas já davam.
A diferença é que agora ele é vendido, conta o Compre Rural, que lembra que o valor é uma estimativa da própria fazenda, não um lucro auditado. Porque o remédio não fica só no corpo da vaca.
Segundo a Embrapa, o antibiótico passa para o leite, e a pasteurização, aquele aquecimento feito no laticínio, não destrói o resíduo. Por isso existe o prazo de carência, também chamado de período de retirada.
É o tempo que o leite da vaca tratada precisa ser jogado fora até o remédio sair do organismo. Cada produto tem o seu prazo, escrito na bula.
E não adianta descartar só o leite da teta doente. A Embrapa explica que o antibiótico aplicado num quarto do úbere passa para os outros pelo sangue.
O leite dos quatro quartos vai fora, todos os dias, até acabar a carência. Na roça, isso tem nome e sobrenome: é o balde que volta cheio da ordenha e não entra no tanque.
“Se não temos um registro sanitário confiável, corre-se o risco de enviar leite com resíduo de antibiótico ao tanque”, alerta Bruno Carvalho, chefe-adjunto de Pesquisa e Desenvolvimento da Embrapa Gado de Leite. A fazenda de Passos passou a testar antes de tratar.
Dos 3.161 casos avaliados na fazenda, 1.366 deram resultado negativo e dispensaram o remédio, o que dá 43%, segundo a Embrapa. Com o exame na frente, a Santa Luzia cortou pela metade o antibiótico usado na mastite clínica.
Mastite é a inflamação do úbere, a “bolsa” onde a vaca guarda o leite, e é a doença que mais leva remédio nas vacas de leite. Na tristeza parasitária bovina, doença ligada ao carrapato que derruba o gado, o corte de antibiótico foi de 70%.
O dono da fazenda, Maurício Coelho, resume a virada assim: “Até quatro em cada dez tratamentos podem ser evitados no modelo convencional. Elevando o status sanitário da fazenda, reduzimos custos e nos preparamos para o mercado internacional”, disse à Embrapa.
E onde mora o dinheiro? Ele mesmo apontou ao AgFeed: “O maior ganho está no leite que deixa de ser descartado pelo prazo de carência após uso de antibióticos”. O remédio que não é dado também não é comprado, mas o grosso da economia está no balde que volta a valer.
Fizemos a conta com o preço do Cepea, da USP. Em setembro, o litro pago ao produtor ficou em R$ 2,76 na Média Brasil, queda de 5% sobre agosto.
Multiplicando, 244,5 mil litros vezes R$ 2,76 dão cerca de R$ 675 mil por ano no preço de setembro. É um pouco acima dos R$ 660 mil da fazenda, porque o preço do leite sobe e desce ao longo do ano.
Dividido pelo calendário, o leite salvo dá perto de 670 litros por dia. É como se a fazenda tivesse um caminhãozinho de leite a mais saindo da porteira todo dia, sem uma vaca nova no pasto.
Pelo mês, os R$ 660 mil viram cerca de R$ 55 mil, conta que o Compre Rural também fez. A mesma fazenda já viu o outro lado da moeda.
Em maio de 2018, na greve dos caminhoneiros, o caminhão de leite não chegava. Segundo o MilkPoint, Maurício Silveira Coelho perdeu 100 mil litros de leite num só dia, e cerca de 30 mil eram da própria fazenda.
O leite foi dado aos porcos e jogado nos biodigestores. Vaca não para de dar leite porque a estrada fechou: “As vacas não podem parar de ser ordenhadas, porque correm risco de vida”, disse ele na época ao MilkPoint.
Ele calculou prejuízo de R$ 50 mil por dia. Naquele ano, a Santa Luzia produzia cerca de 35 mil litros por dia.
Na régua de 2018, os 244,5 mil litros salvos agora equivalem a uns 7 dias inteiros de ordenha da fazenda. É história de três gerações.
Segundo a Globo Rural, a família chegou à região de carro de boi na década de 1940, e um tourinho zebu chamado Cariá ajudou a pagar a fazenda. Maurício é da terceira geração e comanda a propriedade desde 1990.
A ordenha é feita num carrossel, uma plataforma redonda que gira devagar com as vacas em cima, enquanto a equipe coloca as teteiras. Em 2018, a Globo Rural contou que o carrossel recebia 40 vacas a cada 10 minutos.
O rebanho é de Girolando, a mistura de Gir com Holandesa que é a cara do leite brasileiro. No vídeo abaixo, do canal oficial do Grupo Cabo Verde, Maurício aparece no pasto entre as vacas falando do pacote de manejo que a fazenda usa para produzir leite.
É a Certificação em Biosseguridade, a CBS. Biosseguridade é o conjunto de cuidados para a doença não entrar nem se espalhar na fazenda: controle de quem entra, lavagem de pneu de caminhão, roupa limpa para visita e registro de cada tratamento.
O selo foi criado pela Embrapa com a farmacêutica Boehringer Ingelheim. A auditoria confere mais de 140 pontos críticos da propriedade, e o programa deve chegar a 160 fazendas de leite.
A base é um documento da Embrapa Gado de Leite de 2018. A pandemia de 2020 acelerou o uso das medidas, e a certificação transformou as recomendações em itens que podem ser conferidos e anotados.
A Santa Luzia e a Fazenda Colorado, de Araras (SP), foram as primeiras certificadas, em 2024, segundo o AgFeed. O site chamou atenção para uma ironia: o modelo foi montado por uma empresa que vende remédio e faz o produtor usar menos remédio.
Lá, a mudança foi na secagem, a pausa de descanso antes da vaca parir de novo. Em 2016, todas as vacas recebiam antibiótico nessa hora.
Em 2026, cerca de 80% secam sem antibiótico, só com selante de teto, segundo a Embrapa. E o rebanho em lactação da Colorado cresceu ao mesmo tempo, de 1.700 para 2.400 vacas entre 2016 e 2024.
Menos remédio não significou menos leite, a mesma lição que vem de Passos. O selo também já chegou ao supermercado: a marca de laticínios Xandô estampa a CBS nas embalagens, de acordo com a Embrapa.
O costume ainda pesa mais que o exame. Um levantamento feito em 65 fazendas de São Paulo e Minas Gerais, citado pela Embrapa, mostrou que em 43,1% delas o tratamento da mastite começava sem exame, mesmo em caso leve.
Só 12,3% das fazendas faziam cultura, o exame de laboratório que mostra qual bactéria está causando a mastite. E 53,9% nem anotavam os casos.
O peso disso é grande. Entre 52% e 62% de todo o antimicrobiano usado nas vacas de leite vai para tratar ou prevenir mastite, segundo estudos citados pela Embrapa.
Remédio dado sem precisar ainda ajuda a criar bactéria resistente, que depois não morre com antibiótico nenhum. A ideia central cabe em qualquer curral: primeiro descobrir, depois tratar, sempre com o veterinário.
A Santa Luzia mostra que o exame antes do antibiótico pode poupar remédio e, principalmente, leite. As regras da Embrapa para a vaca que precisou de remédio também valem para todo tamanho de fazenda:
E anotar tudo: o dia, a vaca e o remédio. É esse caderno que, segundo Bruno Carvalho, da Embrapa, evita que leite com resíduo de antibiótico chegue ao tanque e ao laticínio.
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