Durante anos, Neil Sethi publicou rotineiramente pesquisas de Wall Street para conquistar uma audiência no X, destacando gráficos e dicas de ações para seus quase 30 mil seguidores. Ele via isso como uma relação de troca: sua marca crescia, enquanto os bancos ganhavam maior exposição por meio de curtidas e retuítes.
Tudo isso mudou neste verão, quando sua conta, @neilksethi, foi suspensa após o Bank of America Corp. acusá-lo de publicar dados da instituição sem permissão.
Embora Sethi — que administra uma pequena empresa de investimentos em Upper Arlington, Ohio — tenha se oferecido para nunca mais utilizar essas pesquisas, ele não recuperou o acesso à sua conta, que ele desenvolveu ao longo da última década. “Isso aumentou minha visibilidade junto a pessoas com as quais eu não teria tido nenhum tipo de relacionamento”, disse Sethi, de 54 anos.
“Ter isso arrancado de você, sem qualquer oportunidade de entender o que está acontecendo ou de resolver a situação, é frustrante.” A situação de Sethi reflete um cenário que se repete em todo o vasto ecossistema online conhecido informalmente como "FinTwit" — abreviação de "Financial Twitter", uma referência ao antigo nome da plataforma X.
Muitos observadores afirmam que isso reflete uma resposta nova, e surpreendentemente rigorosa, por parte de alguns dos maiores nomes de Wall Street, que buscam proteger seus modelos de negócios ao restringir o acesso às suas pesquisas. Nas últimas duas décadas, regulamentações rígidas sobre a cobrança por pesquisas — somadas à ascensão de fundos que replicam índices — esvaziaram os departamentos de análise de empresas, tanto grandes quanto pequenas.
Agora, avanços impressionantes em inteligência artificial ameaçam transformar suas análises proprietárias em produtos padronizados assim que são publicadas online. “A pirataria existe há décadas; ela apenas se tornou mais popular devido à facilidade com que é possível encontrar esses documentos por meio de agentes de IA ou redes sociais”, afirmou Ben Mok, vice-presidente de proteção de marca e conteúdo da Corsearch — empresa contratada pelo Bank of America para formalizar as reclamações.
Ele não quis comentar os casos específicos apresentados pelo banco. “Agora, as equipes de cibersegurança estão começando a prestar atenção”, disse ele.
Em particular, modelos de "web scrapin" (coleta automatizada de dados da web) incorporam publicações que contêm pesquisas dos bancos para aprimorar a qualidade de suas respostas — frequentemente sem dar o devido crédito. O receio é que chatbots e agentes de IA sintetizem tantas pesquisas em suas respostas a ponto de tornar os relatórios dos bancos obsoletos, ou, no mínimo, reduzir drasticamente os valores que as instituições podem cobrar pelos "insights" de seus analistas.
Os próprios bancos têm mantido uma postura reservada. O Bank of America não quis comentar as medidas que adotou, assim como o Morgan Stanley, que também tomou providências contra contas do “FinTwit”.
O Goldman Sachs informou, por meio do porta-voz Nick Carcaterra, que não permite que terceiros publiquem relatórios de pesquisa em redes sociais; contudo, a instituição não revelou se tomou medidas concretas para fazer valer essa proibição. Outras firmas de Wall Street — incluindo J.P.
Morgan, Citigroup e Toronto-Dominion Bank — também não informaram se adotaram medidas semelhantes. O Royal Bank of Canada e a plataforma X não responderam aos pedidos de comentário.
Pelo menos uma dúzia de contas do “FinTwit” — variando de perfis com algumas centenas a outros com dezenas de milhares de seguidores — receberam notificações do Bank of America ou do Morgan Stanley, apontando violações da Lei de Direitos Autorais do Milênio Digital, segundo documentos consultados pela Bloomberg.
Ryan Detrick, estrategista-chefe de mercado do Carson Group Holdings, recebeu sua primeira notificação em 2 de setembro, enviada pelo Morgan Stanley. O aviso resultou no bloqueio temporário de sua conta no X, que conta com mais de 225 mil seguidores.
Mike Zaccardi, um redator da área financeira com mais de 80 mil seguidores, relatou que começou a receber notificações DMCA (relacionadas a direitos autorais) em nome do Bank of America há cerca de um ano, mas o volume dessas notificações aumentou consideravelmente nos últimos meses.
Zaccardi e Sethi também receberam reclamações DMCA do LinkedIn após publicarem, na plataforma, análises produzidas por bancos. “Atualmente, há muito mais conteúdo disponível em formato digital, e a IA generativa é mais eficiente do que um ser humano comum para localizar essas informações”, afirmou Michael Eastwood, diretor de pesquisa de ações para as Américas na Jefferies.
“Agora, os bancos estão mais expostos.” O fenômeno vai muito além de Wall Street.
Setores que variam de mídia digital a comércio eletrônico estão correndo para proteger seu conteúdo contra bots — que, segundo a empresa de cibersegurança Cloudflare, já representam 65% de todo o tráfego na internet. Em um caso de grande repercussão, o New York Times e o Chicago Tribune processaram a Perplexity AI no final do ano passado, alegando que a startup copiou e distribuiu seu conteúdo sem autorização.
Os departamentos de pesquisa dos bancos têm motivos para estar particularmente cautelosos, após uma década em que viram seu prestígio diminuir e os gastos dos clientes com seus serviços encolherem. Regulamentações forçaram os bancos a separar os custos de pesquisa dos custos de negociação, o que levou a uma redução nos orçamentos destinados à pesquisa.
A proliferação de ETFs (fundos de índice negociados em bolsa) impulsionou o investimento passivo e facilitou a negociação de temas mais amplos do mercado, tirando o protagonismo dos analistas especializados na seleção de ações. Paralelamente, clientes que antes eram fontes confiáveis de receita — como os fundos de hedge — passaram a estruturar suas próprias equipes internas de pesquisa.
De fato, os gastos dos clientes com pesquisas sobre ações caíram 50% desde 2018, segundo dados da Substantive Research. Rebecca Tushnet, professora de direito constitucional na Harvard Law School, explicou que, embora fatos — como dados de mercado — não sejam protegidos por direitos autorais, a forma como são organizados e apresentados pode, sim, estar protegida.
“Se você simplesmente copiar o conteúdo, então, sim, há um argumento plausível para uma violação de direitos autorais”, afirmou ela. Por sua vez, Sethi admite que não solicitou, inicialmente, permissão ao Bank of America para utilizar suas pesquisas — material ao qual ele tinha acesso por meio de uma conta que mantém na divisão de gestão de patrimônio do banco.
Ele supôs, assim como muitos outros usuários no “FinTwit”, que contava com a aprovação tácita dos bancos. O mesmo pensava Zaccardi, que minimizou as reclamações, em parte porque via as pesquisas do Bank of America circulando por toda parte na plataforma X.
“Ainda hoje, vejo perfis que continuam publicando conteúdos do Bank of America o tempo todo — e esses perfis são, certamente, muito maiores que o meu”, disse ele. Apesar dos avisos e das possíveis consequências, Sethi e Zaccardi continuam publicando, de forma rotineira, pesquisas produzidas por bancos, incluindo frequentemente notas do Bank of America.
Como era de se esperar nesta era de inteligência artificial, ambos admitiram utilizar IA para modificar os gráficos, de modo que pareçam diferentes dos originais. A ameaça de suspensão permanece como uma constante.
Ainda assim, Sethi justifica sua decisão da seguinte forma: os cerca de 9.300 usuários que acompanham sua nova conta no X representam apenas uma fração do público que ele havia reunido em sua conta anterior. “É muito difícil”, diz ele, “recuperar essas relações.”
Valor