A derrota de Flávio Bolsonaro (PL) para Lula da Silva (PT) na eleição presidencial do último domingo, 25, pode ser considerada o maior banho de água fria para o bolsonarismo desde a prisão de Jair Messias. Isso porque, se existia uma certeza incontestável neste mundo para os bolsonaristas é que o filho “01” de Bolsonaro seria eleito o novo presidente da República.
Aliados e “ex-futuros ministros” já se gabavam do que fariam no governo, apaixonados do mercado já comemoravam o que consideravam ser uma “nova era” da economia e o próprio Flávio, com suas dancinhas e euforia, se comportava como chefe do Executivo federal. Até que veio a noite de 25 de outubro.
Lula começou na frente, Flávio virou – levando os bolsonaristas à loucura -, Lula retomou a liderança novamente e não largou mais. Estava eleito pela quarta vez, com mais de 64 milhões de votos, Luiz Inácio Lula da Silva – obtendo um feito histórico ao se tornar o único presidente da história do Brasil a ficar atrás no primeiro turno e conquistar uma virada vitoriosa no segundo.
As chances eram reais, os sinais passaram a surgir aos montes (a mobilização inédita da esquerda nas redes sociais e nas ruas, a captação de direitistas anti-bolsonaristas, a diferença mínima entre Lula e Flávio nas pesquisas), mas o candidato do PL, cercado de bajuladores e apaixonados ideológicos, tais quais ele mesmo, se recusou a ver o cenário real e deixou-se inebriar pela “amostra grátis” de poder obtida no 1º turno.
Pablo Marçal e Flávio Bolsonaro | Foto: Reprodução No entanto, há uma figura em particular, curiosamente, um goiano, que pode ser considerado o coveiro-mór da candidatura de Flávio.
Esse é Pablo Marçal, coach e palestrante que há anos vem ganhado notoriedade por sua personalidade, digamos, única. Antes da entrada definitiva de Marçal na campanha de Flávio, o filho de Jair vinha, ainda, tentando fazer colar o rótulo de “moderado”, um filho de Bolsonaro menos ideológico, mais equilibrado e respeitoso.
A postura ensaiada, contudo, não durou uma fração. Pablo Marçal fez Flávio acreditar piamente que o que realmente arrebatava o eleitorado era uma postura agressiva, de confronto, era ridicularizar seu oponente em público até o ponto em que ele perdesse as estribeiras.
O primeiro debate direto entre Flávio e Lula, realizado pela Band, foi a prova mais viva de que o candidato do PL havia comprado com louvor os “cursos de retórica” de Marçal. Deboche, ataques pessoais, ares de arrogância e respostas evasivas marcaram a participação de Flávio no debate, seguindo à risca a cartilha Marçal.
Imagens circularam na época mostrando Pablo em êxtase, na plateia, assistindo ao candidato ser uma cópia sua na arena. Mas o que esqueceram de combinar com os russos é que a bolha de Marçal não é o povo.
Os discípulos do coach podem vibrar com a personalidade arrogante, egocêntrica e provocadora do goiano, mas o eleitorado médio, sobretudo o feminino, reprova com contundência um perfil assim. Não deu outra.
A arrogância precedeu a queda. O entorno de Flávio percebeu os danos marçalistas e tentaram afastar Flávio do coach, mas já era tarde.
A imagem de “bom moço moderado” do filho de Bolsonaro já havia ido para o espaço. Mas se o goiano Pablo tivesse olhado para seu próprio estado e analisado exemplos de como um projeto político, já com tendências de fracasso, pode ter o processo acelerado por uma personalidade interna beligerante e volátil, teria se afastado por conta própria de Flávio se quisesse, de fato, ajudar o amigo.
Marconi Perillo e Felipe Cecílio | Foto: Reprodução Desde o início da campanha, o projeto de Marconi Perillo, então candidato ao governo de Goiás, enfrentou praticamente um episódio de caos por semana.
E boa parte deles tinha algum tipo de ligação com o recente filiado do PSDB, Felipe Cecílio. Marconi já amargava com uma rejeição absoluta em todas as pesquisas de intenção de voto.
E Felipe, portador do fogo e da gasolina, aparentemente fazia questão de agravar a situação. Candidato a deputado, o neto de Mauro Miranda entrava em discussões com outros candidatos em feiras, gravava vídeos arrancando material de campanha de concorrentes, fazia ataques diretos a colegas de partido, rompia com aliados e trocava ofensas com nomes da política tradicional e toda sorte mais de confusões e turbulências que era capaz de protagonizar no período da campanha.
E Marconi, em vez de desvincular sua imagem enquanto ainda era tempo, dobrava a aposta e reforçava seu apoio a Felipe. Como com Flávio, deu no que deu.
Marconi não só foi derrotado, como perdeu de forma acachapante (o tucano ficou em quarto lugar na disputa ao Palácio das Esmeraldas, atrás do candidato do PT). Por óbvio, Felipe Cecílio não é responsável pela derrota de Marconi assim como Pablo Marçal não tem que prestar contas da derrota de Flávio.
Cada um é responsável por seu cada qual. Mas que essas duas figuras mudaram o ritmo da derrocada de 1.5x para 2x de seus aliados políticos, isso é público e notório.
Há apenas uma lição a ser aprendida: a política é campo de batalha. Mas combater o bom combate é preciso, e se aliar a quem tem esse conhecimento, ainda mais.
Como diz a citação que circula a esmo na internet, saber quem te acompanha nas trincheiras importa mais do que a própria guerra. Leia também: Marçal promete “tocar o terror” no STF e Eduardo Bolsonaro é cotado para o Itamaraty em eventual governo Flávio
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