O ex-juiz federal Sergio Moro, 54 anos, tem em seu currículo a marca de ter passado por todos os Poderes da República. Em 22 anos de magistratura, prendeu um ex-presidente, empresários de grife, doleiros e políticos, julgando processos daquela que é, até hoje, a maior força-tarefa de combate à corrupção da história do país — a Lava-Jato.
Sem a toga, ingressou no governo Jair Bolsonaro, chefiando a pasta da Justiça, de onde saiu em 2020 para, três anos mais tarde, sentar-se em uma cadeira do Senado. No dia 6 de janeiro, voltará ao Executivo, desta vez de seu estado de origem, como governador do Paraná, eleito no primeiro turno com 3,1 milhões de votos (50,1% do eleitorado).
Nos últimos dias, engajou-se de vez na campanha de Flávio Bolsonaro (PL) contra a reeleição de Lula. Em entrevista a VEJA, Moro defende que o país enfrente a impunidade e investigue tudo o que precisa ser investigado, independentemente de quem está sob suspeita — sejam filhos do presidente ou gente próxima a ele ou ministros do STF.
“O que não funciona é varrer as coisas para debaixo do tapete”, diz. Quando era juiz, o senhor prendeu Lula, e hoje o presidente o trata como inimigo.
Se ele for reeleito, como será a relação entre vocês? Primeiro, eu não acredito nessa hipótese trágica de ele vencer. Vimos no primeiro turno uma vitória avassaladora da direita e um avanço de Flávio, que no Paraná teve votação maior que a de Jair em 2022.
Tivemos a eleição de três governadores opositores a Lula na região Sul e também em São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Aposentaremos definitivamente Lula no segundo turno.
É um governo que nasceu velho e morrerá decrépito, porque não fez nada além de endividar o país e as empresas e favorecer a vida de quem pratica crimes. Poderíamos dizer que houve um triunfo da direita, da ideologia, das propostas, mas é também uma falência do projeto de poder do PT e de Lula.
É um governo ultrapassado em todos os sentidos. Sua vitória ao governo do Paraná e a votação expressiva do ex-procurador Deltan Dallagnol ao Senado, também eleito, são um sinal de que a Lava-Jato ainda tem peso no estado? Ela tem enorme força política no país inteiro.
Foi a maior operação da história contra a corrupção. Os paranaenses têm orgulho dela.
As pessoas foram presas porque cometeram crimes, roubaram o Erário. É tão incomum no país essas pessoas serem responsabilizadas que isso ficou no imaginário da população.
Depois houve uma reviravolta política. Mas está ficando cada vez mais claro que o que queriam eram a roubalheira e a impunidade de volta.
O povo paranaense não caiu no logro da narrativa de que houve abuso e perseguições. Nenhum inocente foi condenado ou preso.
Só nos últimos tempos tivemos dois grandes escândalos: o do INSS e o do Banco Master. Por que é tão difícil debelar a corrupção no país? Fiquei estarrecido com o roubo dos aposentados e pensionistas.
Na CPMI do INSS, tentamos investigar até a suspeita de envolvimento do filho do presidente, o Lulinha, e fomos barrados. A impunidade é a irmã gêmea da corrupção.
Quando ela é grande, o risco para o criminoso é pequeno e isso faz com que ele se sinta à vontade para violar a lei. Temos que enfrentar o grande problema da impunidade.
“A notícia de que Daniel Vorcaro teria liberado milhões de reais, aparentemente suborno, para um filme sobre o Lula é estarrecedora. Espero que os fatos sejam investigados a fundo”
Continua após a publicidade VEJA revelou áudio em que Daniel Vorcaro, interessado em acessar fundos de pensão federais, diz ter dado dinheiro a pessoas ligadas a Lula.
Como o senhor avalia o caso? A notícia de que Vorcaro teria liberado milhões de reais, aparentemente como suborno, para um filme sobre Lula tem que ser investigada. Ela é estarrecedora.
Não surpreende o possível envolvimento de Vaccari (João Vaccari Neto, ex-tesoureiro do PT). Ele foi julgado, condenado, ficou preso quatro anos na Lava-Jato e foi beneficiado com a anulação das condenações.
Disso tiramos uma lição: soltar condenados por corrupção, beneficiá-los com esse tipo de artimanha formalista e política, prejudica o Erário, porque a tendência é voltarem a cometer crimes, pois se sentem autorizados. Espero que os fatos sejam investigados.
O senhor dividiu o palanque com Flávio Bolsonaro, que é investigado por suspeita de corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas no caso do financiamento do filme Dark Horse por Daniel Vorcaro. Ele já deu satisfação suficiente sobre isso aos eleitores? Ele deu explicações sobre os fatos e, se surgirem novas informações, ele certamente vai ser chamado a explicar novamente.
Mas Flávio não trabalhou para obstruir as investigações. No Congresso, Flávio e a oposição a Lula assinaram todos os requerimentos de comissões parlamentares de inquéritos para apuração do escândalo do Banco Master.
Lula agiu exatamente de forma contrária, buscando sabotar as investigações contra o filho e tirar esses casos das mãos do ministro André Mendonça, do Supremo, que vem mostrando uma atuação independente e imparcial. Há uma diferença entre uma situação e outra.
Em 2020, o senhor deixou o governo de Jair Bolsonaro com críticas a ele e em 2022 até ensaiou enfrentá-lo na disputa presidencial. Aliado de novo, ficou surpreendido com a força eleitoral que o ex-presidente ainda tem? Não me surpreendo.
No Paraná, o espírito da Lava-Jato, junto com a força do Bolsonaro, nos levou à vitória. Em 2022, após o primeiro turno, o próprio Jair Bolsonaro me procurou para que eu me posicionasse contra Lula e o acompanhasse nos debates.
Eu fui, porque naquele momento entendia que, acima de qualquer divergência, o país estava em risco. Precisávamos derrotar o Lula.
Infelizmente, não foi possível naquele ano. Agora, estamos tendo a oportunidade dessa revanche.
Continua após a publicidade O senhor se considera um bolsonarista hoje? Esses rótulos são meio complicados.
Ninguém cabe num rótulo assim, simplificador. O PL terá 28 senadores, a maior bancada.
O que pensa sobre a possibilidade de uma ofensiva contra o STF? O objetivo é colocar o país no rumo, aprofundar a liberdade econômica, diminuir impostos, melhorar as leis penais. Há abusos de alguns ministros do Supremo e do TSE que precisam ser coibidos.
A preocupação dos parlamentares é basicamente essa. Fatos envolvendo ministros têm que ser investigados como se fossem suspeitas envolvendo qualquer outra autoridade pública.
A bandeira da maioria política que foi formada é a bandeira da legalidade. Ninguém está acima da lei.
É a favor ou contra impeachment de ministro do Supremo? Eu assinei o impeachment de Alexandre de Moraes diante das revelações envolvendo Daniel Vorcaro. Os fatos precisam ser investigados.
Aberto o procedimento, o ministro se defende e, a depender do que for apurado, se vota a favor ou contra o impeachment. Mas a abertura do processo me parece imprescindível.
O que não funciona é varrer as coisas para debaixo do tapete. Continua após a publicidade
O senhor já foi cotado para ministro do STF. Deve haver mudanças nos critérios de indicação para a Corte? Precisamos de uma reforma completa.
Primeiro, para acabar com o foro privilegiado. Essa é uma fonte de impunidade e de uma relação não saudável entre o Parlamento e o Supremo.
O mandato para ministro também parece oportuno, talvez por doze anos. Devemos também ter mecanismos institucionais para apurar suspeitas de malfeitos.
E precisamos ter o código de ética que o presidente do STF, Edson Fachin, defende. O que não dá é ter ministro dando entrevista a todo momento e falando, para a imprensa ou nas redes sociais, sobre questões que vão ser julgadas por eles.
Isso põe em descrédito o Poder Judiciário. O senhor quer construir um complexo prisional nos moldes do sistema rígido adotado em El Salvador.
Quais os outros planos para a segurança pública? Tenho três propostas principais. Uma é a criação de forças-tarefas ao estilo da Lava-Jato, para desmantelar grupos criminosos organizados.
A segunda é a criação de centros integrados. Um dos grandes problemas da segurança pública é que a Polícia Civil não se comunica com a Militar, e vice-versa, e ambas não se comunicam com a Polícia Penal, nem com as guardas municipais e nem com as forças federais.
Por último, nossa cereja do bolo é a construção de um presídio estadual de segurança máxima, cárcere duro, sem fuga, sem celular, cela individual, sem visita íntima. Todo contato do preso com o mundo exterior será monitorado, para neutralizar a possibilidade de ele continuar a prática de crimes.
Vai ser o fim da linha. O recado que queremos dar é: se quer violar a lei, não fique no Paraná.
“Há abusos de alguns ministros do Supremo e do TSE que precisam ser coibidos. A bandeira da maioria política que foi formada é a da legalidade.
Ninguém está acima da lei” Continua após a publicidade
O Brasil tem hoje uma das maiores populações carcerárias do mundo. Prender mais vai melhorar os índices de segurança? Existe um mito de que temos prisões demais.
Muitas vezes as estatísticas não consideram que há presos em regime semiaberto ou com tornozeleira eletrônica em casa. Pela quantidade de crimes que temos, o número de presos é até pequeno.
Minha preocupação é que o cidadão não seja vítima nem viva com medo. Nós normalizamos a insegurança no país.
O senhor era considerado alguém sem traquejo político. No que sua experiência no Senado o preparou para ser governador? Eu aprovei leis das quais fui autor e relator, principalmente na área da segurança pública.
Ninguém aprova projeto de lei sozinho. Precisa dialogar, construir, e consegui fazer isso, mesmo sendo oposição ferrenha ao governo Lula.
Além disso, tive uma experiência administrativa como ministro da Justiça e Segurança Pública, alcançando naquela época bons resultados, com a queda expressiva dos principais indicadores criminais. Tudo isso nos habilita a fazer um grande governo no Paraná.
Seu antecessor, Ratinho Jr. (PSD), teve quase 80% de aprovação.
No que sua gestão será diferente? Eu não sou adversário de Ratinho Jr., mas entendo que o Paraná pode mais. Tenho orgulho de ser paranaense.
Nasci em Maringá, fiz a minha carreira profissional no estado. Tinha muito orgulho de ouvir que a Lava-Jato não poderia ter surgido em outro local senão o Paraná.
Vamos criar uma agência anticorrupção, resolver o problema da saúde, que hoje está subfinanciada, solucionar gargalos de infraestrutura que duram mais de trinta anos, como a necessidade de expandir a nossa capacidade portuária. É preciso também rever a carga tributária no estado.
Temos muita coisa a consertar, o que não significa não reconhecer os méritos da atual gestão ou das gestões pretéritas. O Paraná não tem dono.
Essa eleição nunca foi sobre o Ratinho Jr. Essa eleição foi sobre o Sergio Moro.
Continua após a publicidade Publicado em VEJA de 23 de outubro de 2026, edição nº 3018
Publicidade
Notícias Veja