Muito antes de existir uma indústria de suplementos alimentares com o nome Hilê, a história da empresa já passava pelas folhas de erva-mate. Ainda jovem, em Xanxerê, no oeste de Santa Catarina, Sandro Botta, hoje CEO da companhia, dividia a rotina entre os estudos e o trabalho na ervateira da família, onde teve contato direto com produção, operação e gestão.
Essa vivência, registrada no histórico biográfico do empresário como parte de sua formação, ajuda a entender por que o chá ocupa um lugar singular na trajetória da Hilê, que pertence ao Grupo Botta e está há 28 anos no mercado, segundo a empresa. De acordo com Sandro Botta, o período na ervateira foi mais do que uma ocupação de juventude.
Foi nesse ambiente que ele começou a absorver noções que mais tarde se mostrariam decisivas para a indústria, como a disciplina de uma rotina produtiva, o senso de responsabilidade, a familiaridade com a matéria-prima e a percepção sobre como um negócio se sustenta no dia a dia. Na leitura do empresário, parte do conhecimento aplicado hoje na fábrica foi construída ali, antes mesmo de surgir qualquer plano de fundar uma companhia própria.
Do empacotamento manual à primeira máquina Já adulto, Sandro deu os primeiros passos no setor industrial ao lado do irmão, Elves Botta.
O começo guardava pouca semelhança com a estrutura atual, já que os dois empacotavam chá-mate manualmente, em uma operação de pequeno porte que dependia sobretudo do esforço dos próprios irmãos. A mudança desse estágio inicial passou por um personagem da geração anterior.
Foi com o apoio do avô, Domingos Marca, que assumiu o papel de avalista do financiamento, que os irmãos conseguiram adquirir a primeira máquina industrial. O episódio dá forma concreta à expressão "empresa familiar", pois uma geração colocou o próprio nome como garantia para viabilizar o projeto da seguinte.
Quando a operação ganha outra escala A chegada do equipamento significou mais do que a compra de uma máquina.
Com ela, a produção manual começou a ceder espaço à mecanização, e Sandro passou a cultivar um hábito que, conforme sua trajetória institucional, acompanharia as décadas seguintes: reinvestir os resultados no crescimento da própria operação. Aquilo que começou com duas máquinas de chá e uma plastificadora deu origem, com o tempo, a uma estrutura industrial de proporções muito maiores.
Segundo o CEO, os primeiros anos com o chá-mate funcionaram como uma escola de gestão industrial. Cada etapa superada ampliava a percepção de que o pequeno negócio poderia ir além do empacotamento e se converter em uma indústria com processos e estrutura próprios.
O nascimento da Hilê A nova fase teve início quando Sandro encontrou um antigo prédio industrial em Xanxerê e decidiu instalar ali a operação que daria origem à Hilê.
A estrutura dos primeiros tempos era enxuta, com poucas máquinas e um escritório improvisado ao lado da linha de produção. O empresário atuava diretamente no chão de fábrica, desenvolvia fórmulas e buscava formação técnica, enquanto Gilvana participava da gestão administrativa e cuidava das entregas.
À medida que a empresa cresceu, novas tecnologias, processos e categorias foram incorporados. Para Sandro Botta, essa expansão resulta de reinvestimentos sucessivos em estrutura, pessoas, tecnologia e inovação, uma lógica que remonta aos tempos do chá-mate embalado à mão.
A produção que nasceu com chás evoluiu para a fabricação terceirizada de suplementos alimentares, com encapsulados, solúveis, gomas mastigáveis, proteínas, nutracêuticos e farinhas, entre outras linhas. A dimensão dessa transformação aparece nos números informados pela companhia.
Instalada em uma área de 10 mil metros quadrados, a Hilê reúne mais de 2 mil itens em seu portfólio produtivo e atende mais de 350 marcas no Brasil e no exterior. A capacidade diária ultrapassa 449 mil sachês de chás, 11 mil potes de produtos solúveis e 61 mil potes de cápsulas oleosas, em uma operação que segue as Boas Práticas de Fabricação (BPF) e as exigências da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
Um elo entre gerações Mesmo com a diversificação, os chás continuam presentes no universo empresarial construído pela família.
A categoria que marcou a formação profissional de Sandro e os primeiros movimentos de sua trajetória industrial segue conectada aos negócios décadas depois, inclusive por meio da CháMais, marca que integra o ecossistema atual ligado à família Botta. Hoje, uma nova geração da família participa dos negócios, enquanto a atividade, iniciada de forma artesanal, alcançou escala industrial.
Na visão de Sandro Botta, a escala, a tecnologia e a variedade de produtos mudaram ao longo do tempo, mas há uma linha contínua que liga a ervateira da família, os primeiros pacotes de chá-mate e a indústria erguida em Xanxerê: o conhecimento acumulado e transmitido entre gerações.
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O Globo