O Ministério da Energia do Togo assinou um memorando de entendimento com a Rosatom, a estatal russa de energia nuclear, para avaliar a implantação de projetos nucleares no país. A assinatura ocorreu durante a cúpula Rússia-África, em Moscou, e o documento também prevê usos da tecnologia fora da geração de eletricidade, na saúde e na agricultura, além de formação de mão de obra especializada.
O memorando não compra reator nem define obra. Ele abre uma avaliação conjunta, sem valor, prazo ou local divulgados.
O texto tem uma cláusula pouco comum nesse tipo de acordo. A Rosatom informa que o memorando considera medidas para “promover atitudes públicas positivas em relação à energia nuclear” no Togo.
Um memorando não é uma usina A distância entre o que foi assinado em Moscou e a primeira carga de combustível em solo togolês é medida em anos e em instituições que o país ainda não tem.
A Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) calcula de 10 a 15 anos entre a decisão política de produzir eletricidade nuclear e a entrada em operação do primeiro reator. Nesse intervalo, um país precisa criar órgão regulador, lei de responsabilidade civil, plano de emergência radiológica e um corpo técnico capaz de fiscalizar o fornecedor.
Nada disso existe hoje no Togo. O país tem cerca de 9 milhões de habitantes e uma rede elétrica curta.
Boa parte da eletricidade consumida vem de Gana e da Nigéria, e a geração própria depende de hidrelétricas sujeitas a estiagem e de parques solares recentes, como o de Blitta, no centro do território. Para um sistema desse tamanho, um reator de grande porte não cabe.
Cabe, no discurso da Rosatom, outro produto. O diretor-geral da estatal, Alexey Likhachev, citou unidades flutuantes.
“Uma área promissora seria a implantação de unidades de energia flutuantes para fornecer eletricidade confiável e com baixa emissão de carbono”, afirmou. A Rússia opera desde 2020 a primeira usina nuclear flutuante do mundo, o Akademik Lomonosov, ancorada em Pevek, no extremo oriente do país, com cerca de 70 megawatts de capacidade.
Moscou multiplica acordos e o Egito é a exceção virada obra Na última década, a Rosatom acumulou memorandos e acordos de cooperação com governos africanos, da Nigéria ao Mali.
Apenas um deles chegou ao cimento. Em El Dabaa, no litoral mediterrâneo egípcio, quatro reatores VVER-1200 estão em construção com financiamento russo que cobre a maior parte do custo.
É o único projeto nuclear em obra no continente. Burquina Fasso e Mali assinaram roteiros parecidos com a estatal russa e nenhum saiu da fase de estudo.
O padrão se repete porque a barreira não está na tecnologia disponível, e sim no dinheiro e na capacidade estatal de licenciar e operar. O crédito internacional fecha a porta.
Os bancos multilaterais que financiam infraestrutura na África, com o Banco Mundial à frente, não emprestam para usinas nucleares. Isso empurra países como o Togo para o modelo de financiamento estatal oferecido por Moscou, em que a dívida é paga em décadas de venda de eletricidade.
A África que chega com proposta, não com pedido O chefe do governo togolês já havia colocado a questão nesses termos antes da cúpula.
Em setembro, no Simpósio Nuclear Mundial da Associação Nuclear Mundial, em Londres, Faure Essozimna Gnassingbe disse que o continente não quer receber tecnologia, quer negociar. “A África não está pedindo tecnologia nuclear de graça.
A África está oferecendo uma parceria. A África está oferecendo um mercado”, afirmou o presidente do Conselho de Ministros do Togo, cargo de chefe de governo criado na reforma constitucional de 2024.
No mesmo discurso, ele apontou os pequenos reatores modulares e os microrreatores como as tecnologias mais adequadas ao continente. A aposta tem lastro num mercado real, o de países que hoje importam energia e pagam por ela em divisas e em vulnerabilidade de abastecimento.
O que o acordo ainda não diz Três perguntas seguem abertas.
Qual será o modelo de financiamento, já que o Togo não tem caixa para bancar sozinho uma central nuclear, quem operará a instalação e por quantos anos, e se a cláusula de aceitação pública valerá como compromisso de transparência ou como tarefa de comunicação. A comparação com o Brasil incomoda.
O país tem uma das maiores reservas de urânio do mundo e arrasta há décadas a conclusão de Angra 3, enquanto um Estado de 9 milhões de habitantes coloca no papel, com a maior exportadora nuclear do planeta, os termos de sua própria entrada na tecnologia. O memorando togolês não garante um único megawatt.
Garante uma posição na fila, e é essa fila que o governo de Lomé disputa agora. Se a Rosatom apresentará projeto, preço e cronograma nos próximos meses, nenhuma das duas partes informou.
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