As semanas que sucederam os dois turnos da eleição produziram movimentos distintos nos ativos brasileiros, mas a reação à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi substancialmente mais intensa. Depois de avançar 12,2% na semana seguinte ao primeiro turno, quando o candidato Flávio Bolsonaro (PL) saiu à frente, o Ibovespa acumulou perdas de 18,1% após o segundo, enquanto o dólar à vista passou de uma queda de 3,8% para uma alta de 9,1%.
Assim, a correção apagou com folga os ganhos observados no início do mês de outubro e deixou a bolsa e o câmbio distantes dos níveis observados antes do resultado do pleito. A diferença entre as duas reações fica evidente nos patamares dos ativos.
O Ibovespa avançou de 186.340 para 209.067 pontos na primeira semana após o primeiro turno, mas encerrou o período seguinte ao segundo em 167.922 pontos. Já o dólar passou de R$ 5,1743 para R$ 4,98 no primeiro movimento e terminou em R$ 5,4442 após o resultado da eleição, revertendo integralmente a valorização do real observada semanas antes.
A explicação para os dois movimentos opostos está na forma como os investidores avaliaram as chances de reeleição de Lula ao longo da campanha. Às vésperas do primeiro turno, as pesquisas apontavam vantagem do petista sobre o senador Flávio Bolsonaro (PL), mas ainda em um cenário de disputa aberta.
Com uma campanha que ganhava força nas redes sociais, o candidato da oposição passou a ser visto por parte relevante do mercado como uma alternativa viável de alternância de poder, alimentando o otimismo com uma eventual mudança na condução da política econômica. Neste contexto, a euforia tomou conta dos ativos brasileiros após o primeiro turno.
O senador surpreendeu ao terminar a etapa inicial da disputa com 47,03% dos votos válidos, ou 56,1 milhões de votos, enquanto o presidente Lula recebeu 45,16%, equivalentes a 53,9 milhões. A vantagem de cerca de 2,2 milhões de votos levou muitos participantes do mercado ouvidos pelo Valor a aumentar a probabilidade de uma vitória da oposição no segundo turno.
A leitura desencadeou uma forte migração para o chamado "kit Brasil", impulsionando ações domésticas mais sensíveis aos juros e a valorização do real. Nas semanas seguintes, porém, a campanha de Lula ganhou tração.
O grupo de mensagens "Exército do Lula", criado pelo deputado federal André Janones (Rede-MG), reuniu mais de 10 milhões de participantes e se tornou uma das principais ferramentas de mobilização digital do presidente. Ao mesmo tempo, a militância ampliou a presença nas ruas com passeatas e atos em diversas cidades do país, reforçando a campanha na reta final da disputa.
Além disso, o governo ampliou medidas de apelo social, incluindo reajuste do Bolsa Família e novos incentivos para microempreendedores individuais (MEIs), o que contribuiu para elevar a popularidade do presidente e melhorar seu desempenho entre eleitores indecisos. O esforço se refletiu nas urnas e Lula recebeu 64,2 milhões de votos no segundo turno, 10,3 milhões a mais do que havia obtido na primeira etapa da disputa, garantindo a virada sobre Flávio Bolsonaro, que conquistou 59,8 milhões de votos.
A diferença entre os candidatos foi de 4,4 milhões de votos, o equivalente a 3,58% dos votos válidos, frustrando as apostas de investidores que viam uma alternância de poder como o cenário mais provável após a primeira votação. A liquidação dos ativos levou o Ibovespa a encerrar a sexta-feira (30) em queda de 0,75%, aos 167.922 pontos.
No acumulado da semana, o índice recuou 18,12%, na maior desvalorização semanal desde 20 de março de 2020, quando cedeu 18,88% em meio ao choque provocado pela pandemia de covid-19. Nesse intervalo, as empresas listadas perderam cerca de R$ 870 bilhões em valor de mercado, com o montante encolhendo de R$ 5,2 trilhões para R$ 4,3 trilhões.
Em outubro, a perda acumulada foi de 9,88%. No câmbio, o dólar à vista avançou 1,05% na sexta-feira, para R$ 5,4442.
O ganho acumulado de 9,04% na semana foi o maior desde outubro de 2008, durante a crise financeira global, e mais do que anulou a queda registrada após o primeiro turno. Em outubro, a moeda americana acumulou valorização de 5,22%.
Valor