Peronismo 2027: a vitória de Lula como alavanca para derrotar Milei e reconstruir a esquerda Argentina

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Fonte da notícia: Brasil 247 Brasil 247

A aproximadamente um ano das eleições presidenciais argentinas de 2027, não há espaço para ilusões. O que estará em disputa não será apenas a sucessão presidencial em Buenos Aires, mas o rumo político de uma das maiores democracias da América Latina e, em perspectiva mais ampla, a própria correlação de forças entre os projetos progressistas e a extrema-direita no continente.

Javier Milei transformou a Argentina em um dos principais laboratórios contemporâneos da direita ultraliberal. Seu governo combina ajuste fiscal radical, retração das capacidades sociais do Estado, desregulamentação econômica, flexibilização trabalhista e alinhamento internacional com Donald Trump e a nova direita global.

Não se trata simplesmente de mais um governo conservador, mas de um projeto que pretende alterar profundamente a relação entre Estado, mercado e sociedade, reduzindo direitos historicamente conquistados e apresentando a desigualdade produzida pelo mercado como expressão legítima da liberdade individual.

É nesse contexto que a eleição brasileira de outubro de 2026 adquiriu uma dimensão que ultrapassa as fronteiras nacionais. Luiz Inácio Lula da Silva foi reeleito presidente do Brasil ao derrotar Flávio Bolsonaro no segundo turno, com 51,79% dos votos válidos, correspondentes a 64.256.232 votos, contra 48,21% do candidato do PL, que obteve 59.826.041 votos.

A diferença foi de 4.430.191 votos, resultado de uma mobilização política que permitiu a Lula reverter a vantagem conquistada pelo adversário no primeiro turno. A vitória brasileira não representa apenas a derrota eleitoral de Flávio Bolsonaro.

Demonstra a capacidade de reorganização de uma frente progressista diante de uma extrema-direita que havia alcançado posição favorável na primeira etapa da disputa. Entretanto, seria um equívoco confundir a vitória nas urnas com a desarticulação política do adversário.

Os 48,21% dos votos válidos conquistados pelo candidato bolsonarista revelam a permanência de uma força social e eleitoral expressiva, cuja influência não desaparece com a derrota. Essa constatação oferece uma primeira lição para a Argentina: derrotar eleitoralmente a extrema-direita não significa eliminar as condições sociais, econômicas, culturais e políticas que sustentam sua existência.

A repercussão da vitória de Lula entre as principais lideranças peronistas evidenciou, desde os primeiros momentos, a dimensão regional do resultado brasileiro. Cristina Fernández de Kirchner, ex-presidenta argentina; Axel Kicillof, governador da província de Buenos Aires; Sergio Massa, ex-ministro da Economia do governo Alberto Fernández e candidato presidencial derrotado por Javier Milei em 2023; e Juan Grabois, deputado nacional, dirigente da Frente Patria Grande e importante referência dos movimentos populares ligados à economia informal, à luta pela moradia e à justiça social, celebraram a reeleição do presidente brasileiro.

As manifestações dessas lideranças estabeleceram conexões entre a mobilização eleitoral que assegurou a vitória de Lula e os desafios enfrentados pelo campo nacional-popular argentino na preparação para as eleições de 2027. Mais do que uma demonstração de solidariedade política, essas reações revelam que o significado da vitória brasileira ultrapassa as fronteiras nacionais e já integra o debate estratégico de setores expressivos do peronismo sobre a possibilidade de construir uma alternativa ao governo de Javier Milei.

Este artigo assume uma posição política explícita. Alinha-se às forças democráticas, populares e progressistas que defendem soberania, direitos sociais, trabalho, democracia e integração latino-americana.

A questão central não é saber se a Argentina deve simplesmente voltar ao passado, mas se será possível reorganizar um campo nacional-popular capaz de aprender com seus próprios erros, reconstruir uma maioria social e oferecer uma alternativa consistente ao projeto representado por Milei.

A chamada “motosserra” de Milei não constitui apenas uma metáfora publicitária. Ela sintetiza uma concepção profundamente regressiva de Estado e de sociedade.

Sob o argumento do saneamento econômico, foram extintos ou esvaziados organismos públicos, reduzidos investimentos, cortados subsídios e flexibilizados mecanismos de proteção social e trabalhista. Os custos sociais desse ajuste são evidentes.

A Argentina enfrenta perda expressiva de empregos formais, fragilização de setores industriais, dificuldades na construção civil, retração do consumo e crescente insegurança econômica para parcelas significativas da população. Embora a redução da inflação seja apresentada pelo governo como demonstração do sucesso de seu programa, a estabilização de determinadas variáveis macroeconômicas não elimina os efeitos concretos do ajuste sobre a vida cotidiana.

É justamente nesse ponto que se encontra a contradição central do mileísmo. O debate nunca deveria ter sido reduzido à necessidade de reorganizar as contas públicas argentinas, depois de anos de inflação, endividamento e desequilíbrios macroeconômicos.

A questão política fundamental é outra: quem suporta o peso dessa reorganização e qual modelo de sociedade emerge dela? O mileísmo também incorporou à agenda econômica ultraliberal uma ofensiva cultural contra as conquistas feministas, as políticas de diversidade, de memória, verdade e justiça e a tradição argentina de defesa dos direitos humanos.

Essa ofensiva se manifesta igualmente no negacionismo histórico, na relativização dos crimes de lesa-humanidade cometidos durante a última ditadura militar argentina (1976–1983) e até mesmo na exaltação do regime autoritário, em uma tentativa de reabilitar discursos e práticas que a luta democrática buscou condenar e superar.

Essa dimensão não é acessória. A deslegitimação das organizações coletivas, dos sindicatos, dos movimentos sociais, das universidades públicas, dos organismos de direitos humanos e das políticas de igualdade integra um projeto político que procura enfraquecer a memória das resistências, desarticular os vínculos de solidariedade social, transformar o indivíduo em unidade isolada de competição e elevar o mercado à condição de princípio ordenador da vida coletiva.

Essa combinação permite compreender uma das contradições fundamentais do neoliberalismo contemporâneo e suas aproximações com projetos autoritários. A defesa radical da liberdade de mercado não implica, necessariamente, compromisso equivalente com a democratização das relações sociais.

Um governo pode reivindicar a liberdade econômica como princípio absoluto e, simultaneamente, hostilizar sindicatos, movimentos populares e mecanismos coletivos de proteção, especialmente quando estes representam obstáculos à expansão dos interesses do capital. A liberdade defendida por essa concepção política tende a ser compreendida prioritariamente como liberdade de propriedade, contratação e circulação de capitais, enquanto direitos sociais e instrumentos de intervenção democrática sobre a economia são apresentados como entraves à iniciativa individual.

Nessa perspectiva, a redução das capacidades sociais do Estado não significa necessariamente diminuição de seu poder coercitivo. Ao contrário, pode coexistir com o fortalecimento de mecanismos de repressão e controle destinados a conter as resistências produzidas pelo próprio ajuste.

A derrota de Milei em 2027 não ocorrerá automaticamente como consequência do desgaste econômico ou dos custos sociais de seu governo. Nenhum projeto político é derrotado apenas pela acumulação de seus próprios fracassos.

Para que o descontentamento se transforme em mudança política, é necessário que exista uma alternativa capaz de organizar essa insatisfação e convertê-la em esperança. Esse é o principal desafio do campo nacional-popular argentino.

O peronismo chega à preparação da disputa de 2027 ainda marcado pelos desgastes do governo Alberto Fernández, pelas divisões internas e pela dificuldade de construir uma síntese política capaz de reunir kirchnerismo, governadores, sindicatos, movimentos sociais e setores independentes que se afastaram do campo progressista nos últimos anos.

Ao mesmo tempo, o cenário eleitoral é mais aberto do que o oficialismo gostaria de admitir. Levantamentos nacionais recentes apontam uma disputa competitiva entre o espaço político de Milei e uma eventual frente peronista unificada, com intenções de voto próximas de 31% a 32%, dependendo da pesquisa e da configuração eleitoral considerada.

Esses resultados indicam a existência de uma base social significativa para a oposição, mas não permitem concluir que essa base se converterá automaticamente em maioria eleitoral. Uma compilação de onze pesquisas nacionais divulgada pelo grupo de comunicação argentino Clarín aponta uma disputa competitiva em um eventual segundo turno entre Javier Milei e Axel Kicillof.

Na média dos levantamentos, Milei aparece com 42,2% das intenções de voto, contra 38,9% do governador da província de Buenos Aires. Embora esses números não autorizem falar em empate técnico no sentido estatístico estrito, revelam uma diferença relativamente pequena e um cenário eleitoral ainda aberto.

O desafio, portanto, não consiste apenas em reunir os votos das diferentes correntes peronistas. Será necessário conquistar setores que rejeitam o ajuste econômico, manifestam descontentamento com Milei ou desconfiam de sua orientação autoritária, mas que tampouco desejam simplesmente retornar ao quadro político que antecedeu sua eleição.

Parte desse eleitorado poderá ser decisiva em um eventual segundo turno, especialmente entre trabalhadores precarizados, setores médios atingidos pela crise e eleitores independentes que não se identificam integralmente com nenhum dos campos em disputa. É precisamente nesse terreno que a unidade política precisa encontrar correspondência em uma reconstrução programática.

A oposição não vencerá apenas demonstrando que Milei fracassou em determinadas áreas. Precisará convencer a sociedade de que possui condições de governar, recuperar a economia e enfrentar os problemas estruturais que contribuíram para a ascensão do próprio mileísmo.

A reorganização desse espaço passa atualmente por lideranças como Axel Kicillof e Sergio Massa e pela influência política que Cristina Fernández de Kirchner e seu filho, Máximo Kirchner, deputado nacional e principal dirigente de La Cámpora, organização de militância juvenil vinculada ao kirchnerismo, continuam exercendo sobre uma parcela significativa do peronismo.

Kicillof apresenta desempenho competitivo em diferentes levantamentos, mas sua projeção nacional depende da capacidade de ampliar sua base para além da província de Buenos Aires e de construir acordos políticos com outras correntes do movimento, governadores e setores sociais. A disputa em torno da preservação das PASO, sigla para Primárias Abertas, Simultâneas e Obrigatórias, adquire especial importância nesse contexto.

Instituído na Argentina como mecanismo de seleção de candidaturas, esse sistema permite que o eleitorado participe da definição dos candidatos dos partidos e das coalizões, independentemente de sua filiação às organizações políticas envolvidas. Dessa forma, a escolha das candidaturas não fica restrita aos dirigentes partidários ou aos respectivos filiados, incorporando a participação popular ao processo de definição eleitoral.

Diante das controvérsias sobre a continuidade desse mecanismo, também se coloca a possibilidade de estabelecer outras regras democráticas capazes de organizar a disputa interna. A unidade não precisa significar unanimidade nem supressão das diferenças.

Pode assumir a forma de uma “unidade com competição”, na qual Kicillof, Massa, o kirchnerismo e outras correntes disputem democraticamente a liderança do campo, mas assumam previamente o compromisso de reconhecer o resultado e convergir, ao final, para uma candidatura comum capaz de enfrentar Milei em 2027.

A tarefa histórica, nesse sentido, não é decidir quem será o dono do peronismo, mas reconstruir uma maioria social capaz de derrotar a extrema-direita e oferecer ao país um novo projeto nacional-popular. Essa reconstrução precisa, contudo, ultrapassar a engenharia eleitoral.

Unidade sem programa pode ganhar uma eleição, mas dificilmente reorganizará a Argentina depois do mileísmo. A alternativa progressista precisa recuperar uma ideia de país fundada em soberania, desenvolvimento, trabalho, direitos e participação popular.

A soberania deve ocupar posição central nesse programa. A resistência às tentativas de flexibilizar ou eliminar os limites à aquisição de terras rurais por estrangeiros revelou uma disputa muito mais profunda sobre a própria concepção de território nacional.

Terra, água, recursos naturais, energia e áreas estratégicas não podem ser tratados exclusivamente como ativos disponíveis à especulação internacional. A soberania econômica exige que a Argentina preserve capacidade política para decidir sobre seus recursos e sobre seu próprio modelo de desenvolvimento.

Da mesma forma, responsabilidade econômica não pode significar destruição do parque produtivo. A reconstrução de uma alternativa ao mileísmo passa pela recuperação industrial, pelo fortalecimento das pequenas e médias empresas, pela ampliação do crédito produtivo, pela geração de empregos e pela recomposição do mercado interno.

O peronismo não pode permitir que Milei monopolize o conceito de responsabilidade econômica. Equilíbrio fiscal não pode significar desequilíbrio permanente na vida da maioria.

A defesa dos direitos também precisa ser compreendida como parte dessa reconstrução. Direitos sociais e direitos civis não são agendas concorrentes.

A defesa dos direitos das mulheres, da população LGBT, dos povos originários e das políticas de Memória, Verdade e Justiça deve caminhar conjuntamente com a luta pelo emprego, pelo salário, pela educação pública e contra a desigualdade. A reconstrução do campo popular argentino também não pode ser confundida com a reorganização exclusiva do peronismo.

Embora este constitua uma das principais forças da oposição a Milei, a esquerda argentina abriga outras tradições políticas, organizações socialistas, correntes trotskistas, movimentos sociais independentes e setores democráticos que não se identificam necessariamente com o peronismo.

A construção de uma alternativa mais ampla exigirá reconhecer essas diferenças e buscar convergências políticas e sociais sem impor uniformidade ideológica ou subordinação automática a uma única tradição partidária. Por fim, nenhum programa será sustentável sem ancoragem social.

A reconquista eleitoral precisa ser acompanhada pela reconstrução dos vínculos com sindicatos, movimentos estudantis, organizações feministas, trabalhadores informais, movimentos territoriais, organismos de direitos humanos e juventudes precarizadas. O campo nacional-popular precisa voltar a ser social antes de pretender novamente ser governo.

A eleição brasileira de outubro de 2026 adquiriu importância estratégica para toda a América Latina. A reeleição de Lula oferece uma referência política importante à esquerda argentina, não porque o Brasil possa determinar o resultado das eleições de outro país, nem porque o peronismo possa transferir para Brasília a responsabilidade por sua própria reconstrução, mas porque as disputas nacionais também são influenciadas pelas correlações regionais de força, pelas possibilidades de cooperação econômica e pela demonstração concreta de que diferentes projetos de sociedade permanecem politicamente viáveis.

Entretanto, o significado dessa vitória não deve ser interpretado de maneira simplista. Os 48,21% dos votos válidos conquistados por Flávio Bolsonaro demonstram que a extrema-direita brasileira permanece profundamente enraizada em parcelas expressivas da sociedade.

A derrota eleitoral não elimina automaticamente suas estruturas de organização, suas redes de influência, sua capacidade de mobilização ou as condições políticas e sociais que alimentam sua permanência. Essa constatação possui particular importância para a Argentina.

Mesmo que Milei venha a ser derrotado em 2027, o mileísmo poderá continuar existindo como força política relevante. O desafio de uma eventual vitória progressista não será apenas substituir o presidente, mas enfrentar as condições que permitiram a consolidação de seu projeto e reconstruir bases sociais duradouras para uma alternativa democrática.

A repercussão da vitória brasileira entre as principais lideranças peronistas evidencia a dimensão política desse acontecimento. Cristina Fernández de Kirchner comparou a mobilização eleitoral que garantiu a reeleição de Lula a um “17 de Outubro eleitoral”, enquanto Axel Kicillof, Sergio Massa e Juan Grabois também celebraram o resultado brasileiro.

A referência de Cristina Kirchner possui significado histórico particular. O 17 de outubro de 1945 constitui uma das datas fundadoras da identidade peronista, associada à grande mobilização popular que exigiu a libertação de Juan Domingo Perón e contribuiu decisivamente para sua ascensão política.

Na memória histórica do movimento, aquela jornada simboliza a entrada organizada dos trabalhadores na cena política argentina e a transformação da mobilização popular em força capaz de alterar profundamente a correlação de poder. Ao evocar essa referência, Cristina Kirchner não se limita a cumprimentar Lula por sua vitória eleitoral.

Inscreve o resultado brasileiro em uma tradição política na qual organização coletiva, participação popular e liderança política se articulam para modificar uma conjuntura aparentemente desfavorável. A comparação aproxima duas experiências nacionais distintas por meio de um elemento comum: a capacidade de mobilização das forças populares diante de projetos políticos que procuram apresentar sua própria hegemonia como inevitável.

A reação de Axel Kicillof, ao reconhecer na vitória de Lula a demonstração de que outro caminho político continua possível, reforça essa dimensão. Para o campo nacional-popular argentino, a experiência brasileira pode funcionar como estímulo à reorganização, mas somente produzirá consequências duradouras se for acompanhada por um processo próprio de reconstrução política e social.

A permanência de um governo progressista no Brasil terá também consequências materiais. Brasil e Argentina constituem o núcleo histórico do Mercosul, possuem cadeias produtivas profundamente integradas e compartilham interesses industriais, comerciais, energéticos e geopolíticos.

Um eventual governo nacional-popular argentino encontrará em um Brasil governado por Lula um parceiro estratégico para políticas de reindustrialização, integração produtiva e fortalecimento da autonomia regional. O sentido político da vitória brasileira é igualmente relevante.

Ela dificulta a tentativa de consolidação de uma articulação continental entre a extrema-direita estadunidense, o mileísmo e o bolsonarismo, ao mesmo tempo em que preserva o peso do maior país da América Latina em espaços como Mercosul, CELAC e BRICS e na defesa de uma política externa menos subordinada aos interesses de Washington.

Projetar a eleição argentina de 2027 a partir de cenários rígidos seria reduzir uma disputa política complexa a uma combinação quase matemática de variáveis. O resultado dependerá da interação entre a situação econômica, a capacidade de Milei de reconstruir apoio social, a reorganização do peronismo, o comportamento dos setores populares e médios, a força das organizações sociais e a própria correlação política latino-americana.

A vitória de Lula no Brasil criou um ambiente regional mais favorável às forças progressistas argentinas, mas não compensa a ausência de unidade, de programa ou de enraizamento social. Da mesma forma, uma eventual recuperação econômica sob Milei não assegurará sua reeleição se a melhora dos indicadores macroeconômicos não alcançar concretamente o emprego, os salários e as condições de vida da maioria.

Entre a estabilização estatística e a percepção social da prosperidade existe uma distância que será politicamente decisiva. O ponto fundamental, portanto, não está em prever antecipadamente quem vencerá, mas em compreender quais forças estarão em condições de transformar a conjuntura em projeto político.

Milei chegará a 2027 tentando convencer a sociedade de que o sofrimento imposto pelo ajuste constituiu uma etapa necessária para uma prosperidade futura. O campo nacional-popular terá de demonstrar que estabilidade econômica sem desenvolvimento, soberania e justiça social não constitui horizonte suficiente para um país como a Argentina.

Nesse confronto, a vitória de Lula oferece ao peronismo uma demonstração concreta de que a extrema-direita não é invencível e de que outro caminho regional continua possível. Mas nenhuma influência externa substituirá a tarefa política argentina.

Se o peronismo permanecer fragmentado, incapaz de formular uma autocrítica sobre suas experiências recentes e limitado à promessa de restauração do passado, poderá desperdiçar até mesmo uma conjuntura favorável. A experiência brasileira também ensina que a construção de uma maioria eleitoral não elimina as contradições da sociedade nem dissolve a força política dos setores derrotados.

Uma eventual vitória progressista na Argentina exigirá, portanto, mais do que a formação de uma coalizão capaz de superar Milei nas urnas. Será necessário construir condições políticas e sociais para enfrentar a resistência dos grupos econômicos e das forças conservadoras que sustentam seu projeto, sem abandonar os compromissos democráticos que devem orientar uma alternativa nacional-popular.

Por outro lado, se conseguir transformar suas diferenças internas em competição democrática, construir uma candidatura comum, apresentar um programa capaz de dialogar com as necessidades materiais da população e reconstruir seus vínculos com a sociedade organizada, 2027 poderá deixar de ser simplesmente uma eleição sobre a continuidade ou não de Milei.

Poderá se converter em uma disputa entre dois projetos de país. De um lado, uma Argentina subordinada à lógica do mercado, marcada pela redução das responsabilidades sociais do Estado, pela flexibilização de direitos e por um alinhamento internacional com a nova extrema-direita.

Do outro, a possibilidade de reconstrução de um projeto nacional-popular que combine estabilidade econômica, desenvolvimento produtivo, soberania, direitos sociais, democracia e integração latino-americana. É nesse terreno que o fator brasileiro adquire seu verdadeiro significado.

A vitória de Lula não decidirá a eleição argentina, mas já começou a modificar o ambiente político no qual ela será disputada. Retirou da extrema-direita continental uma vitória que poderia ser apresentada como confirmação de sua hegemonia e ofereceu às forças progressistas latino-americanas uma demonstração concreta de que a continuidade do avanço conservador não constitui destino inevitável.

A reconstrução do campo popular argentino não virá de Brasília. Terá de nascer na própria Argentina, nas organizações populares, no movimento sindical, nas universidades, nos territórios, no movimento feminista, nos organismos de direitos humanos e na capacidade do peronismo de superar uma guerra interna que interessa fundamentalmente à extrema-direita.

Mas seria igualmente equivocado ignorar o significado da vitória brasileira. A reeleição de Lula demonstrou que o avanço da extrema-direita não é irreversível.

Preservou o maior país latino-americano sob uma orientação favorável à integração regional e à defesa da soberania, enfraqueceu a tentativa de Milei de constituir um novo bloco político continental e ofereceu ao campo progressista argentino um aliado de enorme importância econômica, diplomática e simbólica.

A esquerda argentina precisará construir unidade sem exigir uniformidade, apresentar um programa econômico que fale com quem perdeu emprego, renda e segurança, defender direitos sem pedir desculpas por defendê-los e oferecer esperança sem esconder os erros das experiências anteriores.

Sobretudo, precisará convencer uma sociedade cansada de crises sucessivas de que derrotar Milei não significa simplesmente retornar ao que existia antes dele. Significa construir outra coisa: uma Argentina produtiva, soberana, democrática e socialmente justa.

Lula venceu no Brasil, mas a expressiva votação alcançada pela extrema-direita demonstra que a disputa entre projetos antagônicos de sociedade continuará presente na vida política brasileira. Essa realidade oferece ao peronismo uma advertência tão importante quanto a própria vitória: não basta derrotar a extrema-direita eleitoralmente.

É necessário enfrentar as condições que permitem sua reprodução social e política. O campo nacional-popular argentino precisa agora compreender a dimensão histórica de sua própria tarefa.

Se conseguir fazê-lo, 2027 poderá abrir uma nova etapa política na região. Não como repetição automática da chamada onda progressista do início do século, mas como resposta democrática a uma extrema-direita que transformou a desigualdade em programa, o individualismo em ideologia e o enfraquecimento da solidariedade em projeto de poder.

A batalha argentina será decidida pelos argentinos. Mas uma parte importante das condições políticas em que ela será travada já começou a ser definida no Brasil, em outubro de 2026.

Publicação Original Brasil 247 brasil247.com
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