Escrevo esta coluna logo após as eleições. Escritores têm a mania de ficarem fabulando em torno de um tema com antecedência, o que nem sempre dá certo.
Muitas vezes, quando vamos escrever, o tema já desapareceu ou perdemos o interesse por ele. Se é sobre algo real, a realidade pode, simplesmente, já ter se tornado irreal.
Nas oscilações entre medo e expectativa das três semanas que separaram o primeiro do segundo turno, imaginei diferentes textos para este momento. Se a extrema direita ganhasse, eu poderia, por exemplo, falar de como o fascismo odeia a literatura e as artes, dos livros proibidos no nazismo, dos livros queimados, das obras de arte condenadas por Hitler.
Num comentário a um post meu numa rede social, uma bolsonarista xingou Lula de analfabeto. Fiquei pensando em escrever como Lula se tornou leitor de ficção na última década e como tem acompanhado a literatura brasileira contemporânea, e iria citar autores como Socorro Acioli e Itamar Vieira Junior.
Mas aí surgem umas velhinhas maravilhosas de quase cem anos saindo de casa no interior do Brasil para irem votar. Barcos atravessando rios amazonenses para indígenas votarem.
Pessoas atravessando ruas alagadas. Pessoas com deficiências.
Netos levando seus avós. Um ajudando o outro.
Um país inteiro se mobilizando contra o que nos parecia impossível, contra uma intervenção externa, contra as big techs, contra uma leitura tão enviesada do mundo. Memes maravilhosos que me fazem rir e chorar ao mesmo tempo.
E penso: sobre que livro vou escrever? Há dois arquétipos de escritores muito difundidos: o da biblioteca e o da vida.
É claro que isso é meio ridículo, porque todo escritor é da vida e da biblioteca. Mas tem aquele cuja imaginação mergulha e viaja mais pelos livros e aquele que se alimenta mais de suas viagens aventuras.
Os dois exemplos mais citados talvez sejam Borges e Hemingway. Eles próprios fortaleceram esses arquétipos: Borges com sua biblioteca de Babel e sua biblioteca infinita; Hemingway, com sua imagem de aventureiro, caçador e correspondente de guerra.
Será que momentos históricos como o do dia 25 de outubro de 2026 - quando, pela primeira vez na redemocratização do Brasil, um candidato que perdeu no primeiro turno venceu no segundo; quando pela primeira vez no Brasil, um candidato se tornou presidente pela quarta vez - rendem tanto ou mais livros do que as bibliotecas? Que livros teremos no futuro? Quem escreverá os romances sobre esse dia histórico? As crianças que dormiram enquanto os pais assistiam à contagem das urnas? As crianças que foram para a rua no colo dos tios? As crianças que viram os pais xingarem o resultado das urnas e dizerem que foi golpe e que no futuro se revoltarão contra eles? Ou as crianças que liam no quarto reclamando de terem nascido de adultos festivos que bebem e gritam na sala em torno de uma televisão?
Esperem, ainda vou encontrar um livro sobre o qual escrever hoje. Afinal, colunistas de política, este jornal tem muitos.
Eu não seria a melhor pessoa para analisar o resultado das eleições. Tampouco estou aqui para narrar a emoção de ver, ainda que de longe, pelas telinhas, as ruas enchendo de gente, o Brasil defendendo a sua soberania e a sua democracia.
Nem para remeter às minhas memórias de infância, às ruas lotadas de um país pedindo pelas Diretas Já; aos showmícios de 1984 - eu sendo levada pelos meus pais para gritar o que continuei gritando nas décadas seguintes -; aos históricos debates de 1989, que eu assistia, entre dormindo e acordada (quem ainda se lembra de “Meu nome é Enéas”? Mário Covas? Brizola? Aquela bancada cheíssima conduzida por Marília Gabriela...).
Ou, ainda, as memórias da minha juventude, de uma Cinelândia tomada de gente em 2002, a emoção de pela primeira vez eleger um presidente. Lamento não ter estado nas ruas brasileiras com meus filhos este ano.
Fico pensando que os privei de um dia poderem dizer que estiveram num dos grandes marcos históricos do século XXI. Por outro lado, talvez os tenha livrado de se tornarem escritores, embora essa possibilidade nunca esteja descartada.
Talvez um dia eles escrevam contra a mãe, que os impediu de viverem tal momento. Ou, melhor ainda: inventem personagens que lá estiveram.
Ah, agora me lembrei de uma das ideias que me rondavam antes das eleições: se a extrema direita ganhasse, eu iria escrever sobre o poder da imaginação de inventar novos mundos. Outros escritos, o nome deste espaço.
Ao mesmo tempo, a gente costuma dizer que no Brasil a realidade supera a imaginação. Que é difícil ser escritor aqui porque quando você vai inventar uma coisa mirabolante, você descobre que ela já existe.
Também podemos dizer, pelo contrário, que é fácil, porque afinal você não precisa inventar nada: basta estar atento à realidade. E o que o Brasil inventou para combater a ameaça do ódio representado pela extrema direita foi dessas realidades que é difícil a imaginação superar.
Experimenta colocar num romance um senhor de oitenta anos que já foi presidente três vezes e um maluco que fica dando ordens e saltando, comandando um exército virtual, mandando colocar likes, partilhar hashtags e fazer comentários nas redes sociais. Agora escreve que eles vão lutar contra as ameaças de um presidente americano que quer controlar o planeta e destruir a Amazônia, contra a Meta e os milicianos, sem pegar numa arma.
Não esquece de dizer que eles vão ocupar as ruas com hits das décadas de oitenta. E no fim diz que eles venceram, fizeram a maior virada eleitoral da história do Brasil.
Ou você escreve melhor do que Machado de Assis ou vai ser difícil conquistar o leitor. Mas aí o Brasil vai lá e faz.
E milhões de pessoas se debulham em lágrimas. Sem acreditar no que estão vendo, mas acreditando profundamente no que estão vivendo.
Que o povo possa sentir que está tomando as ruas, dos estudantes às velhinhas de 107 anos, é o livro mais bonito que em 2026 podemos, juntos, escrever. Tatiana Salem Levy, escritora e pesquisadora da Universidade Nova de Lisboa, escreve neste espaço quinzenalmenteE-mail: tatianalevy@gmail.com
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