Salatiel Soares Correia: a última viagem de um grande amigo

Salatiel Soares Correia: a última viagem de um grande amigo - Foto
Fonte da notícia: Jornal Opção Jornal Opção

Ycarim Melgaço Especial para o Jornal Opção

Existem muitas maneiras de viajar. Há quem parta para estudar, trabalhar, mudar de cidade ou recomeçar a vida em outro país.

Há também as viagens de turismo, aquelas em que descobrimos paisagens, conhecemos culturas e regressamos para contar o que vimos. O retorno faz parte de sua natureza.

Durante muitos anos trabalhei como agente de turismo e, hoje, como estudioso dessa atividade, continuo acompanhando os caminhos que levam as pessoas pelo mundo. Mas, em outubro de 2026, um dos maiores amigos que tive na vida, Salatiel Soares Correia, partiu para uma viagem diferente.

Uma viagem sem passagem, sem destino conhecido e, sobretudo, sem regresso. Um notável estudo de Salatiel Correia sobre a construção do Estado de Goiás | Foto: Euler de França Belém/Jornal Opção

A morte é essa última viagem, a mais misteriosa de todas. Somos seres conscientes da própria finitude, mas lidamos muito mal com ela.

Talvez por isso procuremos, inclusive nas crenças espirituais, alguma esperança de reencontro. É difícil aceitar que alguém desapareça do nosso convívio quase como num passe de mágica.

Salatiel viajava muito e tinha um medo enorme de turbulência. Perguntava, preocupado, se determinada empresa aérea era confiável.

E, quando regressava, sempre trazia na bagagem histórias, descobertas e novas ideias De repente, não ouvimos mais sua voz, não recebemos suas ligações, não encontramos seu olhar.

Resta uma presença que sobrevive nas lembranças, mas que já não podemos alcançar. É uma distância para a qual nenhum mapa aponta o caminho de volta.

Salatiel fez inúmeras viagens de turismo e, em praticamente todas, eu participava de alguma maneira. Bastava surgir um destino para o telefone tocar.

Queria saber qual companhia aérea escolher, quais conexões seriam mais convenientes e se o voo era seguro. Tinha um medo enorme de turbulência.

Perguntava, preocupado, se determinada empresa aérea era confiável. E, quando regressava, sempre trazia na bagagem histórias, descobertas e novas ideias.

Como Kissinger, Salatiel Correia era um estudioso da China Engenheiro de formação, Salatiel encontrou na literatura uma segunda pátria intelectual.

Percorreu os dramas humanos de Shakespeare, autor de “Romeu e Julieta”; atravessou a imensidão da Rússia de Tolstói, em “Guerra e Paz”; mergulhou no universo latino-americano de Gabriel García Márquez e admirou, entre tantos escritores brasileiros, a obra de Jorge Amado, especialmente “Capitães da Areia”.

Era um leitor extraordinário, desses que não se contentam em percorrer as páginas: procuram compreender o mundo que existe por trás delas. Livrarias eram templos para Salatiel.

Regressou da França com a mala cheia de livros sobre a China. Comentava comigo suas leituras sobre a história, a economia e as transformações daquele país.

Logo surgiam ensaios As livrarias eram escalas obrigatórias em suas viagens.

Recentemente, regressou da França com a mala carregada de livros sobre a China. Comentava comigo suas leituras sobre a história, a economia e as transformações daquele país.

Talvez dali surgisse o tema de um de seus próximos trabalhos. Salatiel Correia: crítico literário, ensaísta e escritor | Foto: Euler de França Belém/Jornal Opção

Queria também conhecer pessoalmente a China, e começamos a desenhar essa viagem, escolhendo cidades, conexões e itinerários. De alguma maneira, aquela jornada já havia começado nas nossas conversas.

Nossa amizade também percorria caminhos que não aparecem nos mapas. Fomos leitores dos livros um do outro, trocando originais, observações e sugestões.

Conversávamos diariamente, às vezes duas ou três vezes no mesmo dia. Discutíamos política, economia, literatura e os acontecimentos do mundo.

Nem sempre concordávamos, mas nossas divergências jamais ergueram muros entre nós. Quantas vezes nossos encontros atravessaram a noite, enquanto os garçons recolhiam as mesas e nós ainda tínhamos tantos assuntos pela frente.

Compartilhamos também itinerários difíceis. Acompanhei Salatiel em viagens a Ribeirão Preto, onde realizava consultas e tratamentos médicos.

Enfrentava os desafios do Parkinson e problemas oftalmológicos, mas conservava sua curiosidade intelectual, sempre interessado em compreender os diagnósticos e os avanços da medicina. Curiosamente, nossa última conversa também foi sobre viagens.

Salatiel acabara de regressar do interior de Minas Gerais e de São Paulo. Contou-me, entusiasmado, sobre uma livraria num shopping de São Carlos, onde encontrou um vendedor de notável cultura.

A conversa entre os dois transformou uma simples visita comercial em um encontro de afinidades intelectuais. Para Salatiel, as livrarias eram pequenos portos onde livros, pessoas e ideias cruzavam seus caminhos.

Recebi a notícia de sua morte. Desde então, descobri que a ausência também tem sua geografia.

O telefone está ao alcance das mãos, mas já não existe a possibilidade de uma ligação. Não há com quem compartilhar ideias

Eu também chegava de viagem. Falamos em nos encontrar no domingo, como fazíamos uma ou duas vezes por semana, geralmente no final da tarde.

Eram encontros que se prolongavam por horas, como nos tempos em que dávamos aulas na mesma faculdade e o vigilante precisava nos avisar que o estacionamento estava fechando. Mas aquele encontro de domingo não chegou a se confirmar.

Pouco depois, veio a notícia de sua morte. Desde então, descobri que a ausência também tem sua geografia.

O telefone continua ao alcance das mãos, mas já não existe a possibilidade daquela ligação. Surgem notícias, ideias, acontecimentos, e o primeiro impulso ainda é querer compartilhá-los com ele.

Salatiel não conhecerá a China que tanto desejava visitar. Talvez tenham ficado por escrever as páginas que suas últimas leituras começavam a inspirar.

A morte não leva apenas uma pessoa. Leva também uma parte da nossa própria história, interrompe conversas e modifica para sempre a geografia afetiva da existência.

Adeus, meu grande amigo, meu irmão de jornada. Durante tantos anos, conversamos sobre viagens, destinos e caminhos de volta.

Desta vez, você partiu sem me consultar, sem roteiro e sem despedida. Fico com nossas histórias e com a gratidão de ter caminhado ao seu lado.

Há viagens que terminam quando regressamos. Outras continuam para sempre na memória de quem fica.

Ycarim Melgaço, professor e escritor, autor de “História das Viagens e do Turismo” (entre outros). É colaborador do Jornal Opção.

Instagram: @ycarim

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