Uma nova era nas finanças climáticas: do investimento em soluções ao financiamento de transições sistêmicas

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Fonte da notícia: Valor Valor

Durante muitos anos, uma parte importante da agenda climática esteve concentrada em identificar, desenvolver e provar a efetividade das soluções de que precisaríamos para descarbonizar a economia. Foi preciso entender quais caminhos seriam mais efetivos, demonstrar sua viabilidade, convencer empresas, investidores e governos e mobilizar capital para tecnologias e modelos de negócio ainda emergentes. Esse esforço produziu avanços importantes. Segundo o World Economic Forum, já temos 90% das tecnologias de que precisamos para enfrentar a crise climática. Isso não significa que todas estejam maduras, economicamente competitivas ou prontas para ganhar escala. O desafio está mudando: não se trata apenas de encontrar soluções, mas de criar as condições para que sejam implementadas, adotadas e escaladas na velocidade necessária. Na Climate Week de Nova York deste ano, senti essa mudança de forma particularmente clara. As soluções continuam no centro da agenda — e ainda precisamos de muita inovação e investimento. Mas, ao entrarmos na era da implementação, a pergunta que dominou as conversas foi: se grande parte das soluções já existe, como asseguramos que avancem na velocidade e na escala necessárias? A resposta nos convida a olhar além da solução isolada para o sistema no qual ela precisa prosperar. Uma solução pode existir, funcionar e ter potencial para ser competitiva e, ainda assim, não avançar. Pode faltar infraestrutura, regulação, demanda, dados, instrumentos financeiros adequados, capacidade institucional ou coordenação entre atores. Essa consciência muda a forma de investir. E, por isso, na minha visão, estamos entrando em uma nova era das finanças climáticas. Se a primeira foi marcada pelo investimento em soluções específicas, esta nova fase exige avançar para o financiamento das condições necessárias para que as soluções promissoras prosperem e as transições sistêmicas aconteçam. Foi justamente essa ideia de criar condições que encontrei repetidamente nas conversas da Climate Week de Nova York, no final de setembro. No Transformative Wealth Family Office Gathering, grande parte das discussões girou em torno da infraestrutura necessária para viabilizar mudanças sistêmicas. Nesse contexto, infraestrutura diz respeito sobretudo a ativos intangíveis, como conhecimento, confiança e capacidade de coordenação. Precisamos de infraestrutura de dados e conhecimento, para compreender os sistemas e orientar decisões; infraestrutura institucional, para criar regras e mecanismos que viabilizem novos mercados; infraestrutura relacional, para conectar atores e construir confiança; e infraestrutura de coordenação, para alinhar movimentos e transformar intenções compartilhadas em ação. Essa última dimensão merece atenção. Em processos de transição, temos múltiplos atores tomando decisões de forma descentralizada, a partir de informações e incentivos distintos. Podemos concordar sobre a direção desejada e, ainda assim, desenvolver planos que se sobreponham, disputem os mesmos recursos ou produzam efeitos contraditórios. Giannandrea Giammanco, que abriu o encontro, chama essa lacuna entre intenção compartilhada e ação coordenada de praxial dissonance: alinhamento de propósito não produz, automaticamente, coordenação na prática. Não basta construir convergência sobre onde queremos chegar. É preciso também articular como chegaremos lá. Isso significa tornar visíveis os planos, premissas e movimentos dos diferentes atores, compreender suas interdependências e antecipar onde ações tomadas isoladamente podem se reforçar, competir por recursos ou até se anular. Assim, cada ator pode tomar suas próprias decisões compreendendo como elas se relacionam com as dos demais e com a direção compartilhada para a transição. Nesse sentido, a coordenação é uma infraestrutura fundamental para viabilizar transições. Quando mudamos o foco do investimento em soluções para o financiamento das condições necessárias para que elas prosperem, surge uma nova pergunta: que tipo de capital tem condições de cumprir esse papel? É aí que o capital de famílias empresárias e investidoras e de family offices ganha particular relevância. Quando há intenção e disposição para exercer um papel catalítico, famílias ou family offices com patrimônio multigeracional podem mobilizar uma combinação singular de recursos: diferentes pools de capital — do filantrópico ao comercial —, com distintas expectativas de retorno, horizontes de tempo, disposições a risco e flexibilidade de mandato, além de capitais não financeiros, como redes, influência, conhecimento e seus próprios negócios operacionais.

Essa amplitude permite que esse tipo de investidor vá além da análise de oportunidades individuais de investimento e faça uma pergunta mais estratégica: que combinação de capitais pode ser mobilizada para criar as condições necessárias à transição que queremos viabilizar? Foi justamente esse papel potencial do capital familiar nas transições que aprofundamos na roundtable The Strategic Role of Family Capital in the Climate Transition: A Closer Look at Latin America’s High-Impact Climate Solutions, que organizei por meio do Brazil Climate Institute durante a Climate Week, reunindo cerca de 50 representantes de famílias empresárias e investidoras e family offices do Brasil, da América Latina e de outras partes do mundo. Partimos das inúmeras soluções para clima e natureza que a América Latina, e particularmente o Brasil, tem a oferecer para explorar a visão e a disposição de famílias e family offices em exercer um papel catalítico — mobilizando suas diferentes formas de capital para destravar outros capitais e criar as condições necessárias para que soluções-chave ganhem força e escala e contribuam para a transformação de setores da economia.

Essa lógica já pode ser observada na prática. No evento Markets in Motion, organizado pela Builders Vision, do qual tive a oportunidade de participar, essa abordagem apareceu de forma particularmente concreta. Criada por Lukas Walton, membro da família Walton, investidor e filantropo, a Builders Vision tornou-se, na minha visão, uma das grandes referências globais na combinação de diferentes formas de capital para promover mudanças sistêmicas. A abordagem da Builders Vision parte justamente dessa lógica: diferentes formas de capital podem cumprir funções distintas e complementares ao longo de uma transição. Recursos filantrópicos podem financiar conhecimento, articulação e experimentação. Capital catalítico pode assumir riscos que investidores tradicionais ainda não estão preparados para absorver, testar modelos, desenvolver mercados e mobilizar outros capitais. E o capital comercial pode financiar empresas e projetos e oferecer escala à medida que tecnologias e mercados amadurecem. Mais do que escolher entre diferentes formas de capital, trata-se de combiná-las estrategicamente para responder às necessidades de cada etapa da transição. É justamente quando olhamos para a transição como um todo que conseguimos compreender onde estão os principais bloqueios, quais soluções são necessárias, em que ordem e qual forma de capital pode cumprir melhor cada função ao longo desse processo. Isso exige mudar nossa unidade de análise: da solução para a transição. Por isso, na minha visão, a próxima fronteira das finanças climáticas exige uma mudança de mindset: investir nas soluções que representam o futuro que queremos criar é apenas parte do desafio. Precisamos ampliar nosso olhar para o sistema ao seu redor e financiar também as condições necessárias para que essas soluções avancem, ganhem escala e contribuam para transformar sistemas. O sucesso do capital investido em soluções específicas depende também do investimento nas condições que permitirão que elas prosperem. Sem isso, corremos o risco de acumular soluções promissoras que nunca alcançam seu pleno potencial — comprometendo tanto os recursos investidos quanto a transição que buscamos viabilizar.

Sobre a autora Marina Cançado é fundadora e CEO da TRANSITIONS. Atua há duas décadas na interseção entre capital, sustentabilidade e transformação sistêmica e é cofundadora do Brazil Climate Institute e da Brazil Climate Investment Week.

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