"Eu me sinto muito grata.” Essa é a primeira frase que a atriz Luiza Mariani, de 46 anos, diz ao ser questionada sobre o que viveu nos últimos dois anos. Em 2024, a carioca se viu dentro de um roteiro fora dos planos: um diagnóstico de câncer de mama.
“Tudo começou na mamografia de rotina, que realizo anualmente desde os 38 anos, quando coloquei silicone”, explica. “Na hora em que me pediram para refazer o exame e realizar uma biópsia, já me veio uma sensação horrorosa.” O resultado confirmou a angústia.
“Era um carcinoma in situ com foco suspeito de invasão estromal. Ou seja, havia a desconfiança de ter atingido os linfonodos, o que exigiria sessões de quimioterapia.” De lá para cá, ela trilhou uma estrada muitas vezes árida, mas sempre disruptiva.
As reflexões sobre essa jornada de cura — que incluem duas cirurgias sendo uma delas uma mastectomia dupla — se transformaram em escritos num caderno, como processo terapêutico, e, agora, em teatro. No dia 31, Luiza estreia o monólogo “O que o meu peito carrega sobre mim”, com direção de Bia Lessa, no Teatro Poeira.
“O texto da peça nasceu da minha experiência. Parto dela para investigar o seio feminino, que nunca foi apenas uma parte do corpo das mulheres”, analisa.
Bia Lessa complementa: “Os dois pilares do espetáculo são o limite entre vida e morte e a questão dos modelos, da imposição social”. Mas antes de utilizar uma lente macro para ativar ponderações profundas, a atriz esbarrou em diversas perguntas, muitas delas sem respostas imediatas, e teve que tomar decisões rápidas.
Ela se lembra bem do que sentiu na primeira consulta com o mastologista: “Fiquei analfabeta de mim. Carcinoma, radioterapia, calcificação, grau 3, não reconhecia aquelas palavras”.
Porém, era exatamente esse o vocabulário que precisou colocar no radar. “Fiz uma série de exames para saber se os linfonodos tinham ou não sido atingidos.
Porém, foram inconclusivos. Dependia desse resultado para entender se faria quimioterapia”, explica.
Depois da cirurgia conservadora, veio uma notícia confortante. “Os linfonodos estavam ‘limpos’, tiramos isso da frente e dei uma relaxada.” Aqui vale lembrar uma frase da música “Pseudo-blues”, de Jorge Salomão e Nico Rezende, gravada no álbum “Virgem” por Marina Lima, a quem Luiza, não por acaso, vai interpretar no cinema: “O certo é incerto, o incerto é uma estrada reta / De vez em quando acerto, depois tropeço no meio da linha”.
Em sintonia com essa trilha sonora, o resultado da biópsia do “quadrante” (bloco de tecido da mama) foi revelado uma semana depois. “Quando saiu a patologia final, descobriram que as margens da lesão estavam completamente comprometidas”, relata a atriz.
“Não precisaria de quimioterapia, mas teria que passar por uma mastectomia dupla. Aí foi punk.”
EL Luiza Mariani Sher Santos
No dia da cirurgia, marcada depois de ela atravessar um “apavoramento”, encarou outra prova de resiliência: “Quando estava chegando ao hospital, minha mãe me ligou. Meu pai tinha sido internado em estado grave.
Cancelei tudo. Ele morreu em menos de um mês”.
Três dias depois do ocorrido, teve que realizar mais uma mamografia. Queria dar um respiro entre um trauma e outro.
“Estava na sala de espera e saiu uma médica do setor de exames. Me apresentei e disse que ia adiar a cirurgia.
Ela respondeu: ‘Não vai não’. Estava tomada de microcalcificações novamente.” Luiza partiu, então, para a mastectomia.
Foi justamente no ponto crítico da travessia contra o câncer de mama, a mastectomia, que aconteceu uma espécie de “virada de chave”: “De repente, virei uma ‘giganta’, uma mulher que celebro. Apavorada, mas muito maneira.” As trocas de áudio com as amigas durante todo o processo que volta e meia reproduz para se certificar de percepções encorajadoras fizeram que fosse além.
“Nunca me senti tão perto de Deus. Não sou religiosa, mas sinto que existiu uma convocação.
Atravessei um portal”, observa Luiza, mãe de Dora, de 14 anos, e Tom, de 10, do casamento “muito feliz” com o advogado Flávio Zveiter. EL Luiza Mariani
Sher Santos Amiga íntima da atriz, a stylist e criativa Lulu Novis não se surpreendeu com a coragem: “Ela é delicada no lugar da sensibilidade, mas é uma fortaleza.
Transformou a dor em uma peça de teatro que vai inspirar muitas mulheres”. Entre os altos e baixos do processo, recebeu um conselho da terapeuta, que sugeriu que colocasse em palavras o que estava atravessando.
“O texto não nasceu no intuito de virar uma peça, foi um jorro”, define. Por meio dessa catarse, passou a limpo a relação com o peito.
“Sempre fui insatisfeita com a forma que eles eram, vivia às turras.” A cronologia dos fatos evidencia essa “guerra”: muito jovem, sofria por tê-los fartos.
Aos 22 anos, fez redução de mama sabendo que poderia interferir na amamentação. “Mas nem pensava nisso naquela época.” Os filhos chegaram e, por conta da tal cirurgia, não conseguiu passar dos três meses de aleitamento.
“Sofri pra caramba”, confessa. Aos 38, depois do nascimento de Tom, colocou silicone para levantá-los.
“Foi uma decisão meio banal”, admite. “Passei um tempão negociando com esse peito.
Grande demais, pequeno demais, murcho demais, doente demais. Nunca estive satisfeita.
Finalmente, quando eu os retiro, me liberto”, diz ela, que fez a reconstrução da mama. EL Luiza Mariani
Sher Santos Bia Lessa ressalta a interferência de padrões estéticos nesse vai e vem.
“É resultado do que a moda nos impõe, não do que somos”, observa. “O bacana é criarmos perguntas para podermos dar passos para frente”, emenda.
Amiga desde os 12 anos da atriz, a gestora artística e produtora executiva Carol Monte acredita que o espetáculo será um marco: “Sintetiza o que Luiza é: uma pessoa pensante, da escrita, e uma grande questionadora”, diz. No monólogo, a atriz vai usar a camisola que comprou para a primeira cirurgia.
A roupa de dormir branca com babados na manga ganhou uma série de anotações feitas durante os ensaios e manchas vermelhas que lembram sangue. “Nada é fake”, destaca Bia, que convidou Oskar Metsavaht para assinar a direção criativa, Juliana Suassuna, o figurino, e Paulo Pederneiras, um dos fundadores do Grupo Corpo, a iluminação.
A narrativa é dividida em 65 “microcenas”. “Quando a gente está no limite, as emoções são multifragmentadas”, justifica a diretora.
“São como polaroides”, ilustra a atriz. Ela faz questão de celebrar a parceria com a encenadora.
“O que Bia fez do meu texto foi além do que poderia prever. Estou encantada.”
EL Luiza Mariani Sher Santos
Marina Lima, que vai ser interpretada por Luiza no cinema em filme que está sendo escrito pela cineasta Vera Egito, lembra o primeiro dia que pousou os olhos sobre a então menina. “O que me chamou a atenção foi o fato de ela ser muito bonita, rica, da sociedade carioca, mas não se encaixar em nenhuma caixinha óbvia.
Era diferente mesmo”, relata. “Vim saber adiante que queria ser atriz, o que achei interessante.
Era alguém que poderia ter um caminho mais fácil”, emenda. Marina passou a acompanhá-la, observando sua “assinatura autoral” nos trabalhos e na vida.
Até que, tempos depois, soube por meio de Candé Salles, seu empresário e amigo, que a atriz gostaria de comprar os direitos da sua história. “Adorei porque, assim como ela, sempre fui gauche na vida”, diz.
O projeto se encontra em fase de gestação. “Eu e Marina temos uma relação de confiança.
Estamos na primeira versão do roteiro e devemos filmar no fim de 2027”, adianta Luiza. EL Luiza Mariani
Sher Santos São desafios como esse que movem a leonina que iniciou a carreira no teatro, aos 15 anos, na peça “Confissões de adolescente”, de Maria Mariana.
Depois, foi para a TV e morou dois anos em Nova York estudando teatro no Instituto Lee Strasberg e cinema na New York Film Academy. Para materializar os próprios projetos, concilia a carreira de atriz com a de produtora.
Do tipo determinada. Levou 18 anos para filmar a história da escritora Maria de Lourdes Castro Pontes, que teve romance de final trágico com o modernista Oswald de Andrade; o longa “Cyclone” estreou em 2025.
Como assinala Bia Lessa, “é preciso ter peito para enfrentar o mundo”. Isso, Luiza tem de sobra.
Beleza: Fox Goulart. Assistente de fotografia: Eloy Patrick e Bianca Passos.
Tratamento de imagem: VW Retouch. Assistente de moda: Faby Pernambuco.
Produção executiva: Kariny Grativol.
O Globo