O Ueno Bank, instituição financeira paraguaia que se tornou o epicentro de uma crise política e econômica no país, foi um dos patrocinadores de um evento da extrema direita realizado em 10 de fevereiro deste ano em Mar-a-Lago, clube do presidente americano Donald Trump, em Palm Beach, na Flórida.
A gala, batizada de Hispanic Prosperity Gala 2026, teve Eduardo Bolsonaro entre os palestrantes e reuniu nomes da direita latino-americana e americana. O banco patrocinou a categoria Diamond, com uma contribuição de 100 000 dólares, segundo informações divulgadas pela imprensa paraguaia.
O encontro foi organizado por grupos ligados à comunidade conservadora hispânica e teve como proposta celebrar valores associados ao trumpismo. Entre os nomes anunciados estavam o presidente argentino Javier Milei, o ex-deputado brasileiro Eduardo Bolsonaro, a política peruana Keiko Fujimori, o então secretário de Saúde americano Robert F.
Kennedy Jr. e o ex-jogador Ronaldinho Gaúcho.
Milei, anunciado como convidado de honra e principal palestrante, não compareceu presencialmente: enviou uma gravação em vídeo exibida durante a programação. Eduardo Bolsonaro também constou entre os participantes anunciados.
Os ingressos VIP para entrar no evento chegaram a custar 5 000 dólares. Um dos homenageados da noite foi o argentino Fernando Cerimedo, que recebeu o prêmio de consultor político hispânico do ano.
Ele é conhecido por sua atuação à frente do portal La Derecha Diario, apontado como parte de uma rede de disseminação de desinformação com influência em países latino-americanos. Em 2022, Cerimedo promoveu uma transmissão com alegações falsas sobre as urnas eletrônicas brasileiras, posteriormente utilizadas por apoiadores de Jair Bolsonaro para alimentar suspeitas infundadas de fraude eleitoral.
Continua após a publicidade Argumentos apresentados por ele também apareceram em um relatório produzido pelo PL (Partido Liberal) que questionava a validade de votos de urnas anteriores ao modelo de 2020.
Em 2024, o argentino foi indiciado pela Polícia Federal no inquérito sobre a tentativa de golpe de Estado no Brasil, mas não chegou a ser denunciado pela Procuradoria-Geral da República. Próximo de Eduardo Bolsonaro, Cerimedo está atualmente preso na Bolívia, acusado de tentativa de feminicídio.
O La Derecha Diario também participou da organização da gala. A participação financeira do Ueno Bank no encontro foi divulgada pelo jornal paraguaio ABC Color, que identificou a instituição como uma das patrocinadoras da categoria Diamond.
As publicações dos organizadores no X (antigo Twitter) que anunciavam o apoio do banco deixaram de estar disponíveis, assim como a relação de financiadores que aparecia no site oficial do evento. Registros das informações, porém, continuaram circulando em páginas do Instagram e do Facebook.
A ligação entre o banco e o encontro foi inicialmente noticiada pelo site argentino Chequeado. A revelação ganha relevância diante da crise que atingiu a instituição financeira e provocou consequências diretas na política paraguaia.
Continua após a publicidade Em 11 de fevereiro, Eduardo Bolsonaro publicou um carrossel de fotos do evento e, em uma delas, ele aparece com o backdrop onde consta as marcas patrocion
O que aconteceu com o Ueno Bank? O Ueno Bank foi alvo de intervenção do Banco Central do Paraguai na segunda-feira, 2, depois que a autoridade monetária identificou o descumprimento de exigências mínimas de solvência.
A instituição administrava aproximadamente 850 milhões de dólares em recursos públicos e tinha cerca de 2,9 milhões de clientes — quase metade da população do país, estimada em 6,4 milhões de habitantes. A medida provocou corridas às agências, com correntistas tentando recuperar suas economias, além de protestos em Assunção.
O episódio também levou à renúncia do presidente do Banco Central, Carlos Carvallo. A crise financeira teve desdobramentos no alto escalão do governo.
Santiago Peña, que foi acionista da Ueno Holding, empresa ligada ao Grupo Vázquez, principal acionista do Ueno Bank, deixou a holding em março de 2025. Na sexta-feira, 6 de novembro, após enfrentar um processo de impeachment, o presidente foi preso, segundo as informações fornecidas.
Peña havia tentado renunciar ao cargo, mas o Congresso não chegou a analisar o pedido por falta de quórum. O caso amplia a pressão sobre as relações entre o sistema financeiro paraguaio e o poder político, em meio a suspeitas de irregularidades e à preocupação de milhões de correntistas com o destino de seus recursos.
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