Ricardo Cardim e Cássio Vasconcellos fazem expedição para mapear árvores gigantes da Amazônia

Ricardo Cardim e Cássio Vasconcellos fazem expedição para mapear árvores gigantes da Amazônia - Foto
Fonte da notícia: O Globo O Globo

Há muitas formas de colaborar para que as florestas brasileiras continuem de pé. A escolhida pelo botânico e paisagista Ricardo Cardim e pelo fotógrafo e artista visual Cássio Vasconcellos foi documentá-las.

O primeiro projeto foi o livro “Remanescentes da Mata Atlântica: As grandes árvores da floresta original e seus vestígios”, que se tornou finalista do Prêmio Jabuti, em 2019. Agora, a dupla acaba de dar continuidade ao trabalho para o lançamento de um segundo volume.

Durante 15 dias, Ricardo e Cássio se embrenharam pelas florestas do Amapá e do norte do Pará. Enfrentaram estirões de horas por estradas que lembram a Transamazônica, percorreram quilômetros em voadeiras por rios vencendo corredeiras e dormiram em acampamentos no coração da mata.

Tudo para concretizar a primeira de uma série de viagens que pretendem fazer para mapear as árvores gigantes da Amazônia. Cardim admira uma Urucurana- branca

Cássio Vasconcellos “Hoje, restam apenas 12% da Mata Atlântica.

O que levou 500 anos para acontecer com ela provavelmente vai ocorrer em apenas 50 na Amazônia”, alerta Cardim. Em 1970, 3% da floresta amazônica havia sido desmatada.

Hoje, esse número é quase sete vezes maior. Segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, a perda histórica acumulada atinge 20,6% em relação à cobertura original.

Mas não se pode levar em conta só o desmatamento. “O problema é a degradação.

Quando você tira a madeira, queima a mata, a vegetação ainda aparece como ‘de pé’, mas a floresta já foi dilapidada”, explica. A busca pelas gigantes é importante porque elas têm uma função essencial.

Sem elas, a floresta fica desprotegida dos ventos e do excesso de luminosidade e tem sua sobrevivência colocada em risco. “São árvores-mães.

Cresceram quando a mata era intocada. Suas copas podem ter mais diversidade do que uma floresta europeia inteira”, diz o botânico.

Por isso, a importância de desvendá-las. “É comum falarmos das sequoias, que atingem mais de cem metros de altura, na América do Norte, mas sabemos pouco sobre as nossas”, compara Cássio.

O roteiro incluiu a Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Rio Iratapuru, no sul do Amapá, e o Parque Nacional Montanhas do Tumucumaque, na divisa com o Pará, uma área de mais de 38 mil quilômetros quadrados, onde estão as árvores seculares da Amazônia brasileira, que ultrapassam 70 metros de altura.

A maior registrada até hoje é um angelim vermelho de 88 metros — o equivalente a um prédio de 30 andares. “Essas grandes árvores são um legado para a Humanidade.

Representam um patrimônio natural extraordinário do planeta”, afirma Diego Silva, doutor em ciência florestal e professor do Instituto Federal do Amapá. “Desempenham um papel fundamental para o armazenamento de carbono, a manutenção da biodiversidade e o equilíbrio da floresta”.

Mututi com raízes sapopemas em igarapé Cassio Vasconcellos

Um estudo liderado pela Universidade do Estado do Amapá, publicado pela revista científica britânica New Phytologist, estima que há 55,5 milhões de árvores gigantes espalhadas pela Amazônia. Ao longo da viagem, a dupla cruzou com várias.

São castanheiras, maçarandubas, piquiás, sapucaias, urucuranas, que demoraram até 500 anos para vencer o topo da mata. “O angelim vermelho adulto chega em média a 70 metros de altura, quase o dobro do Cristo Redentor, que tem 38”, compara Cardim.

Mas o maior espetáculo ficou por conta de uma sumaúma, em Afuá, no Marajó. Conhecida como “A Muralha”, tem verdadeiros paredões ao seu redor, formados por raízes de sapopemas, que fazem com que sua circunferência some 64 metros.

“Ao vê-la, tive a mesma sensação que vivenciei quando entrei em catedrais na Europa”. Para Cardim, o trabalho vai além do livro.

“Apresentar essa biodiversidade para os brasileiros é minha missão de vida”, afirma. Já Cássio vê no poder da imagem um caminho para a educação.

“Minha parte é mostrar tudo isso da melhor forma e, assim, sensibilizar as pessoas, contribuindo para ampliar o conhecimento sobre a floresta. Ninguém se preocupa em preservar o que não conhece”, acredita.

Em edição bilíngue (português/inglês), o livro vai mostrar ainda como se deu a ocupação da Amazônia, lembrando obras como a Transamazônica, o Projeto Jari e a Perimetral Norte. “A ideia é apresentar uma Amazônia fora do clichê”, propõe Cardim.

E quem sabe, no futuro, fazer um museu dedicado à biodiversidade brasileira, um sonho do botânico. “O país com a natureza mais rica do mundo não possui um museu dedicado a ela!”, provoca.

Publicação Original O Globo oglobo.globo.com
Acessar no site oficial
Compartilhar: WhatsApp Facebook Telegram X
Curadoria e Apuração Editorial QTU Conteúdo jornalístico publicado em conformidade com os nossos Princípios Editoriais e política de transparência.
Conhecer a Redação →