'O cliente imobiliário quer viver uma experiência mais autêntica'

'O cliente imobiliário quer viver uma experiência mais autêntica' - Foto
Fonte da notícia: Valor Valor

O caos urbano inquieta e inspira o incorporador paulistano Eduardo Andrade de Carvalho, administrador formado pela Fundação Getulio Vargas (FGV). Ex-líder das incorporadoras Moby e MOS, onde buscou desenvolver projetos integrados à cidade, ele também atua como curador cultural e autor de artigos e livros.

Em 2025, criou a Campo, Espaços Rurais, para criar condomínios residenciais em fazendas, com cultivo e produção obrigatórios. O primeiro empreendimento, Fazenda Sede, fica em Jacutinga (MG), a duas horas da capital paulista e vizinha de Espírito Santo do Pinhal (SP), conhecida pela vinicultura de qualidade.

São 127 hectares divididos em 45 propriedades de 20 mil a 25 mil metros quadrados, com preços a partir de R$ 4 milhões. A proposta é oferecer uma segunda residência com “lifestyle” rural e conectar as pessoas com a lavoura e a comunidade do entorno.

Por que você resolveu olhar para a roça depois de mais de 20 anos como incorporador na metrópole paulista? Eduardo Carvalho — Eu sempre tive vontade de trabalhar com algo voltado para o campo.

Eu gosto da cidade, moro na capital, me interesso sobre o debate do ambiente urbano, mas, ao mesmo tempo, vejo que as pessoas têm buscado cada vez mais uma alternativa de vida fora das grandes metrópoles. Acredito que é possível se viver uma experiência rural e feliz em um município pequeno.

O interior paulista tem recebido diversos empreendimentos de campo. Como este se diferencia deles?

A Fazenda Sede não é um condomínio de luxo a mais. Há diferenças importantes, a começar pelos pilares que sustentam a tese da empresa: desenvolver projetos rurais com produção agrícola efetiva, natureza real sem paisagismo cosmético e conexão com a comunidade do entorno.

Nosso desejo é que os moradores da fazenda saiam de carro, de bicicleta ou a cavalo e conheçam outros produtores, restaurantes e negócios ao redor. O cliente imobiliário de alta renda está em busca de autenticidade?

Acho que sim. Ele quer consumir um produto que lhe faça bem, não porque está na moda ou para exibir aos outros.

Esse cliente tem olhado para dentro de si, e autenticidade tem a ver com isso. Em um mundo em que as coisas têm ficado pasteurizadas, poder estar com a família, em sua casa, e produzir seu próprio vinho ou azeite, por exemplo, é viver de forma mais autêntica.

Vista aérea da Fazenda Sede em Jacutinga (MG), na divisa com São Paulo: uma segunda residência com proposta rural YGHOR BOY/DIVULGAÇÃO

Como será a experiência na prática? Após a compra, ajudamos o proprietário a escolher onde e o que será plantado na parcela agrícola de seu lote.

Pode ser um pomar de frutas, oliveiras ou um vinhedo — para estes casos, contamos com a consultoria do especialista em vinhos Jorge Lucki e do vinicultor português Paulo Monteiro, para definir o tipo de uva e o manejo. O proprietário poderá escolher entre ficar com toda a produção ou ceder o vinhedo para uma estratégia integrada com as demais propriedades, ficando com parte das garrafas.

A Fazenda Sede terá uma estrutura própria de vinificação, e esse processo garantirá a qualidade da bebida que será produzida lá. Que uvas têm sido recomendadas, e qual o tempo para começar a produção?

Temos apostado na Cabernet Franc, evitando a Syrah que, embora bem adaptada à região, tem sido adotada em demasia, gerando oferta excessiva de vinhos. Já plantamos 1,5 hectare de Cabernet Franc para os primeiros clientes.

A previsão é de que a primeira safra ocorra em três anos. Quantos lotes já foram vendidos?

Até o momento, cerca de 30% dos terrenos foram negociados, com preços a partir de R$ 4 milhões, variando conforme a posição no terreno da fazenda. No total, devemos investir cerca de R$ 60 milhões, com VGV estimado em R$ 200 milhões.

Croqui da Fazenda Sede Croqui da capela em restauração na fazenda: resgate histórico e novos usos CAMPO/DIVULGAÇÃO

Como você descobriu essa propriedade? Meu sócio no projeto, José Theodoro Prata Júnior, comprou a fazenda e me ofereceu quando eu ainda estava na MOS.

Pensei em entrar como cliente, mas me encantei com a propriedade e resolvi desenvolver como negócio. A origem da Fazenda Sede é do final do século XIX, quando tinha o nome de São José e, depois, de Ranchão.

Era uma espécie de entreposto de trabalhadores e negociantes, que vinham dos campos de mineração de Minas Gerais rumo às lavouras de café paulistas. Então, tem uma história muito bonita que queremos recontar.

O que será feito neste sentido? Vamos investir na restauração das áreas de produção antigas e das 24 edificações já existentes.

Contratamos o escritório Raddar, da arquiteta mexicana Sol Camacho, que é especializado neste tipo de obra, envolvendo resgate histórico e reconversão para novos usos. As áreas externas, como o terreiro de secagem dos grãos de café, serão recuperadas, a capela e a casa sede serão reconstruídas, e as casas dos colonos serão transformadas em biblioteca, memorial e academia.

Faremos quadras de tênis perto do lago e a infraestrutura de vinificação, ao lado de um pomar de jabuticabeiras antigas que encontramos por lá. E quanto às residências dos futuros proprietários, haverá orientação sobre o tipo de arquitetura a ser usado?

A Fazenda Sede foi inspirada nas "sea ranches" da Califórnia (EUA), que são casas em condomínios perto do mar, mas com uma atmosfera mais rural. No projeto deles, há controle de design.

O que teremos é uma norma construtiva interna, estímulo ao uso de materiais naturais e um comitê de arquitetura que aprovará previamente cada projeto. Será um tipo de moderador entre a liberdade do cliente em ter sua própria casa e a percepção de unidade harmônica daquele coletivo de residências.

E vamos oferecer casas prontas também. Quais os próximos passos da companhia?

Estamos em negociação com outra propriedade, em Campos do Jordão (SP), com foco na produção de azeite e no público equestre. E estive recentemente no Uruguai, estudando possibilidades de reproduzir o conceito no interior daquele país.

Vai virar um homem do campo, definitivamente? Eu sempre tive este sonho, de ser fazendeiro.

Na verdade, primeiro sonhava em ser tenista profissional e empreendedor, mas como passava as férias da infância e da adolescência na fazenda dos meus avós, em Barretos (SP), isso ficou na minha mente. Acompanhava meu avô visitando outros criadores de gado, negociando os animais e gostava dessa vida rural.

Agora, de certa forma, o sonho se tornará realidade.

Publicação Original Valor valor.globo.com
Acessar no site oficial
Compartilhar: WhatsApp Facebook Telegram X
Curadoria e Apuração Editorial QTU Conteúdo jornalístico publicado em conformidade com os nossos Princípios Editoriais e política de transparência.
Conhecer a Redação →