O governador reeleito de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), intensificou as conversas com aliados para formar o secretariado de seu próximo mandato, em meio ao desafio de equilibrar o espaço para a base política que ajudou a pavimentar a vitória no primeiro turno da eleição e a preocupação com resultados da gestão.
Cotado para a eleição à Presidência em 2030, Tarcísio indicou a aliados que deve manter o perfil técnico do secretariado, mas também acomodar quadros de partidos que ganharam espaço em sua coligação, como o MDB. O governador foi aconselhado a montar uma equipe de "ministeriáveis", com figuras que conciliem visão política com experiência administrativa.
Tarcísio agendou uma série de conversas para tentar encaminhar as definições até o fim do mês. Ele confirmou, em entrevista ao jornal O Estado de S.
Paulo, que manterá os titulares das pastas de Agricultura, Geraldo Melo Filho, e Cultura, Marília Marton. Procurado via assessoria de imprensa do governo, ele não respondeu sobre outras definições ou eventuais trocas.
As discussões sobre secretariado ficaram paralisadas ao longo do segundo turno, enquanto Tarcísio se dedicava à campanha nacional de Flávio Bolsonaro (PL), que acabou derrotado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Um dos motivos para a espera era a possibilidade de que, se eleito, Flávio incorporasse nomes da gestão paulista à máquina federal.
Um dos aliados que trataram das escolhas de secretários com Tarcísio foi o prefeito da capital, Ricardo Nunes (MDB), que aprofundou sua aliança com o governador com seu envolvimento na campanha estadual e também na candidatura de Flávio. Quadros da prefeitura estão entre os nomes ventilados para a equipe que o governador deseja para o próximo mandato.
No Palácio dos Bandeirantes, auxiliares de Tarcísio consideram forte a probabilidade da permanência de Roberto Carneiro na Secretaria de Governo e Relações Institucionais. Homem de confiança do governador e do presidente nacional do Republicanos, Marcos Pereira, Carneiro é considerado figura-chave para as relações com prefeitos e deputados estaduais.
Outra situação esperada, no entorno do governador, é o deslocamento de Natália Resende, hoje à frente da Secretária de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística, para uma pasta de maior protagonismo da gestão. A hipótese mais forte é que ela ocupe um cargo no palácio, como a Casa Civil.
Na campanha, Natália atuou como coordenadora do plano de governo. Logo após obter 62,65% dos votos no primeiro turno, derrotando o ex-ministro Fernando Haddad (PT), que teve 36,42%, Tarcísio declarou que faria "algumas mexidas", mas que "muitos secretários" iriam permanecer.
Sempre que questionados, nomes cotados para integrar a gestão ou mudar de posto respondem que a decisão cabe ao governador. Um ponto considerado já superado é o eventual retorno de Gilberto Kassab, que até o início do período eleitoral ocupava a Secretaria de Governo.
Presidente nacional do PSD, Kassab acumulou desgastes com Tarcísio, mas manteve o apoio do partido à reeleição do chefe do Executivo estadual. Com o estremecimento, o PSD deve perder espaço no novo mandato.
O governador trabalha com um cenário de substituição de Eleuses Paiva (PSD) na Secretaria da Saúde. O partido de Kassab pode continuar sendo representado na gestão por Guilherme Afif Domingos, secretário de Projetos Estratégicos.
No entanto, a eventual manutenção de Afif é vista como escolha pessoal de Tarcísio, sem vínculo com cota partidária. Lideranças que caminharam com Tarcísio na campanha também esperam uma posição a respeito do espaço para o Novo.
O partido, primeiro a declarar apoio à reeleição, retirou a candidatura de Ricardo Salles ao Senado, na semana do primeiro turno, em nome da unificação da direita em torno das candidaturas de Guilherme Derrite (PP) e André do Prado (PL). Com a vitória dos dois candidatos a senador da chapa de Tarcísio, a expectativa é que o Novo possa ser contemplado na divisão de espaços para a próxima gestão.
Salles nega que tenha existido acordo por cargo para ele ou correligionários. No entanto, o deputado federal é uma das pessoas que devem sentar para conversar com o governador nos próximos dias.
As pressões externas sobre Tarcísio vão além dos partidos. Nesta quarta-feira, o Sindicato dos Delegados de Polícia do Estado de São Paulo (Sindpesp) divulgou nota cobrando do governador a escolha de um titular para a Secretaria da Segurança Pública que alie conhecimento técnico com vivência no combate à criminalidade no Estado.
"É imprescindível que a pasta tenha à frente profissional que seja de São Paulo e que detenha amplo conhecimento, inclusive técnico, das demandas das forças de segurança, bem como das minúcias e da dinâmica da violência paulista, para o eficaz combate à criminalidade e o pleno atendimento dos anseios da população", afirmou a entidade, em nota.
A Segurança Pública é chefiada pelo delegado Nico Gonçalves, que sucedeu Derrite, em dezembro do ano passado. O governador vem reafirmando que uma de suas prioridades, nos próximos quatro anos, será a redução constante dos indicadores de criminalidade e violência.
O novo mandato é avaliado, por entusiastas de uma candidatura presidencial de Tarcísio, como uma espécie de "vitrine" para um projeto nacional. Ao mesmo tempo, ele vem insistindo no discurso de que o reconhecimento do governo pelos eleitores depende dos resultados concretos que a gestão for capaz de entregar, para além de preferências ideológicas.
Aliança com bolsonarismo Tarcísio, que na entrevista ao jornal O Estado de S.
Paulo admitiu a possibilidade de concorrer à Presidência caso "termine bem" o segundo mandato, também sofre cobranças de lideranças aliadas no bolsonarismo, embora a tendência seja, assim como no atual mandato, evitar abrir espaço para figuras desse campo que destoem do perfil técnico almejado por ele.
Na primeira eleição, quando chegou ao Bandeirantes após ser escolhido pelo então presidente Jair Bolsonaro para a disputa em São Paulo, Tarcísio evitou a presença de integrantes da ala ideológica, contrariando grupos como o do ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro. O elo com o bolsonarismo será uma das chaves para o futuro político do governador, na avaliação de aliados e analistas.
A leitura é que a concretização de uma candidatura presidencial envolve um distanciamento da família de seu padrinho político, mas isso deve exigir uma engenharia política habilidosa, que inclui evitar o rótulo de "traidor". Tarcísio sofreu críticas indiretas de núcleos do bolsonarismo desde que a saída de Flávio do Brasil o colocou como um nome natural da oposição para a corrida ao Palácio do Planalto, plano que não se concretizou no pleito deste ano, a despeito da mobilização de setores da direita, do Centrão e do empresariado.
Nos Estados Unidos, onde Eduardo ganhou a companhia de Flávio após o senador fugir do Brasil diante da derrota no dia 25, o sentimento é de resistência às especulações sobre uma candidatura presidencial de Tarcísio. Um interlocutor dos irmãos, ouvido sob condição de anonimato, disse que a ideia é tentar manter o capital político com a família.
Diferentemente de Flávio, Tarcísio reconheceu a vitória de Lula e não contestou o resultado das urnas. O governador publicou um vídeo, dois dias após a votação, em que repetiu seis vezes a expressão "a eleição passou" e conclamou a direita a caminhar unida na oposição ao governo federal, com atuação "vigilante" e esforços em prol de um "projeto de país".
Valor