O Centro de São Paulo começa a transformar seu patrimônio arquitetônico em um novo filão imobiliário. Em 2026, a soma dos principais projetos de “retrofit” da região, entre prédios concluídos e em chegou a uma cifra bilionária.
A lista formada por VGV ou “valuation” de edifícios residenciais e comerciais reúne Basílio 177 (R$ 280 milhões), Virgínia (R$ 115 milhões), Tebas (R$ 32 milhões), Firenze 342 (R$ 50 milhões), 21 projetos da gestora Ilion Partners (R$ 640 milhões) e chega a R$ 1,1 bilhão, revelando a robustez alcançada pelo segmento.
A conta não inclui o portfólio de cinco projetos da Planta Inc., na Vila Buarque, também na região central da cidade. Em 2024, a gestora canadense Brookfield arrematou quatro deles, que, somados a outro prédio da marca na região da Avenida Paulista, gerou um negócio de R$ 250 milhões, segundo dados do mercado na época.
A movimentação ganhou impulso com o Requalifica Centro, programa lançado em 2021 que oferece incentivos fiscais para estimular a recuperação de imóveis abandonados ou subutilizados em um raio de 6,4 quilômetros a partir do Centro. Até setembro deste ano, 50 projetos haviam sido aprovados, dos quais 15 já foram entregues.
Detalhe de uma unidade do Basílio 177. Com VGV de R$ 280 milhões, o edifício lidera o ranking de prédios retrofitados mais valiosos da região
METAFORMA INC./DIVULGAÇÃO Um dos empreendimentos que começam a materializar essa transformação é o Basílio 177, da Metaforma Incorporadora, que está recebendo os primeiros moradores.
Localizado entre as ruas Sete de Abril e Basílio da Gama, o residencial reúne três blocos de apartamentos, um deles instalado em um edifício histórico de 1939, em estilo art déco. Projetado pelo escritório do arquiteto Ramos de Azevedo, responsável também pelo Theatro Municipal de São Paulo e pelo Mercadão, o prédio abrigou uma central telefônica da Telesp.
Das 274 unidades, restam apenas 40 disponíveis ao preço médio de R$ 13,5 mil o metro quadrado. “É um mercado em crescimento sobre um tema já bastante difundido e cada vez mais explorado na cidade.
Acredito, inclusive, que seja o momento de discutirmos novos produtos financeiros para estimular ainda mais o segmento”, sugere Bruno Scacchetti, CEO da Metaforma, acrescentando que as incorporadoras vêm se movimentando para ampliar a oferta de produtos nessa categoria. A Somauma também aposta na recuperação de construções emblemáticas.
Um dos destaques é o Edifício Virgínia, construído em 1949 pelo arquiteto José Augusto Bellucci, entre as ruas Martins Fontes e Álvaro de Carvalho. O projeto de reconversão preserva a fachada original, restaurada pela Metrópole Arquitetura.
Os interiores são assinados por Vitor Penha. A nova configuração terá 121 apartamentos — mais de 90% já vendidos.
Com apartamentos de 26 a 290 metros quadrados, o Edifício Renata Sampaio Ferreira, com bar, cafeteria, restaurante e piscina, é uma joia do arquiteto Oswaldo Bratke, que pertence à gestora canadense Brookfield PLANTA INC./DIVULGAÇÃO
A incorporadora desenvolve outro projeto no Largo da Misericórdia, com 60% das 43 unidades já negociadas. Ambos terão lojas no térreo.
A proposta é que sejam vendidas a compradores institucionais em busca de renda. “A tese de investimento no Centro combina mobilidade, empregos, infraestrutura, cultura e patrimônio arquitetônico, e os preços dos imóveis ainda não refletem todo o potencial da região”, analisa Marcelo Falcão, sócio-fundador da Somauma.
Com cinco empreendimentos desenvolvidos e entregues na região, a Planta Inc. é outra empresa relevante nesse mercado.
Um de seus projetos mais emblemáticos é o Edifício Renata Sampaio Ferreira, construído em 1965 pelo arquiteto Oswaldo Arthur Bratke. Originalmente comercial, o imóvel foi reconvertido para uso misto e reinaugurado em 2024, após uma reforma assinada pela Metro Arquitetos.
O edifício ganhou apartamentos de 26 a 290 metros quadrados, além de bar, restaurante, cafeteria e piscina no mezanino. Voltado para locação, tem unidades a partir de R$ 8,4 mil mensais.
NOVOS PROJETOS A próxima leva de empreendimentos reforça a diversidade dessa transformação, que avança tanto sobre antigos edifícios residenciais quanto sobre imóveis corporativos.
É o caso do Firenze 342, da LAF Incorporadora, lançado em setembro e com entrega prevista para 2029. Com mais da metade dos 102 apartamentos já negociada, o Firenze 342, um prédio histórico de 1950, integra a nova safra de produtos retrofitados da região
LAF INCORPORADORA/DIVULGAÇÃO O projeto ocupa parte de um prédio histórico de 1950, na Rua Sete de Abril, idealizado pela tradicional família Martinelli.
Com influências do racionalismo europeu, a construção foi símbolo da modernidade em sua época. Após o “retrofit”, receberá apartamentos e “lofts”, além de “rooftop” com spa, academia Technogym e bicicletário.
O movimento também alcança o mercado corporativo de alto padrão. No início da Rua da Consolação, o antigo Edifício Henrique de Toledo Lara, rebatizado de Edifício Consolação, terá 11 pavimentos, lajes de até 1,05 mil metros quadrados, mais de 200 vagas de estacionamento e dez lojas no térreo.
As obras começam ainda em novembro, sob responsabilidade do escritório Una Muniz Viegas. Fachada do Edifício Consolação: corporativo restaurado terá lajes de mil metros quadrados para atrair economia criativa
ILION PARTNERS/DIVULGAÇÃO “Há demanda para corporativos no microbairro onde começa o Centro.
A região interessa ao público jovem, criativo, e tem atraído muitas empresas também. Além disso, está diretamente conectada às avenidas Rebouças e Paulista, dois eixos econômicos importantes da cidade”, avalia Maxime Barkatz, sócio-fundador da Ilion Partners, gestora de investimentos e dona do prédio, seu 21º ativo no Centro.
A expectativa é que o valor do aluguel das lajes esteja estabilizado em 2028. Após isso, o ativo deverá ser vendido.
Para ele, a força do “retrofit” está também na capacidade de reconectar a cidade a seu patrimônio. “O ‘retrofit’ no Centro gera engajamento das pessoas, por combinar resgate histórico de prédios, revitalização de áreas e usos modernos.
Como este mercado está aquecido, com muita gente investindo, nossa estratégia agora será lançar menos projetos por ano, mas com valores mais altos”, afirma Barkatz.
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