Muita gente ainda não entendeu o tamanho do que aconteceu nos Estados Unidos nesta terça-feira, 3 de novembro de 2026. Dá pra resumir assim.
Donald Trump vai perder boa parte do poder e será investigado em público, sob os holofotes. Os democratas conquistaram o controle do Senado, segundo a agência Associated Press, e tomaram a Câmara com folga, com pelo menos sete cadeiras de senador arrancadas dos republicanos.
A rede NBC projeta cerca de 255 cadeiras democratas na Câmara, bem acima das 218 necessárias para a maioria. Uma onda que chegou ao coração do trumpismo
A virada no Senado atravessou estados que os democratas nem sonhavam disputar um ano atrás. James Talarico derrotou Ken Paxton no Texas, Annie Andrews venceu na Carolina do Sul e o partido também tomou cadeiras em Kansas, Iowa, Ohio, Carolina do Norte e Maine.
Nos governos estaduais, Amy Acton derrotou Vivek Ramaswamy em Ohio e Keisha Lance Bottoms venceu na Geórgia. Em Michigan, o médico Abdul El-Sayed venceu o republicano Mike Rogers por cerca de 52% a 46% e será o primeiro senador muçulmano da história do país.
Na festa da vitória em Detroit, na madrugada desta quarta-feira, 4 de novembro, El-Sayed agradeceu aos eleitores por apostarem num candidato “improvável”. Ele manteve nas mãos democratas a cadeira deixada pelo senador Gary Peters, que não disputou a reeleição.
O Senado era o escudo de Trump O risco de impeachment agora é real.
Trump já enfrentou dois processos, mas os republicanos controlavam o Senado e isso ajudava a frear as investigações. O primeiro processo, em 2019, tratou da pressão sobre a Ucrânia para investigar Joe Biden.
O segundo, em 2021, veio depois da invasão do Capitólio por apoiadores do presidente. Nos dois casos a Câmara aprovou a acusação e o Senado absolveu.
A diferença agora é que o calendário, as testemunhas e os documentos deixam de ser controlados por aliados de Trump. A condenação exige dois terços dos senadores.
Uma maioria simples, porém, já basta para convocar audiências, aprovar intimações e tomar as decisões processuais que definem o ritmo de uma investigação. Trump podia empurrar tudo com a barriga porque tinha maioria.
Esse tempo acabou, e vai chover pedra no telhado de Trump, que é de vidro. A maioria na Câmara é suficiente para abrir o pedido de impeachment.
A maioria no Senado talvez seja ainda mais importante, porque garante que as investigações avancem sem sabotagem da própria Casa. A conta da traição
A popularidade de Trump está no chão. A pesquisa Reuters/Ipsos feita entre 29 de outubro e 2 de novembro registrou aprovação de apenas 32%, um ponto acima do recorde negativo de 31% medido em meados de outubro.
Com o presidente perto dos 30%, cada novo escândalo de corrupção vira um problema para os senadores republicanos que disputam a reeleição em 2028. O eleitor pode exigir uma traição.
Vale fazer a conta com precisão. São 100 senadores e a condenação exige 67 votos, de modo que, com a bancada democrata em pelo menos 54 cadeiras pela contagem da Associated Press, contando os dois independentes que votam com o partido, seriam necessários 13 republicanos dispostos a abandonar o presidente.
É praticamente a dúzia de traidores da conta original. Num partido que já conheceu dissidências, o número deixa de ser fantasia e passa a ser uma ameaça concreta.
Cada audiência transmitida ao vivo, cada documento revelado e cada testemunha intimada alimenta o noticiário durante meses. É esse desgaste contínuo que costuma quebrar a lealdade de parlamentares acostumados a obedecer.
Uma derrota para o bolsonarismo O resultado também é uma derrota do bolsonarismo.
A extrema direita brasileira apostou tudo na Casa Branca de Trump como fiadora internacional do seu projeto. Eduardo Bolsonaro vive no Texas desde 2025 e fez do lobby junto ao governo Trump sua principal atividade política.
Ele trabalhou abertamente pelo tarifaço contra produtos brasileiros e pelas sanções da Lei Magnitsky contra o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal. Essa aposta já tinha sofrido um golpe duro em 25 de outubro, quando Lula foi reeleito com 51,79% dos votos válidos contra 48,21% de Flávio Bolsonaro.
Agora o padrinho americano perde o Congresso, e o próprio Texas que abriga Eduardo elegeu um senador democrata. Um Trump acuado por audiências, intimações e um possível processo de impeachment terá menos tempo e menos capital político para comprar brigas em nome da família Bolsonaro.
A ponte entre o bolsonarismo e a Casa Branca ficou mais estreita. O que vem agora
A nova maioria assume o Congresso em 3 de janeiro de 2027. A partir daí, as comissões passam ao comando democrata, com poder de convocar testemunhas e investigar o governo, a família e os negócios do presidente.
Os republicanos que sobreviveram à onda vão olhar para a próxima eleição com outros olhos. Lealdade ao presidente deixou de ser garantia de mandato.
Hoje, Trump vai dormir com medo da justiça.
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