COP31: as lacunas que persistem além de 1,5°C

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Fonte da notícia: Valor Valor

A COP31, que será realizada em Antalya, na Turquia, ocorrerá em um contexto de elevada complexidade geopolítica e econômica, marcado por tensões que também estiveram presentes na COP30 em Belém. O desafio de fazer avançar a implementação climática persiste, assim como as tensões geopolíticas e econômicas que dificultam a cooperação internacional.

Ao mesmo tempo, cresce o reconhecimento de uma realidade que até poucos anos atrás era evitada no debate político: a ultrapassagem temporária do limite de 1,5°C tornou-se praticamente inevitável. O Emissions Gap Report 2026, do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), aponta que a magnitude e a duração da ultrapassagem dependerão da velocidade e da profundidade dos cortes de emissões, assim como da ampliação da remoção de CO₂ da atmosfera.

A mensagem é clara: cada fração de grau importa, assim como cada ano adicional de aquecimento. O desafio é traduzir esse conhecimento em decisões políticas e econômicas concretas.

Guarany Osório, da FGV Divulgação

As lacunas climáticas identificadas antes da COP30 continuam presentes. A primeira é a distância entre ambição e implementação.

Os atuais compromissos climáticos dos países, expressos em suas NDCs, ainda são insuficientes para colocar o mundo em uma trajetória compatível com os objetivos do Acordo de Paris. Segundo o já citado estudo do PNUMA, mesmo com a plena implementação das NDCs, o aquecimento global poderá chegar a 2,6°C neste século.

Sob as políticas atuais, a projeção é de 2,8°C. O relatório indica uma piora das projeções, associada à retirada dos Estados Unidos do Acordo de Paris e à revisão das estimativas de emissões históricas.

As novas NDCs, por sua vez, tiveram efeito desprezível sobre as projeções. Não basta somente atualizar metas nacionais: é preciso fortalecer políticas públicas, mobilizar investimentos e criar condições para que os compromissos sejam efetivamente cumpridos.

Nesse contexto, o overshoot de 1,5°C coloca um desafio adicional: limitar o pico de aquecimento e viabilizar o retorno a uma trajetória compatível com os objetivos do Acordo de Paris. A COP31 também marcará o início do segundo Balanço Global do Acordo de Paris, processo que será concluído em 2028 e deverá orientar a ambição e a direção da ação climática na próxima década.

O processo deverá considerar de forma integrada os desafios de mitigação e adaptação, incluindo os impactos irreversíveis associados à ultrapassagem de 1,5°C. A segunda lacuna diz respeito à transição energética.

O primeiro Balanço Global do Acordo de Paris estabeleceu direções importantes, incluindo a transição para longe dos combustíveis fósseis. Desde então, as negociações não impulsionaram a transformação necessária, e a produção e o consumo de combustíveis fósseis seguem acima dos níveis compatíveis com a contenção do aquecimento global.

Dados recentes da Agência Internacional de Energia mostram que a demanda global por petróleo, gás natural e carvão continuou crescendo em 2025, embora em ritmo mais lento que no ano anterior, apesar da expansão das fontes renováveis. O Production Gap Report 2025 também mostra que os governos ainda planejam produzir, em 2030, mais que o dobro do volume de combustíveis fósseis compatível com uma trajetória de 1,5°C.

O Balanço Global aponta para a transição energética, enquanto os planejamentos nacionais continuam prevendo uma expansão incompatível com essa direção. A COP31 deverá testar a disposição dos países para enfrentar essa contradição.

A transição energética exige, além da expansão das renováveis, decisões sobre infraestrutura, financiamento, segurança energética e investimentos em carvão, petróleo e gás. Sem maior coerência entre essas decisões e os compromissos climáticos, os avanços diplomáticos terão alcance limitado.

Guilherme Lefèvre é professor e gestor do programa brasileiro GHG Protocol do FGVces Divulgação

Essa dificuldade de traduzir a transição energética em decisões negociadas ficou evidente na COP30, em Belém. A proposta de incorporar mapas do caminho à decisão formal da conferência não obteve consenso.

Ao final, a Presidência brasileira anunciou que elaboraria dois mapas por iniciativa própria, um para a transição para longe dos combustíveis fósseis e outro para deter e reverter o desmatamento. Na conferência de Santa Marta, na Colômbia, realizada fora das negociações formais da UNFCCC e com a participação de 57 países e atores não estatais, foi criada uma frente de trabalho para apoiar roteiros nacionais e regionais de transição.

Cerca de 100 das 150 NDCs atualizadas mencionam o afastamento dos combustíveis fósseis, mas a ambição global segue insuficiente, como mostra o Emissions Gap Report 2026. Apresentados em 3 de novembro, os mapas são iniciativas voluntárias da Presidência brasileira, não negociadas formalmente, e buscam dar continuidade ao diálogo sobre a transição entre as próximas presidências das COPs.

A terceira lacuna é o financiamento climático. Embora os países tenham avançado na definição do Novo Objetivo Coletivo Quantificado para o financiamento climático e na construção de um roteiro de mobilização financeira de longo prazo, permanece a questão central: como transformar metas financeiras em recursos efetivamente disponíveis para implementação?

O debate envolve não apenas o volume mobilizado, mas também a origem dos recursos, as condições de acesso e a distribuição dos custos entre países desenvolvidos e em desenvolvimento. O desafio não é simplesmente mobilizar mais capital, mas assegurar previsibilidade e condições financeiras compatíveis com as necessidades dos países em desenvolvimento.

Sem isso, os compromissos financeiros correm o risco de permanecer distantes das decisões concretas de investimento. Em Bonn, em junho, quase nenhum país desenvolvido havia anunciado novos aportes para 2026 em diante, em um cenário de cortes na ajuda externa de grandes doadores.

A dificuldade de transformar compromissos em recursos concretos também aparece na meta acordada em Belém de triplicar o financiamento para adaptação até 2035. Nas negociações de Bonn, em junho de 2026, os países não chegaram a um entendimento sobre sua operacionalização, deixando para Antalya questões relativas a parâmetros, responsabilidades e mecanismos de acompanhamento.

A lacuna de adaptação evidencia essa distância. Segundo o Adaptation Gap Report 2026, do PNUMA, os países em desenvolvimento necessitarão de cerca de US$ 305 bilhões anuais até 2035, enquanto os fluxos públicos internacionais de adaptação somaram US$ 28,2 bilhões a US$ 31,7 bilhões em 2024.

O financiamento privado mobilizado com apoio de recursos públicos dobrou desde 2019, chegando a US$ 3 bilhões em 2024, mas se destina em grande parte às necessidades do próprio setor privado. Mesmo triplicados até 2035, os fluxos públicos cobririam apenas 20% a 29% das necessidades estimadas.

Os mercados de carbono também estarão em pauta na COP31, agora com foco na implementação do Artigo 6 do Acordo de Paris. As inconsistências identificadas nas primeiras revisões técnicas de transações entre países, relacionadas à contabilização dos resultados de mitigação e à sua vinculação às metas climáticas nacionais, mostram que regras acordadas não garantem, por si sós, resultados efetivos.

Espera-se que a COP31 avance na transparência e na contabilização das transações internacionais, criando condições para que esses mecanismos contribuam efetivamente para a mitigação global, sem dupla contagem ou substituição dos esforços domésticos. Nesta COP estará em discussão uma proposta para ampliar o uso da eletricidade no consumo final global de energia.

A presidência turca apresentou um texto de compromisso que prevê elevar a participação da eletricidade para 35% até 2035. Atualmente, esse percentual é de cerca de 23%, segundo a Agência Internacional de Energia (AIE).

A meta deverá ser debatida ao longo das negociações da conferência e, nesse sentido, essa COP tem sido batizada por alguns como a “COP da Eletrificação”. A COP30 também procurou ampliar sua Agenda de Ação, reforçando a participação de governos subnacionais, empresas, ONGs, instituições financeiras e outros atores na implementação climática.

A iniciativa reconhece que a execução dos compromissos não depende apenas das negociações entre Estados. Embora os governos sejam centrais na definição dos marcos institucionais e regulatórios, a efetividade da implementação exige alinhar decisões públicas e privadas aos objetivos da transição climática.

Embora essa ampliação da Agenda de Ação represente um caminho de evolução dos processos multilaterais, a coordenação entre esses atores se torna ainda mais difícil em um contexto de fragmentação geopolítica e de pressões concorrentes sobre prioridades econômicas e energéticas, frequentemente dissociadas da transição climática.

Por fim, permanece uma lacuna relacionada à própria governança climática internacional. O regime multilateral continua indispensável para coordenar respostas a um problema global, mas sua credibilidade depende da capacidade de converter compromissos em resultados.

Após sucessivas conferências, a implementação segue no centro do debate, o que evidencia que, mesmo quando consensos são alcançados, sua tradução em investimentos, políticas públicas e transformações econômicas continua ocorrendo em ritmo inferior ao exigido pela ciência climática.

Em última análise, o desafio da COP31 será demonstrar que a cooperação internacional pode contribuir para alterar trajetórias de investimento, produção e emissões em um mundo cada vez mais fragmentado. Guarany Osório é professor e Coordenador de programa de pesquisa do Centro de Estudos em Sustentabilidade (FGVces) da FGV EAESP.

Doutor em Administração Pública e Governo pela FGV EAESP. Mestre em Direito, na área de Ciências Jurídico-Ambientais, pela Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa.

Guilherme Lefèvre é pesquisador e Coordenador de programa de pesquisa do FGVces. Doutorando em Ciência Ambiental pela Universidade de São Paulo (USP), Mestre pela mesma instituição.

Publicação Original Valor valor.globo.com
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