Quem trabalha em grandes empresas talvez já tenha ouvido a diretoria dizer que a casa está na linha de frente da inteligência artificial. Mas, porém, todavia, contudo… Às vezes tem a impressão de que, no dia a dia, a coisa não é bem assim.
Se é seu caso, você não está só. Mesmo.
É o que mostra o relatório AI Reality Report, divulgado hoje: 79,6% dos executivos brasileiros ouvidos para o estudo consideram que a empresa em que trabalham se apresenta publicamente como mais madura em IA do que realmente é. Esse é um dos muitos dados interessantes da pesquisa encabeçada pela Avanade, empresa global de consultoria e serviços de tecnologia, que incumbiu a agência de pesquisa Vanson Bourne de detectar a quantas anda (de verdade) o uso corporativo dessa tecnologia tão rodeada de buzz.
“Vejo esses números menos como uma discussão sobre discurso e mais como um chamado para transformar ambição em impacto comprovável”, diz Adriano Picchi Neves, presidente da Avanade Brasil, referindo-se ao gap entre a imagem que muitas empresas têm de si e o que efetivamente conseguem alcançar.
Continua após a publicidade O AI Reality Report ouviu tomadores de decisão de grandes empresas, que faturam anualmente mais de US$ 500 milhões.
Foram entrevistados 3.600 profissionais, 230 deles no Brasil. Outro aspecto interessante tem a ver com a ideia de repensar processos.
É comum a gente ouvir dizer que não basta jogar uma camada de IA por cima de fluxos de trabalho antigos, porém apenas 18% dos participantes ao redor do mundo dizem ter remodelado de fato a maneira como suas equipes operam em torno da tecnologia. Por outro lado, 77% dos entrevistados descrevem suas equipes como estabelecidas, avançadas ou AI-first.
Entre os brasileiros entrevistados, a IA é vista com bons olhos: 67% relatam melhorias significativas ou transformacionais na produtividade dos colaboradores por causa dela, contra 59% na média global. “O Brasil mostra sinais muito positivos de geração de valor com IA”, afirma Neves.
O próprio executivo alerta, porém, que “existe uma distância entre adotar IA e realmente transformar o negócio”. Continua após a publicidade
O que conta como sucesso no uso da IA, afinal? Sempre digo nas minhas aulas e cursos que o primeiro contato das pessoas com uma IA tem um quê de mágica.
É empolgante ver nascer, em instantes, um relatório que antes levaria semanas, conheço bem a sensação. Acontece que a conta precisa incluir o que vem depois, como conferir os dados, corrigir informações e ajustar o material ao que você realmente precisava.
“Não basta implantar ferramentas ou gerar percepção de inovação”, diz Neves. É a transição da paquera inicial para a convivência cotidiana, e quanto mais a gente usa os modelos, mais consegue enxergar com clareza o que conseguem de fato entregar, bem como lidar com suas limitações.
“A verdadeira maturidade aparece quando a IA transforma a forma como decisões são tomadas, como o trabalho acontece e como o negócio cria valor.” Continua após a publicidade
Talvez essa diferença ajude a entender outro resultado do estudo. Para 42,6% dos gestores brasileiros, projetos de IA são frequentemente classificados como bem-sucedidos mesmo quando entregam pouco valor para o negócio ou quando seus resultados não foram medidos.
Parte da dificuldade pode estar na falta da conta. No Brasil, 63,9% das organizações ainda não calcularam formalmente o retorno financeiro da IA nem tiveram os números revisados pela área financeira ou por conselhos executivos.
O que, deixo aqui como sugestão para thought leaders que lerem este texto, representa uma oportunidade bacana para pesquisas futuras que eu adoraria noticiar. Continua após a publicidade
A equipe precisa saber usar. Os líderes, também
Mencionar potencial e limitações da IA traz para a conversa a proficiência (ou falta de) do profissional do lado de cá da tela. No Brasil, 44,8% dos gestores relatam que funcionários usam rotineiramente respostas de IA sem verificar se estão corretas, um número que acho alto e preocupante.
Sinal de que não alertamos as pessoas com o devido grau de seriedade do quão temerária é essa conduta. Já 33,5% reconhecem o uso disseminado de ferramentas que não receberam aprovação da área de tecnologia ou dos responsáveis pelas regras internas, a tão comentada Shadow AI.
Para o funcionário, pode ser apenas um jeito de adiantar uma tarefa. Para a empresa, há uma questão adicional: quais informações foram compartilhadas com aquele serviço? Cabe a ela definir quais ferramentas estão liberadas, o que pode ser colocado nelas e quem responde pelo quê.
Continua após a publicidade Entre os gestores brasileiros, 77% apontam que a formação para compreender as capacidades, as limitações e os usos adequados da IA precisa de melhorias moderadas ou significativas.
Essa não é a única frente a ser trabalhada (embora eu ache letramento em IA fundamental, tanto que é tema do meu doutorado): é preciso também abraçar com entusiasmo a ideia de liderar pelo exemplo. Segundo a pesquisa, entre os brasileiros ouvidos, 92,2% das lideranças de média gerência e de linha de frente acreditam que os executivos seniores precisam demonstrar mais, na prática, como usam a IA no trabalho.
─────────────────────────────────────────────── Alvaro Leme é doutorando e mestre em Ciências da Comunicação pela ECA-USP, jornalista e criador do podcast educativo Aprenda
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