Eliana Alves Cruz e Evandro Luiz da Conceição: cariocas do subúrbio na final do Jabuti falam de sua relação com o Rio

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Fonte da notícia: O Globo O Globo

Eliana Alves Cruz nasceu em Realengo, na Zona Oeste do Rio, mas já passou por Madureira e Tijuca, entre outros bairros, até fincar raízes em Vila Isabel. Evandro Luiz da Conceição, que se define como uma pessoa de “alma cigana”, veio ao mundo em Benfica e viveu dos 5 aos 18 anos em Piabetá (distrito de Magé).

Depois voltou ao Rio, tendo passado por Penha, Cidade de Deus, Madureira, Estácio e Lapa até chegar ao Engenho Novo, onde está há oito anos. Ambos são escritores negros, com uma grande vivência da cidade impregnada em suas obras, de maneira explícita ou não.

Os dois representantes da Zona Norte estão na final do Prêmio Jabuti, o mais tradicional e importante da literatura brasileira, cujos vencedores serão anunciados nesta terça-feira, em uma cerimônia realizada em São Paulo. Aniversário: Hospital Miguel Couto, uma das maiores emergências do Rio, completa 90 anos

Veja ops detalhes: Nova subida da Serra de Petrópolis terá túneis novos, menos curvas e tempo de viagem reduzido Aos 60 anos, Eliana Alves Cruz é uma premiada escritora, autora de diversos títulos.

Seu romance de estreia, “Água de barrela”, foi vencedor do prêmio literário da Fundação Palmares, em 2015. Dois anos depois, lançou “O crime do Cais do Valongo”.

Em 2022, publicou o livro de contos “A vestida”, vencedor na categoria do Jabuti daquele ano. Disputa acirrada

Desta vez, ela disputa com “Meridiana”, que conquistou o Prêmio Guimarães Rosa, dado pela Academia Brasileira de Letras (ABL) para o livro do ano de 2025, na categoria “Ficção”. A obra detalha o processo de ascensão social de uma família negra.

Concorrendo à categoria principal, agora denominada “Romance Literário”, com Itamar Vieira Junior (“Coração sem medo”), Milton Hatoum (“Dança de enganos”), Aline Bei (“Uma delicada coleção de ausências”) e Evandro Affonso Ferreira (“Vez em quando, Billie Holiday”), Eliana não considera que a vitória na ABL amplie suas chances.

— São premiações completamente diferentes, e é uma categoria que este ano está muito disputada. Todos os livros que estão ali são muito bons, assim como os que ficaram na semifinal.

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Eliana nascida em Realengo e hoje vive em Vila Isabel Marina Calderon

Evandro Luiz, de 50 anos, já havia participado de diversas coletâneas, publicadas no Brasil e no exterior, mas com “Minha estranha loucura”, sua estreia solo, concorre como finalista na categoria “Conto”. Também estão no páreo os autores Marcos Vinicius de Paula (“Corpo estranho: ferida fechada com a lâmina dentro”), Abáz (“Massaranduba”), Andréa del Fuego (“Nego tudo: ficções súbitas”) e João Anzanello Carrascoza (“Tranças de meninas: contos”).

O livro do carioca reúne nove histórias de personagens negros, gays e periféricos, que repetem o perfil do autor, até hoje surpreso com a indicação. — Costumo dizer que sou a materialização do sonho daqueles que sonharam por mim — define o filho de uma trabalhadora doméstica, pouco escolarizada, que costumava registrar o seu cotidiano em um diário.

— Acabo voltando ao lugar de origem, dos que me antecederam e pavimentaram o caminho para que eu conseguisse chegar aqui. Mais verde: Prefeito sanciona lei que institui plano de arborização de favelas do Rio para reduzir calor e prevenir desastres

O Rio está presente na literatura dos dois finalistas. Em “O crime do Cais do Valongo”, romance histórico-policial de Eliana Alves Cruz, a geografia da cidade permeia a trajetória dos personagens, que vão retornar na série chamada “Crimes Coloniais”, aberta com a reedição da publicação de oito anos atrás.

Mas nem sempre essa relação com o Rio é explícita. — Em “Meridiana”, assim como em “Solitária” (também da autora), eu não determinei a cidade (em que a ação se passa), mas é claro que as pessoas identificam ali alguma coisa de Rio de Janeiro, pela geografia da favela descrita no livro, pelas gírias e pelas experiências coletivas, como no caso do personagem que nos anos 70 frequentava os bailes black.

Dá para identificar o Rio ali, embora seja uma história que poderia se passar em qualquer outra grande cidade do Brasil — diz. Entenda: Por que o interior do Estado do Rio vota diferente da capital?

‘Carioquês’ Segundo a autora, o Rio se manifesta em sua obra de várias formas, tanto na fala quanto na escrita e nas expressões usadas por ela.

— Minha geração é a primeira carioca na família, que é toda baiana. Meu avô materno veio para cá entre os anos 30 e 40 do século XX.

Já rodei por vários bairros e pelas diversas realidades do Rio. Acho que conheço bem a cidade e sua história.

Evandro: cria do subúrbio com alma cigana Marina Calderon

Entenda: Itaguaí terá eleição para prefeito junto com segundo turno presidencial neste domingo Para Evandro, falar de personagens periféricos é a oportunidade de contar as histórias de quem nem sempre tem voz, além de dar dignidade a essas pessoas.

— Falar do subúrbio e desses personagens com autenticidade, sem recorrer aos estereótipos, sem equívocos, é humanizar, dar dignidade e trazer à tona sonhos que povoam qualquer pessoa, independentemente da classe social e de onde ela vem. O colorido do existir está ali, apesar das contradições que permeiam a existência humana.

A gente traz esse subúrbio como ele é, com sua potência, sua forma de se comunicar, com as famílias como elas são, suas festas. Evandro conta que começou a escrever na adolescência, mas sua relação com os livros vem da infância.

Na sua formação como leitor, buscava encontrar nessas leituras aproximações literárias de sua experiência de vida. 'Ninguém fica trás': grupo de corrida gratuito criado por três amigos na Zona Norte chega a 300 participantes

— Por conta de minha orientação sexual, sofri muito bullying na escola. Uma vez me envolvi numa confusão, e o castigo foi arrumar a biblioteca, que estava em obras — conta, acrescentando que ali, entre os livros, ficou encantado e passou a querer estar sempre naquele lugar, considerado seguro por ele, além de permitir-lhe fugir das aulas de que não gostava.

— A atração pela leitura começou pelos clássicos, mas com o tempo passei a sentir falta dos meus, como Carolina Maria de Jesus (autora de “Quarto de despejo”). No caso de Eliana, o amor aos livros nasceu dentro de casa, incentivado pelo pai, dono de uma grande biblioteca destruída numa enchente, cujo acervo ele passou o resto da vida repondo.

— Foi o meu primeiro contato com a literatura fora da escola — diz a filha de uma professora, com chance agora de levar o segundo Jabuti para sua estante.

Publicação Original O Globo oglobo.globo.com
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